13 de julho de 2010

Quarta Parada

QUARTA PARADA

Finalmente conseguiu controlar a velha mania de arrancar pêlos da barba, coisa de quando estava entediado. Com um gesto discreto chamou a atenção da mulher para um saco plástico, destes de supermercado, que se movia estranhamente no canto da sala.

Um cheiro enjoado e quente, mistura de ozonizador, formol, vela queimada e crisântemos tornava o ar pesado. Afrouxou um pouco o nó da gravata e sussurrou que aquele cheiro lhe trazia lembranças de um táxi com "Bom Ar" que tomara no Bexiga no dia anterior.

A cabeça de um gatinho magricela espiou pela boca do saco e voltou a se esconder.

Soluços entrecortados alternavam-se com frases quase inaudíveis do outro lado da sala. O calor e aquele cheiro lhe davam uma sensação de angústia e desconforto.

A atenção do casal se voltou para uma velha de preto que interrompera sua conversa com as amigas para espantar um outro gatinho que entrava na sala.
- Por que será que há tantos gatos neste velório?, resmungou a mulher.

Os cheiros se misturavam no corredor mal-iluminado que ligava as salas, onde algumas pessoas saíam para fumar e esticar as pernas, andando de um lado para outro com ar compenetrado. Caixões entravam e saíam das salas em uma maca alta sobre rodas, acompanhados pelo vai-e-vem de parentes e amigos dos mortos.
- Não deve ser trivial administrar um velório deste porte, comentou o homem de barba, apreciando o movimento.

O casal se sentia incomodado por não conhecer ninguém.
- Sequer temos certeza se estamos na sala certa - cochichou a mulher, de mau humor.
- Como não? Checamos o nome da morta mais de uma vez, Virgínia Stecchino. Não pode haver duas pessoas com este nome e neste velório, retrucou o marido.
- Mas então onde está Anita?
Uma senhora de olhos lacrimejantes, que só podia ser parente da morta, ouviu o comentário e disse que Anita saíra para tomar um banho, mas que não demoraria.

- E se fôssemos embora e deixássemos um cartão de condolências?, falou a mulher, que ainda segurava o ramalhete de cravos comprados na esquina, não sabendo a quem entregá-lo.
- Pô mulher! Viemos de tão longe, compramos as flores e agora vamos embora sem ver Anita? Aguenta mais um pouco.

A mulher apoiou a cabeça na parede procurando uma posição um pouco mais confortável e lamentou-se de não haver trazido o livro do Quiroga, que já estava no final. Era bem adequado para um velório.
- Ora, só me faltava esta, lendo num velório! E você, pensa que eu não preferia estar jogando tênis no clube?

Um homem alto, passando dos cinquenta, ar desleixado, camisa parcialmente fora da calça jeans, barras sujas de lama e cara de sono, entrou na sala puxando pela mão um senhor de bengala, curvado pelos anos.
- O homem alto, o velho e a morta são obviamente parentes e de ascendência norte-européia. É só esperar para ouvir o sotaque, comentou o marido, voltando a escarafunchar a barba.
Ao que a mulher respondeu:
- Italianos! Esqueceu o sobrenome da sua secretária, Stecchino? O homem alto deve ser o irmão de Anita, e o velho um tio.
O velho ficou parado no meio da sala com ar apalermado, enquanto o homem alto se aproximou do caixão.

- Mais meia hora, no máximo, e puxamos o carro, não aguento mais. Não sei porque você me trouxe neste fim de mundo para um velório, resmungou a mulher. “Afinal a secretária é sua. Além do mais você deveria ter se informado melhor do caminho, antes de sair por aí, perguntando a cada esquina onde ficava o velório. Neste fim de mundo deveria ser a última e não a Quarta Parada”, disse a mulher fazendo graça.

Anita chegou logo depois, com uma sacola e mais uma braçada de flores que colocou rapidamente sobre a morta antes de vir cumprimentar o chefe e sua esposa.
- Oh, Dr. Henrique, não deveria ter se incomodado. O senhor ... tão ocupado! Só deixei o recado na sua mesa porque não irei trabalhar segunda-feira. Coitada da mamãe, foi doente a vida inteira, sofreu tanto!
A esposa de Henrique entregou as flores, logo esparramadas pela secretária sobre o véu negro que cobria a defunta, e consolou Anita com as frases de sempre:
- Henrique me contou, foi melhor assim, nestes casos a morte é um descanso...
O velho de bengala, ainda sem jeito, deu uma olhada geral na sala, fazendo um cumprimento genérico, e se dirigiu a uma cadeira vazia, ao lado da mulher do chefe, que instintivamente recuou um pouco.

- Mas tio, o senhor não quer dar uma olhada nela?, disse o homem alto.
Ao que o velho respondeu:
- Quem é ela?
- É tia Virgínia, sua irmã. Venha, e arrastou o velho para perto do caixão.
- Virgiiinia, minha irmã!, soou alta a voz trêmula do velho. O que fizeram com você? Não pode ser!. Tentou  arrancar o véu, derrubando os cravos. Começou a beijar sofregamente a morta, chamando a atenção de todos. “O que fizeram com você? Por que Deus faz isto com as pessoas? E ainda mais com as mulheres? Virgínia, você se lembra quando éramos meninos e roubávamos manga do vizinho?” Soluçando arrastou-se para a cadeira, acariciando o cabo da bengala.
A esposa de Henrique notou as mãos finas e delicadas do velho e uma certa elegância em sua postura, apesar da pele pregueada como papel vegetal amarrotado, através da qual transparecia uma bacia hidrográfica de veias azuladas. Trajava uma calça de casimira inglesa marrom feita sob medida, sapatos de camurça fora de moda mas bem conservados, suspensórios e uma camisa de cambraia branca de listras finas.
Aos poucos o velho foi se acalmando, e os presentes retomaram as conversas interrompidas por sua reação intempestiva

O gatinho agora brincava com as borboletas dos parafusos da tampa do caixão, apoiada num canto da parede.
O velho virou-se para o chefe e perguntou:
- De que morreu a moça?
- Ouvi dizer que teve uma infecção pulmonar, respondeu o chefe, desconcertado com tal pergunta.
- Então foi de doença? Coitadinha, tão jovem e bonita. Deve ser duro morrer de infecção pulmonar. E como se chamava a moça?
- Virgínia, respondeu o chefe, com uma piscada marota para a mulher.
- Que coincidência! Tenho uma irmã que também se chama Virgínia. Sabe, eu sou católico e tenho respeito a Deus, mas com a morte não concordo! Por que Deus tem que matar as pessoas? Ele cria, e depois mata!, e veemente: Com isto não concordo! E ainda mais matar mulher, e tão jovem e bonita como esta. Se fosse um homem podia se aceitar, o homem é meio bruto, não vai à igreja. Aposto que esta aí não fez mal a ninguém. O que ela pode ter feito para merecer a morte ? Um condenado, um criminoso, vá lá , mas uma mulher tão bonita?

A secretária se aproximou envergonhada e sussurrou para o chefe:
- Meu tio já tem 85 anos e a cabecinha dele não funciona muito bem. A gente não queria trazê-lo, mas ficamos com medo que fizesse um escândalo se soubesse da morte dela após o enterro.
- Tudo bem, respondeu o chefe, É apenas um idoso carente à procura de ouvintes. Não se preocupe.

Mais tranquila Anita resolveu fazer as apresentações.
- Olha tio, este senhor é o Dr. Henrique, diretor da Faculdade de Biologia. Trabalho com ele na Universidade, e esta é a esposa dele, dona Margherita.
- Anita sempre conta coisas da faculdade nas macarronadas de domingo. Puxa! Aquilo é um vespeiro hein?
- Tio, interrompeu Anita, ruborizada, procurando mudar de assunto. Fale de seu trabalho.
- Ah! O senhor sabe que trabalhei 35 anos no Teatro Municipal? Mas isto nos bons tempos, quando aquilo era mesmo um teatro. Hoje está praticamente fechado, não tem mais espetáculos, só levam algumas orquestras sinfônicas e uns balés, nada que valha a pena. No meu tempo sim, era magnífico! Ouvi Caruso, Gigli, Schipa. E tinha uma soprano, Bidu Sayão, dona de uma voz incrível. O senhor sabia que ela era brasileira?. O Caruso me deu uma foto autografada. Eu sabia cantar trechos da Aída e da Traviata. Diziam que eu tinha voz de tenor. Depois dos espetáculos os cantores iam comer nas cantinas do Bexiga, e a gente podia chegar perto deles. Era uma grande alegria! Eu morava no Bom Retiro. Lembro como se fosse hoje: num domingo de manhã fui pescar no Rio Tietê, perto do Clube Espéria. Eu queria pegar uns lambaris. Tinha oito anos e longos cachos dourados. Minha mãe gostava de cachos. Nesse dia, cheguei muito perto do barranco, escorreguei e caí no rio. Um homem me agarrou pelos cabelos e me salvou. Veja só, salvo pelos cachos, que detestava! Mas acho que teria sido melhor ter morrido pois assim não teria que morrer depois. Não temo a morte mas tenho muito medo de ficar velho. Como era mesmo o nome da moça que morreu?

O casal se entreolhou novamente.
- O senhor sabe que eu trabalhei 35 anos no Teatro Municipal? Isto nos bons tempos, quando aquilo era mesmo um teatro, hoje está fechado. Assisti Caruso, Gigli, Schipa, ...
- É um toca fitas com tape-reverso, comentou baixinho a mulher do chefe.

A secretária estava cada vez mais aflita. Pediu licença e levou o tio para fora da sala. O casal achou que era uma boa deixa para zarpar. Ao se despedirem, comentaram que não era preciso tirar o tio da sala pois eles também tinham parentes com o mesmo problema.
- Aliás, quem não tem? A alternativa para não ficar velho é morrer moço, não é?
A secretária replicou que receava que ele começasse a cantar ópera, pois tinha uma voz muito forte e certamente causaria mal-estar na família e nos outros velórios. Isto já havia acontecido na morte de outro parente.

No carro a mulher comentou que afinal até que os parentes da secretária eram simpáticos e que o velório não tinha sido tão aborrecido assim, graças ao irmão da morta e ao gatinho.
- Aliás, se este gato não viesse de um velório levaria ele para sua sobrinha. Depois prosseguiu, provocando o marido:
- Curioso, o velho parecia tão bem fisicamente, até feliz, não fosse a praga da esclerose. Você que se cuide porque isto é hereditário. Veja seus tios!
O marido, mais monologando que respondendo, resmungou que ficar esclerosado era o que mais temia, preferia morrer antes. E deu curso ao seu costume, vício do trabalho, de meter darwinismo em todas as situações do dia-a-dia, ponderando que, afinal, a esclerose deveria ter algum valor adaptativo, algum papel biológico, ou não seria tão frequente. Seria uma espécie de autodefesa, escape passageiro da realidade resultante das carências hormonais e vitória crescente dos processos de apoptose, destinados a tornar as limitações do envelhecimento e degeneração geral mais aceitáveis pelos "sobreviventes" da terceira idade. Assim, sempre que a mente antevisse uma situação de forte estresse emocional alguns neurônios seriam desligados evitando sofrimento maior. Talvez até com consequências físicas, como acidentes vasculares ....
_ Acho que você tá delirando. Vamos logo, o farol já abriu.
Henrique engatou uma primeira e pontificou:
- Pensando bem, acho perdi um pouco o pavor de ficar esclerosado.

O Gato, o Caxinguelê e Eu

O gato, o caxinguelê e eu

O Saco do Mamanguá fica aqui, na costa, entre o Rio e São Paulo. Zanzibar fica do outro lado do mundo.

O Mamanguá parece um fjord tropical, mas não é. É apenas uma ria – detalhe geográfico ainda mais interessante por ser único nesta parte do mundo.
Visitei o Mamanguá recentemente em uma expedição de canoas canadenses. Da rede, onde descansava o esqueleto cansado de remar desde Paraty, e pitava um “paieiro” de fumo goiano, observava um caxinguelê que saltitava no gramado, revirando frutos de abricó da praia. Ao perceber o gato que se aproximava rastejando, sorrateiro, ondulando o rabo como uma serpente, emitiu um som agudo e em três pulos alcançou o coqueiro, subindo até a copa antes que o bichano tivesse tempo de esboçar um ataque. O gato foi até o coqueiro, com calma, mas vivamente interessado, afiou as garras no tronco, deu algumas voltas olhando para cima, talvez pensando que as uvas estavam verdes, e deitou-se, com dignidade e aparente paciência, junto ao pé do coqueiro. Daí a pouco o esquilo desceu “a meio pau” e começou a guinchar, revoltado. Saí da rede e fui pra cozinha preparar o café.

Semana seguinte viajei para Zanzibar, um conjunto de ilhas no Oceano Índico, próximo à costa da África, ao norte de Madagascar. Após ser explorada por vários colonizadores tornou-se independente e juntou-se a Tanganica, no país que é atualmente a República Unida da Tanzânia. A ilha principal, Unguja, é hoje um centro turístico conhecido como Zanzibar. É famosa pelas praias de águas transparentes, areias brancas e recifes de corais que maravilham mergulhadores de todo o mundo. É famosa também pela sua “Stone Town”, cidade única que mantém uma arquitetura árabe e indiana extremamente curiosa; suas vielas estreitas e tortuosas, onde os mizungos (turistas) se perdem, lembram um queijo suíço.

Hoje era dia de folga no simpósio de aquicultura organizado pelo consórcio de pesquisas marinhas do Índico Ocidental. O grupo saiu cedo, em dois ônibus, rumo à Fumba, na extremidade de uma península na costa sul-ocidental da ilha. O objetivo era caminhar até uma ilhota só acessível nas marés mais baixas. Após dois dias fechados em uma sala com o ar condicionado regulado no mais frio os gringos estavam ansiosos para sair a campo, tomar sol e fotografar as gramas marinhas, algas e invertebrados expostos pela baixamar de sizígia. Como já conhecia o local desgarrei-me e resolvi caminhar pelo manguezal que se estendia para o sul. Sempre tive um fraco por manguezais apesar dos maruins e outros tipos de borrachudos. Ainda mais que os manguezais do Índico diferem bastante dos manguezais do Brasil pela sua alta biodiversidade e por crescerem em concreções de velhos bancos de coral.
Caminhei por entre as árvores testando um guia de identificação das espécies: Avicennia marina, Bruguiera parviflora, Rhizophora apiculata ...
Começou a chover e me recolhi sob a copa de uma grande Avicennia officinalis, com flores amarelo-laranja, cheirando a mel. Não encontrando local seco e confortável para sentar resolvi subir na árvore e sentar em um galho. Era uma árvore sólida, esgalhada, fácil de trepar. Encontrei uma posição confortável à meia altura, pendurei minha mochila em uma ponta de galho, peguei um pacotinho de amendoim japonês que havia surrupiado da sala VIP da VARIG, e me preparei para ler um livro do Coetzee (Disgrace), enquanto aguardava a chuva passar e a volta dos companheiros de simpósio.
Daí a pouco ouvi um cantarolar e vi um homem que se aproximava vindo da praia, possivelmente em busca de abrigo da chuva. Fiquei meio cabreiro ao lembrar de tantas estórias sobre turistas que foram assaltados e ameaçados com facas. Achei que poderia passar despercebido em cima da árvore. Procurando me ajeitar melhor, para uma espera talvez um pouco longa, derrubei o pacotinho de amendoim. O cara olhou para cima e me viu. Devia ter uns vinte anos, descalço, cabeça raspada, trajando uma velha bermuda preta e uma camisa de malha com quadrados marrons e amarelos, intercalados, como uma mesa de xadrez. Numa das mãos trazia um grande balde verde e um machete na outra. Deve ter ficado intrigado ao ver um velho de barbas brancas, com chapéu de pano e óculos de leitura, encarapitado em um galho da árvore. Imediatamente eu disse “salamaleicon, jambo”. Ele retrucou com um “jambo”. Disse algo mais que não entendi e respondi com um “assante”. Procurei demonstrar tranqüilidade, e recomecei a ler, mas alerta com o rabo dos olhos. O cara olhava para cima, curioso, sem saber bem o que fazer. Deu uma volta em torno da árvore, olhou em todas as direções, virou o balde de boca para baixo e sentou-se.

“Está planejando o assalto”, pensei. Procurando não fazer barulho, subi mais um pouco, sob seu atento escrutínio, achando que estaria mais seguro sentado próximo ao topo. Lá de cima conseguia ver meu grupo caminhando na lama e entre os corais, a pouco mais de um quilômetro. Vi, também, que outro homem se aproximava. Era mais velho, com uma camisa vermelha, de algum time de futebol, com um grande número 10 nas costas. Parou sob a árvore, trocou umas palavras com o cara do balde e olhou para cima. Quando nossos olhos se encontraram eu disse “jambo”. Ele não respondeu. Tirou a camisa, exibindo um corpo malhado pelo trabalho pesado, forrou uma pedra mais plana com a camisa e se deitou. Continuaram conversando em swahili e olhando para mim de vez em quando. Eu fingia que lia, mas mantinha a vigília, de soslaio, planejando o que fazer: se um deles subir para me pegar estarei numa posição favorável para pisar-lhe nas mãos e dar uns bons chutes, além de gritar. A não ser que usem o facão para cortar o galho onde estou sentado... .

Daí a pouco ouvi vozes e risos e vi que o pessoal do simpósio estava voltando. Aliviado desci da árvore, peguei o pacote de amendoim e dei para o cara do balde. Ele estendeu a mão e disse “assante”.
Acho que me preocupei à toa.
Mais tarde, relatando meu apuro, um colega da Tanzânia me disse que os caras ao verem minha barba branca e minha posição inusitada num galho de árvore certamente pensaram que eu era um imã, ou algo do tipo, e não iriam me molestar, são muito supersticiosos e respeitam muito velhos de barba. Sei lá, o fato é que passei uma meia hora bastante tensa.
Saí com o grupo para visitar uma fazenda de algas marinhas, agora sob um sol abrasador. Programa de biólogos.

Ah, quanto ao caxinguelê ... não sei se ele teve a sorte que tive. Quando voltei da cozinha ele e o gato tinham sumido.

Às voltas com o pó

ÀS VOLTAS COM O PÓ

Elsa sempre quis ser cremada. Não queria ir de jeito nenhum para o jazigo da família. A burocracia “crematória” foi mais complicada do que eu imaginara, mas não tinha como não atender ao seu último desejo – fora uma esposa excepcional durante o curto tempo que durara nosso casamento.
É, a vida tem destas coisas! Aparentemente uma saúde de ferro que se esvaiu rapidamente em uma septicemia até hoje não bem explicada pelos médicos.

Agora era deixar a tristeza de lado e tocar viola, quero dizer, a vida. Quero ver se é verdade que “mulher a gente encontra em toda parte”, como dizia o poeta. Não tenho filhos, estou bem de vida e de saúde (cala-te boca), e vou tentar afogar a falta que ela me faz aceitando as cantadas que venho recebendo de ex-namoradas e até de amigas dela.

Mas, antes, preciso resolver um probleminha que ainda me incomoda: as cinzas. Não consigo tirar os olhos daquela urna indiana sobre a lareira. Ainda me lembro do dia em que ela a comprara na memorável viagem que fizemos a Calcutá – “Para mim ou para você, a gente nunca sabe ...”

A viagem à Índia fora um presente da empresa alemã para quem Elsa trabalhara como secretária até as vésperas do casamento. Ela não queria seguir os bandos de turistas visitando os pontos tradicionais. Queria se aperfeiçoar nas práticas sexuais tântricas, e se exercitar nas posições do Kama Sutra. Imbuíra-se de que sexo não é apenas um simples prazer como comer, mas um ritual de amor, maithuna, e que deveríamos encarnar os papéis de Shakti e Shiva, usando a yoni e o linga com calma e sofisticação. Apreciava especialmente as posições de Ananga Ranga e do “caranguejo”. Confesso que no início achei que era frescura de uma mulher inexperiente, mas com a prática vi que ela tinha razão. Uma sessão de sexo com Elsa era realmente uma experiência única, mesmo pra mim, um cara bem rodado.

Uma das características de Elsa era ser detalhista. Planejou minuciosamente cada detalhe da noite de núpcias. Passara suas poucas horas livres, no período de noivado, pesquisando artes sexuais na internet. Só vim a saber isso depois, pois ela fizera questão de casar virgem, mantendo um comportamento recatado e pudico durante todo o noivado− o que chegou a me preocupar. Assim, o que se passou na noite de núpcias e nos dias seguintes foi uma tremenda surpresa para mim. Oh que agradável surpresa! Elsa preparara um verdadeiro cerimonial para a primeira noite no Hotel Othon, para onde fomos após a recepção que se seguiu ao casório no convento de São Bento, com cantoria sacra e tudo mais.

Quando manifestei minha enorme surpresa com o que aconteceu na noite de núpcias, ela me disse que a única maneira de evitar a prevaricação de um marido era mantê-lo sexualmente saciado no leito conjugal – ensinamento de sua tia Isaura, no terceiro casamento, sem falar nos numerosos “affairs”, tão comentados na família. E para isto ela se preparara desde a adolescência. Era persistente, criativa e insuperável em tudo que fazia, como já me havia dito o diretor alemão, seu patrão, ao felicitar-me pelo casamento.

Dois anos depois, quando percebeu que estava desenganada e no leito de morte, me fez prometer que guardaria suas cinzas sempre comigo. Ela se fora, ficaram as cinzas. Aquela maldita, desculpem o termo, urna indiana me vinha à mente sempre que via um rabo de saia.
Pensei em espalhar as cinzas do alto do Pico do Jaraguá para que o vento as espalhasse pela Sampa que ela amava tanto, mas não consegui. Achei que o remorso de faltar com sua promessa iria me perseguir por toda a vida. Poderia ser ainda pior.
O problema é que em matéria de sexo Elsa me deixara muito mal acostumado, e a cada dia que passava os hormônios se acumulavam e a pressão aumentava. Precisava fazer alguma coisa, dar seqüência à vida orgânica, cuidar do corpo, porque a alma, ah a alma ... não me preocupava, pois, “graças a Deus, sou ateu”.
E, neste passo, de que era preciso superar as perdas, um mês depois da cremação achei que já era hora de voltar à vida de solteiro, isto é, viúvo. Resolvi “tomar uma providência no bar do seu José”, onde entornei umas e outras antes de levar uma ex-namorada boazuda para um jantar à luz de velas em casa. Foi a primeira decepção – não podia acreditar que isto fosse acontecer comigo, pelo menos nesta idade. Tereza até que foi compreensiva e disse que isso era normal, acontecia com todo mundo – fazia tão pouco tempo que eu enviuvara... Mas, fiquei muito cabreiro, além de envergonhado - tanto libido e o bicho não correspondia. Aquela urna não saía da minha mente.

Passado uns dias estava mais calmo e marquei novo encontro, agora num motel sofisticado para fugir do ambiente familiar. Na hora H voltou a imagem da urna e, fracasso, fracasso, fracasso. Desta vez Tereza tentou me consolar dizendo que deveria ser algo errado com ela. Assumiu um ar de tédio e sorriu amarelo. Mas não me enganou. Definitivamente a coisa era séria e o problema era comigo. Mesmo assim resolvi tentar com mulheres de programa, pelo menos não me conheciam. Gastei uma grana com garotas fogosas, de corpos esculturais, uma mulata que era uma parada federal; tentei até com uma nissei, miudinha, uma graça. O Viagra ajudou um pouco mas meu desempenho ainda era medíocre se comparado com minha performance com a Elsa. Entrei numa fase de tristeza, definhava .... Todos reparavam, até minha mãe. Definitivamente precisava de ajuda médica.

Meu médico diagnosticou disfunção erétil e recomendou uma clínica especializada. Após vários exames, o diagnóstico foi o de que não havia nada de errado com minha anatomia, nem com os hormônios – as glândulas funcionavam dentro dos parâmetros da normalidade, os corpos cavernosos estavam em ordem ...
“Tente Viagra, Cialis, estas coisas”, me disse o médico. “Já tentou? Então o problema está na sua cabeça, meu amigo. Vá ver um terapeuta”. Saí cabisbaixo e furioso – merda de clínica!
Analista, eu? Os que conheço são uns desequilibrados. Trauma de perda amorosa? Papo furado! Elsa era o máximo, mas já pertence ao passado. Tô pouco me lixando pra memória dela; a vida continua e quero mais é voltar a fornicar como antes. Comecei a freqüentar bares quase todos os dias. A coisa só piorava.
No desespero, lembrei-me de um anúncio que vi num poste lá no Rio Pequeno: Tia Zilda – benze e cura. Trata de mau-de-amor, mau-olhado, fraqueza de homem. Discrição absoluta.
"Fraqueza de homem" chamou minha atenção. É claro que não acreditava nestas coisas, mas não sei porque anotei o número do telefone. Aquilo ficou na minha cabeça – fraqueza de homem ... Afinal, o que tinha a perder? Num impulso telefonei marcando um encontro para as dezesseis horas de sexta feira. Sexta, depois do almoço, comecei a pensar se não seria um golpe para pegar os manés fragilizados. Estava quase amarelando, mas resolvi ir de uma vez pra desencucar. Prevenido fui com uma calça surrada, uma velha camisa polo, e tênis, para não dar bandeira. Parei a Pajero um quarteirão antes e levei no bolso apenas o celular e as oitenta pratas da consulta.

O endereço era nos fundos de um conjunto de casas geminadas - uma edícula com telhado de eternit. No terreiro um galo de grande crista vermelha com longas esporas e umas galinhas carijós ciscavam e cacarejavam. Ao lado, uma horta com losna, arruda, comigo-ninguém-pode, e outras plantas que não conhecia. Um aviso rabiscado na porta dizia: Entre sem bater. Entrei. De início não via quase nada, mas aos poucos fui me adaptando à meia luz e à fumaça.
Tia Zilda, sentada em uma espreguiçadeira, cabelos longos, toda de preto, pitava uma mistura de baseado com fumo de corda. Acenou para eu sentar em um tamborete de couro de cabrito, me estendeu um copinho de 51, e numa voz rouca e falhada falou, “Meu nego, tome o remédio, sou toda ouvidos, desembuxe – fale dos seus pobremas.”
E falei, no princípio meio sem jeito e aos solavancos. Fui ganhando confiança, encorajado pela penumbra, e aos poucos engrenei o papo e contei meu relacionamento com Elsa e a brochada que me acometeu após a morte dela. “Mulher não falta, tenho vontade e muita, mas o negócio não funciona – o bráulio está como um gato de armazém, dormindo sobre a sacaria”. Tia Zilda acendia constantemente o grosso cigarro que teimava em apagar, e dava tapas nas fagulhas que lhe caiam na blusa. A cada frase minha fazia um movimento afirmativo com a cabeça, incentivando-me a prosseguir em meu relato.
Depois de ouvir tudo com atenção estendeu a mão, pegou as oitenta pratas, amassou as notas, enfiou em uma cabaça que estava ao lado da espreguiçadeira, e deu o veredicto: “Meu fio, conheço este tipo de dona. A solução, meu fio, é você se livrar das cinzas. Mas, sem se afastar delas pra não quebrar a promessa. Em vez de Viagra e estas besteiras, coloque uma colherinha das cinzas em uma xícara de café, bem adoçada, e tome uma hora antes de você trepar. Vá tomando e trepando, até acabar.Tenha fé que vai funcionar. Senão, marque um retorno. Agora vá meu fio, adeus, tenha fé ,,,”
Virei as costas e saí apressado, sentindo-me ridículo, mas ao mesmo tempo aliviado. Engolir cinzas da Elsa? Que loucura; além de me parecer meio nojento. Arranquei, cantando os pneus e fui tomar uma cangibrina num boteco da Vila Madá, pensando como fui ingênuo.
Chegando em casa e sem saber bem o que estava fazendo passei as cinzas para um saco zip-lock e coloquei na minha pasta de trabalho. Esbarrei com o cotovelo na urna, que se espatifou no chão; coloquei os cacos num saco plástico e atirei na lixeira. A sensação de alívio foi imediata.
Não foi fácil convencê-la, mas o primeiro teste foi com a mesma ex-namorada. Posso lhe assegurar que ficou admirada – “um outro homem” disse olhando-me nos olhos.
Tempos depois, no check-up de rotina, meu médico perguntou se eu tinha mudado de vida, de alimentação, algum suplemento mineral? Minha osteoporose havia desaparecido, e minha pele estava mais hidratada, rejuvenescida, as íris mais brilhantes, parecia um novo homem.
- Nada doutor, ando apenas menos estressado.”
- E aquela sua queixa de perda da libido?
-Na idade em que estou não posso me queixar doutor. Vou marcar o retorno pro ano que vem.
Sentiu uma comichão na língua e vontade de dizer que não havia nada mais afrodisíaco que o pó da mulher amada. Santa Elza!

Praia Vermelha, 16 de outubro de 2009.

7 de julho de 2010

Lindos

LINDOS


Recostado no tronco de uma tamareira, onde se protegia dos últimos raios de sol, Costas palitava os dentes e observava a loura saltando as ondas na beira da praia. Uns 17 anos no máximo, coxas roliças cobertas por uma tênue penugem dourada, peitos empinados, no tamanho certo. Ela chamara sua atenção desde que entrara na van com o grupo de turistas escandinavos que trouxera a Lindos pela manhã. Havia muitas mulheres de top less naquele dia, algumas até com corpos tentadores. Estava acostumado, virara rotina. Agora, seios como aqueles nunca tinha visto! Eram como imãs atraindo seus olhos.

Sentia um certo desconforto quando seus olhares gulosos eram surpreendidos por ela - disfarçava fingindo olhar para o horizonte, mas logo voltava a admirá-la e sua fantasia voava solta. Aos poucos foi se convencendo de que ela não se aborrecia com isto. Ao contrário, parecia até se divertir, assumindo poses provocadoras.

Costas, 40 anos, era simpático e bem apessoado, sorridente e atencioso com os turistas, respondendo a todas as perguntas sobre a história e a geografia da Grécia. Longe de ser um “apolo”, seu bigode bem aparado, corpo atlético, aspecto asseado e fresco era, no mínimo, "um tipo interessante", já lhe haviam dito, e talvez motivo de cochichos entre as turistas.

O dia tinha sido exaustivo. Não só pela intensa atividade física, mas pelo mormaço e umidade que deixavam uma sensação desagradável, a pele pegajosa e a boca seca, os olhos ardendo pelo vento salgado, um desejo de escovar os dentes, tomar um banho e beber cerveja bem gelada sem parar.

Sentiu-se aliviado quando, após um demorado e barulhento jantar, o grupo foi reunido para voltar ao hotel em Rhodes. Mais umas duas horas e estaria em casa tomando uma cerveja no terraço do apartamento.

A van subia lentamente a estrada sinuosa, à leste da Ilha de Rhodes. O grupo já não tinha ânimo para a algazarra da vinda. Após tanto sol e mergulhos nas águas azuis do mar Egeu os turistas dormitavam sob a ação das enzimas proteolíticas. Vapores etílicos e cheiro de bronzeador chegavam até Costas que procurava se concentrar em sua função de motorista, rumo ao Mythos Resort.

A jovem loura resmungou qualquer coisa em inglês sobre o calor, e pulou para o banco do motorista. Costas olhou para ela com ar surpreso e vislumbrou, através da blusa branca parcialmente desabotoada, o contorno daqueles seios acobreados pelo excesso de sol. Tentando puxar conversa fez um comentário sobre o calor. Ela sorriu, mas não disse nada.

A proximidade daqueles seios lhe causava uma sensação esquisita, como asas de borboletas roçando sua barriga, algo entre desejo e frustração. Melhor nem pensar! Os faróis já acesos, as curvas da estrada e da dinamarquesa eram uma combinação perigosa. Ele sabia bem as regras do serviço de turismo e as recomendações para não se meter com as turistas, mesmo quando provocado. Procurou não pensar na loura e seguir seu caminho.

Ao entrar um tanto afoitamente numa curva para a esquerda, sentiu a mão dela esbarrar em sua coxa direita, como que em busca de apoio. Recuou sua perna. Na curva seguinte a mão tornou a se apoiar na sua coxa. Ele não recuou a perna e ela não retirou a mão. Sentiu um frio na barriga. Olhou para a moça. Ela olhava pela janela lateral, como se nada tivesse acontecido. Agora não tinha dúvida: a gringa estava procurando encrenca. Sentiu um arrepio na virilha e começou a suar. Entre excitado e nervoso, não sabia o que fazer. Seria uma armadilha? Estaria sendo testado pela companhia de turismo? Cabreiro, procurou prestar mais atenção na estrada, o carro pedia uma marcha mais forte, que ele demorara a engatar. A mão começou a acariciar a parte interna de sua coxa enquanto ela continuava a olhar pela janela, observando talvez o jogo de sombras, causado pelas luzes dos carros que passavam em sentido oposto. Nervoso, viu pelo retrovisor que a caldeirada de frutos do mar e o vinho grego faziam efeito e o sono imperava, embalado pelo ron-ron monótono e pela trepidação do motor a diesel.

A mão estava cada vez mais ousada, e com rara habilidade abriu o zíper de sua bermuda - mão experiente de quem conhece anatomia masculina. Seu desejo foi ficando insuportável, um misto de prazer e pânico. Vieram-lhe à mente os postais de gregos com pênis eretos, que tanto riso haviam provocado nas turistas. Ela deu uma rápida olhada para trás, inclinou-se, e ele sentiu uns lábios quentes e uma ágil língua tremelicante acariciá-lo. Automaticamente reduziu a velocidade e teve que se controlar para não frear abruptamente. Mas era tarde ...

Sem tirar os olhos da estrada, percebeu quando ela limpou os lábios na manga da camisa e pulou para o banco de trás sem dizer uma palavra. Costas se ajeitou suando em febre, e fechou o zíper. Pelo retrovisor viu que ela, olhava pela janela num alheiamento incompreensível.

Desceu no hotel abraçada na mãe, e nem lhe deu a mão e agradeceu como fizeram os outros turistas.