13 de setembro de 2010

Summertime

Summertime

Virou de lado e colocou um travesseiro sobre o rosto para se proteger do raio de sol que filtrava pela veneziana. Não estava sonhando, era mesmo o Adágio de Albinone que vinha do banheiro. Espreguiçou-se, colocou o roupão, entreabriu a porta do banheiro e ficou imóvel observando. Através do vidro embaçado do box se deu conta de como ela ainda continuava atraente. A meticulosidade com que ela limpava seu corpo o impressionara desde a primeira vez em que a vira tomar banho. Não era apenas meticulosidade ou capricho, era técnica. Banho, para ela, era uma cerimônia, um ritual de prazer - a água morna escorrendo pelos cabelos castanhos; a maneira delicada de deslizar o sabonete por todo o corpo, reentrâncias e saliências, os dedos longos, unhas cortadas rentes, sem esmalte, espalhando a espuma, milimetricamente; e depois o detalhe em se enxaguar, passar as mãos pelo corpo para retirar o excesso de água antes de se enxugar; a elegância com que se equilibrava em uma perna e enxugava os dedos dos pés ...
Ao perceber a presença dele, olhou intrigada e foi logo avisando que era dia de folga da empregada e teriam que preparar o próprio café da manhã.
A música o deixara sensível e inspirado; parecia haver algo especial no ar leve daquela manhã de verão. Disse a ela para relaxar e ficar ouvindo o programa matinal da Cultura FM enquanto ele preparava o café. Sentia um inexplicável bem-estar e em paz com a vida após uma semana agitada e a perspectiva de um domingo de lazer e preguiça, sem nenhuma programação. Resolveu impressioná-la com um desjejum especial, fora da rotina do dia-a-dia, dos cafés corridos e do beijo mecânico e apressado antes de sair para deixar as crianças na escola, sempre um pouco atrasado ...
Sabia como ela adorava tomar o café da manhã ao ar livre. Sempre que podia passava a mão no suplemento de cultura do Estadão e ia tomar a última chicara de café no jardim dos fundos. Ás vezes levava seu pequeno binóculo e ficava observando os sabiás-laranjeira e sanhaços, sanhaçús, como ela gostava de dizer, beliscando os restos de fruta que ela espetava nos espinhos do pé de limão galego, do qual se orgulhava tanto de haver plantado.

Preparou suco de tangerina misturado com lima-da-pérsia para dar um leve amargor, papaia já sem sementes e com uns pingos de limão como ela gostava, uvas rubi do vale do São Francisco, torradas de pão integral, geléia de mexerica-bode feita pela tia Milena em Taiaçú, queijo de minas, café colhido e torrado na fazenda e leite fumegante, espumado. Forrou a mesa do jardim com uma toalha de linho branco e arranjou os talheres, louças e comidas caprichosamente, enfeitando a mesa com um copo longo de tomar grappa, lembrança da lua de mel em Florença, onde colocou uns tufinhos de flores de capim e dois raminhos de beijo lilás que apanhara embaixo da pitangueira. María não era mulher de orquídeas, dálias, flores exuberantes; preferia uma florzinha simples, destas que crescem nos terrenos baldios. Quando tudo estava pronto ficou satisfeito com seu trabalho e assobiou.
Ela apareceu descalça e faceira, e com um ar maroto foi dizendo “opa!, café no jardim, hummm ....” Pegou uma torrada, passou manteiga, Aviação, daquelas de lata (nunca usava margarina), e espalhou um pouco de geléia de mexerica azedo-amarga sobre a manteiga, tomou um gole de suco, comentou o perfume do sumo da lima e o colorido da tangerina, e perguntou onde ele havia aprendido a arranjar uma mesa daquele jeito? “O que você pretende? Não está com segundas intenções né?”
Embora ele se sentisse ridículo no roupão bordô de seda que ela lhe dera no aniversário, não podia negar que era confortável e, além disto, hoje estava afim de agradá-la, aproveitando a ausência dos filhos, no sítio dos avós. Observou como ela estava provocante no kimono que ele havia trazido por “engano” de um hotel de Kyoto: branco com ramos verdes de bambu, estilizados, e escritas elegantes que ele não tinha a mínima idéia do significado. O kimono, pequeno para ela, deixava entrever o seio esquerdo até quase a ponta do mamilo. Proposital ou apenas descuido?
Enquanto tomava seu suco, olhava de soslaio, pensando que ela sabia muito bem como ele adorava aqueles seios. Ficou excitado ao vê-la lamber os dedos; ah, aqueles lábios, molhados, com aroma de mexerica ... Sai desejo vão!
Há muito não ousava pedir certas carícias. Achava deselegante com medo de ouvir uma desculpa que invariavelmente o deixaria emburrado o resto do dia. A idéia de forçá-la a fazer uma coisa de que não gostasse o deixava sem ação. Por isso, há já um bom tempo preferia que ela tomasse a iniciativa para um contato mais íntimo, numa espera quase sempre ansiosa e frustrante. Mesmo assim, sempre que podia transmitia mensagens subliminares de desejo. Agora mesmo, posicionara-se de forma estratégica, torcendo para que ela reparasse na elevação sob seu roupão. Distraída ela olhava os movimentos nervosos do arisco sanhaço, alheia à presença dele.
Parecia feliz, pernas abertas e esticadas, abrindo e fechando os dedos do pé de uma forma que só ela conseguia fazer, relaxada. Ao se aproximar para pegar uma torrada do outro lado da mesa ela enfiou sua mão, aquecida pela xícara de café, por sob o roupão, e o prendeu delicadamente, provocando-lhe uma agradável onda de calor e um arrepio nas virilhas. O cinto do roupão se soltou, ela deu um suspiro longo e o puxou para mais perto; pôs-se mais cômoda na cadeira e começou a acariciá-lo como nunca havia feito.
Meu deus, onde será que ela aprendeu essas coisas? Ele olhava para o limoeiro mas já não via os sanhaços .... . Só lhe ocorreu perguntar quando seria a próxima folga da empregada.