Passamento
Minha mulher acha q tenho mania de morte, minha irmã acha q estou procurando a morte.
Nada disso. Sei lá, talvez esteja obcecado pela morte, mas, no bom sentido, quero dizer, a morte me fascina, como uma grande aventura. Q aventura maior poderá existir? Tive uma vida, sonhei, realizei talvez até mais do q sonhei por ser intrinsecamente modesto, acho, herança da dona Martha.
Algumas pessoas disseram q me acham muito corajoso, não como elogio, mais como crítica, corro riscos desnecessários, um jogador – respondo q nesta idade posso correr riscos e q minha coragem vem exatamente de saber q sou mortal. Outras dizem q sou "desapegado", o q dá no mesmo, apenas consciência da minha transitoriedade e insignificância.
“Venho me preparando para a morte”, é isto q vou responder quando alguém me perguntar o q ando fazendo, além, é claro, q en passant, meanwhile, vou fazendo otras cositas q me agradam pois não penso na morte em tempo integral, embora não a perca de vista como meta. A linha de raciocínio por trás de tudo isso é q me preparando terei uma passagem mais tranqüila, i. e., uma “boa morte” q no fundo é a morte q é recebida como opção aceitável numa dada circunstância da vida.
A mãe acreditava em almas – um dia me disse: "posso morrer a qualquer momento porq metade das pessoas q gosto está viva, a outra metade já morreu - irei encontrar seu pai, minha mãe, ..." Acho q ela não morreu, apenas parou de viver, se mudou.
Tenha uma boa morte era um desejo q se expressava para uma pessoa querida. É isso q quero ouvir a cada aniversário.
Barra da Lagoa, 25/Set/2010 – n.m. in c.
12 de novembro de 2010
Posso?
Posso?
Nesta noite tíbia e silenciosa fui invadido por uma ânsia estranha de servir minha empregada: convidá-la para jantar, à luz de velas, um tango de Piazola, um Malbec especial, servi-la como faria um serviçal à sua patroa, com direito a sous-plat, entrada, primo piato, secondo piato e petit gateau.
Que mundo idiota é este em que vivemos que não me permite fazer isto. Eu, um “senhor”, emancipado e vacinado, teoricamente dono de meu nariz, com cartão de crédito e ficha limpa na praça posso tanto, mas não posso isso!
A mente humana é tão deturpada que me acusariam das maiores taras. É bem possível que ela própria me interpretasse mal, “ah, este seu Chico não tem juízo mesmo. Cada idéia – imagine só, me convidar pra jantar? Tem cabimento? O que é que a dona Maria vai achar disto? No mínimo vai me ameaçar ou até despedir. Não é à toa que ele só anda de bicicleta e vive metido no pantanal com sua velha canoa. Deve ser a idade ...”
Este simples gesto de gratidão e bem-querer não seria visto com bons olhos por ninguém, minha família especialmente. Ninguém entenderia meu simples desejo de servir minha empregada, com humildade e delicadeza, apenas servir a quem me serviu por tantos anos, só pra variar. Cozinhar para ela me daria muito prazer e aposto que ela iria adorar meu spagheti à putanesca. Ou será que iria achá-lo um pouco duro e apimentado? “Estes homens pensam que cozinhar é fácil”, pensaria.
Será que ela me deixaria arrumar a cozinha enquanto fumava seu Hollywood. Repararia na minha falta de técnica para lavar panela engordurada?
Depois lhe serviria um licor e lhe daria uma carona para a Vila Mangalot.
Levantaria as cinco da matina para chegar às 07:15 no dia seguinte para cumprir sua rotina de "doméstica" ou se sentiria cheia de direitos? Ou me denunciaria por assédio sexual na delegacia da mulher?
Meu deus, que mundo é este que não acredita em boas intenções?
Nesta noite tíbia e silenciosa fui invadido por uma ânsia estranha de servir minha empregada: convidá-la para jantar, à luz de velas, um tango de Piazola, um Malbec especial, servi-la como faria um serviçal à sua patroa, com direito a sous-plat, entrada, primo piato, secondo piato e petit gateau.
Que mundo idiota é este em que vivemos que não me permite fazer isto. Eu, um “senhor”, emancipado e vacinado, teoricamente dono de meu nariz, com cartão de crédito e ficha limpa na praça posso tanto, mas não posso isso!
A mente humana é tão deturpada que me acusariam das maiores taras. É bem possível que ela própria me interpretasse mal, “ah, este seu Chico não tem juízo mesmo. Cada idéia – imagine só, me convidar pra jantar? Tem cabimento? O que é que a dona Maria vai achar disto? No mínimo vai me ameaçar ou até despedir. Não é à toa que ele só anda de bicicleta e vive metido no pantanal com sua velha canoa. Deve ser a idade ...”
Este simples gesto de gratidão e bem-querer não seria visto com bons olhos por ninguém, minha família especialmente. Ninguém entenderia meu simples desejo de servir minha empregada, com humildade e delicadeza, apenas servir a quem me serviu por tantos anos, só pra variar. Cozinhar para ela me daria muito prazer e aposto que ela iria adorar meu spagheti à putanesca. Ou será que iria achá-lo um pouco duro e apimentado? “Estes homens pensam que cozinhar é fácil”, pensaria.
Será que ela me deixaria arrumar a cozinha enquanto fumava seu Hollywood. Repararia na minha falta de técnica para lavar panela engordurada?
Depois lhe serviria um licor e lhe daria uma carona para a Vila Mangalot.
Levantaria as cinco da matina para chegar às 07:15 no dia seguinte para cumprir sua rotina de "doméstica" ou se sentiria cheia de direitos? Ou me denunciaria por assédio sexual na delegacia da mulher?
Meu deus, que mundo é este que não acredita em boas intenções?
10 de novembro de 2010
A toalha
Uma toalha
Ficou pálida quando ele perguntou por que havia duas toalhas no chão do banheiro. Após uns segundos, que duraram uma eternidade, respondeu com voz trêmula: “Parece que você está mais preocupado em saber se alguém usou sua toalha do que se usou sua mulher”, e chorando se trancou no banheiro batendo a porta.
A toalha mal explicada foi a gota d´água que os levou a um processo de separação.
Na noite anterior ela não quis passar o final de semana na casa da praia alegando que tinha muitas provas para corrigir. Ele jogou suas coisas no banco de trás do carro e saiu de mal humor.
Foi só quando estava perto da estradinha de terra que dá acesso ao condomínio do Mangue Verde que se deu conta de que tinha esquecido o lap-top. Ficou aborrecido com sua falta de atenção – mais um sinal de que estava envelhecendo, pensou.
Ligou para se certificar de seu esquecimento quando já era quase meia-noite. Estranhou quando ela demorou para atender a ligação. A voz dela denotava uma certa agitação, tendo por fundo uma salsa cubana em alto volume, logo diminuído. “Ah, é você, a esta hora?” A mulher confirmou que o computador estava na mesa da sala. Desligou o telefone intrigado, perguntando-se como ela podia se concentrar na correção de uma prova com uma música daquelas? Devia ser isto que o deixara com a pulga atrás da orelha a noite toda. Mas, como de hábito, não deu muita importância, que se fôda, pensou.
Sábado cedo voltou para buscar o computador. Ao abrir o portão dos fundos irritou-se ao ver a cachorra presa na guia e notou que havia uma garrafa de “pró-seco” no lixo da cozinha. Soltou a cachorra e subiu até o quarto galgando os degraus de dois em dois. Abriu a porta do quarto sem bater, ofegante. Ela ainda dormia, nua, atravessada sobre alguns travesseiros, a cama em grande desordem, almofadas e colcha no chão, a capa do Buena Vista Social Club caída ao lado do toca-CDs.
Acordou assustada com a presença dele no quarto. Ao perguntar por que a cachorra passara a noite presa ela resmungou qualquer coisa que ele não entendeu. Perguntou sobre o vinho e ouviu que uma amiga aparecera para uma visita de surpresa, pediram uma pizza e tomaram o vinho. Ele fez uma cara de desconfiança pensando que pizzarias “delivery” não tinham vinhos italianos, mas não se dignou perguntar quem era a amiga. Entrou no banheiro e viu as toalhas.
Quando ela se trancou no banheiro, chorando, ficou tentado a examinar o lençol em busca de alguma marca suspeita, mas não teve coragem. Achou humilhante demais, e uma eventual confirmação o faria perder o auto-controle. Melhor a dúvida.
Fechou a porta do quarto com um ponta-pé, pegou o lap-top e voltou para a casa da praia. Ligou para a secretária mas o celular dela estava na caixa postal. Que merda! Passou o final da semana caminhando pela praia, bebendo e fumando, sem conseguir trabalhar no relatório que tinha que entregar na segunda feira. O ciúme roendo seus miolos – sensação nova pra ele que se achava imune a sentimentos possessivos.
Pensando bem suas suspeitas sobre a infidelidade dela pairavam no ar há algum tempo. Não fez conta, achando que isto lhe daria mais liberdade em suas relações paralelas com a secretária, recém separada, e uma ex-namorada dos tempos de colégio com quem saía ocasionalmente. Tinha certeza que ela sabia de seu caso com a secretária. Fazia vista grossa, acomodada com a situação.
Só agora começou a juntar coisa com coisa. Lembrou que de uns tempos para cá ela parecia mais alheia às suas observações e mais cordata em aceitar suas desculpas esfarrapadas quando ele chegava tarde e muito cansado às sextas feiras, indo direto para o banho. Ela dera para ouvir Djavans, Caetanos e até Roberto Carlos; os atrasos dela ao voltar da universidade se tornaram mais freqüentes e as explicações mais vagas; andava arredia na cama, desinteressada de carinhos. Além disso deu para tomar banho de sol nua na sacada do jardim nos finais de semana quando a empregada e os filhos não estavam. Dizia que não gostava de marcas de maiô.
É , relaxara, tinha que admitir. Mas, uma separação não estava em seus planos, pelo menos a curto prazo. Pensou que se não fosse sua pergunta sobre as toalhas a relação entre eles poderia continuar no mesmo passo por mais algum tempo. Já estava acostumado com a rotina, o salário dela era melhor que o seu ...
Agora o caldo entornara e não dava mais pra segurar. O que o deixara mais puto foi a coragem dela. Justo ela, que parecia uma recatada madame mineira, tão fina e elegante. Trazer alguém pra sua casa e transar na própria cama era demais, inaceitável. Nem ele ousara tanto. Quem seria o canalha? Devia ser o cretino daquele antigo namorado, o guitarrista.
Segunda cedo voltou pra casa decidido e lhe disse: - “se nos separarmos numa boa nem vou investigar quem esteve aqui com você sábado à noite. Mas, fico com a casa da praia e o veleiro – você não gosta muito de mar mesmo. Agora se você começar com muitas exigências, advogados, pensão, etc. vou escancarar o escândalo e brigar pela guarda das crianças. Quero ver a cara de seu pai e do seu irmão ...”.
O divórcio correu sem traumas. Como dizia o velho Woody: - “há casamentos que terminam bem. Outros duram a vida toda.”
Pensou que seu compadre tinha razão: nunca entenderemos as mulheres. Deve ser o tal do duplo cromossomo X. Ela sempre aceitara sua prevaricação, mas ele não admitia a dela. É aquela velha história, os homens são poligâmicos por natureza, as mulheres não, é um de cada vez. O problema é que o que começa com uma transa inocente acaba em paixão - aí é que mora o perigo. Quem poderia pensar que ela se entregaria tão facilmente, por uma toalha molhada. Poderia ter inventado qualquer desculpa, qualquer bobagem e o assunto seria arquivado. Que falta de prática! Maldita toalha, maldito lap-top. Agora teria que organizar uma nova vida e seria difícil escapar da secretária. Não teria mais desculpas para não ir morar com ela. Merda!
Ficou pálida quando ele perguntou por que havia duas toalhas no chão do banheiro. Após uns segundos, que duraram uma eternidade, respondeu com voz trêmula: “Parece que você está mais preocupado em saber se alguém usou sua toalha do que se usou sua mulher”, e chorando se trancou no banheiro batendo a porta.
A toalha mal explicada foi a gota d´água que os levou a um processo de separação.
Na noite anterior ela não quis passar o final de semana na casa da praia alegando que tinha muitas provas para corrigir. Ele jogou suas coisas no banco de trás do carro e saiu de mal humor.
Foi só quando estava perto da estradinha de terra que dá acesso ao condomínio do Mangue Verde que se deu conta de que tinha esquecido o lap-top. Ficou aborrecido com sua falta de atenção – mais um sinal de que estava envelhecendo, pensou.
Ligou para se certificar de seu esquecimento quando já era quase meia-noite. Estranhou quando ela demorou para atender a ligação. A voz dela denotava uma certa agitação, tendo por fundo uma salsa cubana em alto volume, logo diminuído. “Ah, é você, a esta hora?” A mulher confirmou que o computador estava na mesa da sala. Desligou o telefone intrigado, perguntando-se como ela podia se concentrar na correção de uma prova com uma música daquelas? Devia ser isto que o deixara com a pulga atrás da orelha a noite toda. Mas, como de hábito, não deu muita importância, que se fôda, pensou.
Sábado cedo voltou para buscar o computador. Ao abrir o portão dos fundos irritou-se ao ver a cachorra presa na guia e notou que havia uma garrafa de “pró-seco” no lixo da cozinha. Soltou a cachorra e subiu até o quarto galgando os degraus de dois em dois. Abriu a porta do quarto sem bater, ofegante. Ela ainda dormia, nua, atravessada sobre alguns travesseiros, a cama em grande desordem, almofadas e colcha no chão, a capa do Buena Vista Social Club caída ao lado do toca-CDs.
Acordou assustada com a presença dele no quarto. Ao perguntar por que a cachorra passara a noite presa ela resmungou qualquer coisa que ele não entendeu. Perguntou sobre o vinho e ouviu que uma amiga aparecera para uma visita de surpresa, pediram uma pizza e tomaram o vinho. Ele fez uma cara de desconfiança pensando que pizzarias “delivery” não tinham vinhos italianos, mas não se dignou perguntar quem era a amiga. Entrou no banheiro e viu as toalhas.
Quando ela se trancou no banheiro, chorando, ficou tentado a examinar o lençol em busca de alguma marca suspeita, mas não teve coragem. Achou humilhante demais, e uma eventual confirmação o faria perder o auto-controle. Melhor a dúvida.
Fechou a porta do quarto com um ponta-pé, pegou o lap-top e voltou para a casa da praia. Ligou para a secretária mas o celular dela estava na caixa postal. Que merda! Passou o final da semana caminhando pela praia, bebendo e fumando, sem conseguir trabalhar no relatório que tinha que entregar na segunda feira. O ciúme roendo seus miolos – sensação nova pra ele que se achava imune a sentimentos possessivos.
Pensando bem suas suspeitas sobre a infidelidade dela pairavam no ar há algum tempo. Não fez conta, achando que isto lhe daria mais liberdade em suas relações paralelas com a secretária, recém separada, e uma ex-namorada dos tempos de colégio com quem saía ocasionalmente. Tinha certeza que ela sabia de seu caso com a secretária. Fazia vista grossa, acomodada com a situação.
Só agora começou a juntar coisa com coisa. Lembrou que de uns tempos para cá ela parecia mais alheia às suas observações e mais cordata em aceitar suas desculpas esfarrapadas quando ele chegava tarde e muito cansado às sextas feiras, indo direto para o banho. Ela dera para ouvir Djavans, Caetanos e até Roberto Carlos; os atrasos dela ao voltar da universidade se tornaram mais freqüentes e as explicações mais vagas; andava arredia na cama, desinteressada de carinhos. Além disso deu para tomar banho de sol nua na sacada do jardim nos finais de semana quando a empregada e os filhos não estavam. Dizia que não gostava de marcas de maiô.
É , relaxara, tinha que admitir. Mas, uma separação não estava em seus planos, pelo menos a curto prazo. Pensou que se não fosse sua pergunta sobre as toalhas a relação entre eles poderia continuar no mesmo passo por mais algum tempo. Já estava acostumado com a rotina, o salário dela era melhor que o seu ...
Agora o caldo entornara e não dava mais pra segurar. O que o deixara mais puto foi a coragem dela. Justo ela, que parecia uma recatada madame mineira, tão fina e elegante. Trazer alguém pra sua casa e transar na própria cama era demais, inaceitável. Nem ele ousara tanto. Quem seria o canalha? Devia ser o cretino daquele antigo namorado, o guitarrista.
Segunda cedo voltou pra casa decidido e lhe disse: - “se nos separarmos numa boa nem vou investigar quem esteve aqui com você sábado à noite. Mas, fico com a casa da praia e o veleiro – você não gosta muito de mar mesmo. Agora se você começar com muitas exigências, advogados, pensão, etc. vou escancarar o escândalo e brigar pela guarda das crianças. Quero ver a cara de seu pai e do seu irmão ...”.
O divórcio correu sem traumas. Como dizia o velho Woody: - “há casamentos que terminam bem. Outros duram a vida toda.”
Pensou que seu compadre tinha razão: nunca entenderemos as mulheres. Deve ser o tal do duplo cromossomo X. Ela sempre aceitara sua prevaricação, mas ele não admitia a dela. É aquela velha história, os homens são poligâmicos por natureza, as mulheres não, é um de cada vez. O problema é que o que começa com uma transa inocente acaba em paixão - aí é que mora o perigo. Quem poderia pensar que ela se entregaria tão facilmente, por uma toalha molhada. Poderia ter inventado qualquer desculpa, qualquer bobagem e o assunto seria arquivado. Que falta de prática! Maldita toalha, maldito lap-top. Agora teria que organizar uma nova vida e seria difícil escapar da secretária. Não teria mais desculpas para não ir morar com ela. Merda!
O terapeuta
O terapêuta
Como sempre, naquela sexta feira, Robinson encostou a Mercedes na porta do Bar do Zé-Bedeu na Vila Madalena ao anoitecer. Só q dessa vez o doutor falou: -“A turma tá viajando. Deixa o carro com o manobrista e venha tomar um trago comigo”.
- Mas doutor ...
- Não tem mais nem menos, tô de saco cheio e não gosto de beber só. Hoje você vai conhecer uma cerveja de verdade.
O garçon, afastando a cadeira da mesa favorita do doutor, sorriu ao ver o motorista entrar meio sem jeito, com seu terno preto, sapato preto e gravata preta.
- Juvenal, dois pints de draft Guiness e os tira-gostos de costume. Traga também dois Stainhaegers.
Robinson, moreno alto, magro e musculoso, com bigodinho aparado e cabelo escovinha, tipo mariner do Tio Sam, estava meio desconfiado. O doutor sempre o tratara com muita consideração, mas com o distanciamento devido. Sentiu algo diferente no ar.
O doutor perguntou da família, falou de futebol, elogiou a bundinha arrebitada da garçonete, contou umas piadas sobre o presidente, pediu mais duas Guiness, afrouxou o nó da gravata e daí falou:
- Robinson, esta é a primeira vez q bebemos juntos. Você é meu motorista e segurança há muitos anos e o considero uma pessoa inteligente e educada em quem deposito minha total confiança.
- Obrigado doutor ...
- Quieto, não me interrompa. Aguardava uma oportunidade como essa para lhe propor um negócio muito sério no qual venho pensando há tempo e q não sai da minha cabeça. Coisa muito séria mesmo.
Robinson franziu a testa e sentiu um frio na espinha.
- O negócio é o seguinte, preste bem atenção. Como você sabe sou psicólogo e trabalho especialmente com pessoas mais velhas, terceira idade, sabe como é né? Pois é, nestes últimos anos tenho visto muita coisa, pessoas importantes, de valor, grandes figuras, q fizeram carreira brilhante, construíram uma história de vida ... até que de repente põem tudo a perder, começam a falar tolices, fazer cagadas, de dar dó ... Você já deve ter visto esse tipo de coisa, né?
O doutor pediu uma folha de papel ao Juvenal e mais um pint, “só pra mim, o Robinson vai guiar e quero chegar inteiro em casa”, e passou a explicar detalhadamente seu plano, enfatizando a necessidade de sigilo absoluto, fundamental para q desse certo.
Chegou em casa meio grogue, mas feliz e aliviado com a decisão corajosa q havia tomado – acendeu um havana e ficou fumando calmamente vendo a fumaça densa ir aos poucos se dissipando e desaparecendo, como a vida da gente, sob a pitangueira. ...Tanta flor esse ano. Deve ter sido a seca, não sei se vai aguentar nutrir tantos frutos ...
Começou a rememorar sua longa relação com Robinson. Conheceu-o vendendo água de coco e batida de umbu na ilha de Itamaracá onde fora passar sua lua de mel. Na época tinha acabado o doutoramento na USP e iniciava uma promissora carreira em psicanálise. Síndico do prédio onde morava, no Paraíso, em Sampa, prometeu emprego de zelador ao Robinson se chegasse dentro de um mês. Dias depois ele tocou a campainha do prédio. Chegou apenas com uma mala de couro e uma mochila de lona, sua mudança, cara de assustado, boquiaberto com a altura do prédio e o movimento da Paulista. Gostou do Robinson desde o primeiro contato - pessoa humilde, mas inteligente e muito forte, embora magro. Tempos depois com seu sucesso profissional acabou contratando-o para motorista quando se mudou para o Jardim Europa. Era uma época de muitas viagens para dar aulas e fazer conferências no Brasil e no exterior. Robinson era uma mão na roda, jack of all trades, fazendo pequenos consertos, compras e sobretudo para levá-lo e buscá-lo em Cumbica e Congonhas. Aproveitava os congestionamentos para ir estudando casos de clientes e preparando palestras. Acabara ficando famoso por suas pesquisas sobre Alzheimer e doenças degenerativas do sistema nervoso. Convenceu Robinson a fazer um curso de defesa pessoal e direção defensiva durante os períodos em que estava no exterior em congressos. Robinson aprendeu lutas marciais e a atirar com precisão. Andava armado graças a um porte de armas que conseguiu para ele através de seu cunhado, delegado da Divisão Anti-Sequestros.
Embora mantivesse uma distância conveniente com o motorista às vezes contava a ele alguns dos casos mais curiosos q apareciam no consultório e falavam de futebol, ambos corintianos. Mais de uma vez lhe dissera que morria de medo de ficar gagá e ser alvo da zombaria dos pares e parentes. Sabia bem como funcionava a genética nesses casos – de seus 12 tios paternos só não ficaram esclerosados seu pai, que morreu com 33 anos, e um tio que também “partiu antes do combinado” num acidente em uma caçada de codornas. Em suma, preferia abreviar a vida a passar os últimos anos de fraldas e com um enfermeiro.
Enquanto fumava no jardim ia pensando na cara de espanto de Robinson quando lhe explicou em detalhes seu plano de "eutanásia". Robinson deveria “apagá-lo” logo ao reconhecer os primeiros sintomas de Alzheimer, os quais lhe foram explicados com a maior clareza. Sua primeira reação foi: “Mas, doutor, logo eu que gosto e respeito tanto o senhor?”.
- Exatamente por isso. Você é a única pessoa em q confio para tal tarefa. O plano só vai funcionar se for você o executor.
- Sei que o senhor planejou tudo para que eu não seja incriminado e que vou ficar bem de vida, mas não sei se terei coragem ...
- Vai ter sim. Veja isso como seu último serviço.
Os anos foram passando, o doutor cada vez mais rico e famoso e Robinson sempre dedicado e atento, até que num sábado de manhã quando o doutor entrou no carro para ir ao club de golf, Robinson deu-lhe um tapinha nas costas: “Doutor, é com muita tristeza q lhe digo q chegou a hora"
- Hora?
- Sim, vamos à sua casa de campo cumprir o plano.
- Plano?
- Sim o negócio da eutanásia que o senhor me explicou. O senhor não percebe, mas não é de hoje q vem fazendo uma série de cagadas, com perdão da palavra. Tenho tudo anotadinho. A arma e o anestésico estão comigo.
Antes que Robinson ligasse o motor o doutor desceu do carro como se estivesse esquecido alguma coisa e correu para casa. Já entrou gritando “mulher, ligue já pro seu irmão. Robinson ficou maluco.”
-É isso mesmo Pacheco, ele me ameaçou de morte.
- Por que?
- Sei lá, acho que pirou. Deve ter algum desvio mental q não tinha notado.
- E como é q v. não percebeu isso antes? Você é psicólogo, caralho!
- Sempre foi um cara normal. Não sei o q deu nele!
- Que filha da puta! Deixe comigo, vou cuidar disso pessoalmente. Agora! Dê uma desculpa a ele e se tranque em casa. Vou mandar uma viatura.
Como sempre, naquela sexta feira, Robinson encostou a Mercedes na porta do Bar do Zé-Bedeu na Vila Madalena ao anoitecer. Só q dessa vez o doutor falou: -“A turma tá viajando. Deixa o carro com o manobrista e venha tomar um trago comigo”.
- Mas doutor ...
- Não tem mais nem menos, tô de saco cheio e não gosto de beber só. Hoje você vai conhecer uma cerveja de verdade.
O garçon, afastando a cadeira da mesa favorita do doutor, sorriu ao ver o motorista entrar meio sem jeito, com seu terno preto, sapato preto e gravata preta.
- Juvenal, dois pints de draft Guiness e os tira-gostos de costume. Traga também dois Stainhaegers.
Robinson, moreno alto, magro e musculoso, com bigodinho aparado e cabelo escovinha, tipo mariner do Tio Sam, estava meio desconfiado. O doutor sempre o tratara com muita consideração, mas com o distanciamento devido. Sentiu algo diferente no ar.
O doutor perguntou da família, falou de futebol, elogiou a bundinha arrebitada da garçonete, contou umas piadas sobre o presidente, pediu mais duas Guiness, afrouxou o nó da gravata e daí falou:
- Robinson, esta é a primeira vez q bebemos juntos. Você é meu motorista e segurança há muitos anos e o considero uma pessoa inteligente e educada em quem deposito minha total confiança.
- Obrigado doutor ...
- Quieto, não me interrompa. Aguardava uma oportunidade como essa para lhe propor um negócio muito sério no qual venho pensando há tempo e q não sai da minha cabeça. Coisa muito séria mesmo.
Robinson franziu a testa e sentiu um frio na espinha.
- O negócio é o seguinte, preste bem atenção. Como você sabe sou psicólogo e trabalho especialmente com pessoas mais velhas, terceira idade, sabe como é né? Pois é, nestes últimos anos tenho visto muita coisa, pessoas importantes, de valor, grandes figuras, q fizeram carreira brilhante, construíram uma história de vida ... até que de repente põem tudo a perder, começam a falar tolices, fazer cagadas, de dar dó ... Você já deve ter visto esse tipo de coisa, né?
O doutor pediu uma folha de papel ao Juvenal e mais um pint, “só pra mim, o Robinson vai guiar e quero chegar inteiro em casa”, e passou a explicar detalhadamente seu plano, enfatizando a necessidade de sigilo absoluto, fundamental para q desse certo.
Chegou em casa meio grogue, mas feliz e aliviado com a decisão corajosa q havia tomado – acendeu um havana e ficou fumando calmamente vendo a fumaça densa ir aos poucos se dissipando e desaparecendo, como a vida da gente, sob a pitangueira. ...Tanta flor esse ano. Deve ter sido a seca, não sei se vai aguentar nutrir tantos frutos ...
Começou a rememorar sua longa relação com Robinson. Conheceu-o vendendo água de coco e batida de umbu na ilha de Itamaracá onde fora passar sua lua de mel. Na época tinha acabado o doutoramento na USP e iniciava uma promissora carreira em psicanálise. Síndico do prédio onde morava, no Paraíso, em Sampa, prometeu emprego de zelador ao Robinson se chegasse dentro de um mês. Dias depois ele tocou a campainha do prédio. Chegou apenas com uma mala de couro e uma mochila de lona, sua mudança, cara de assustado, boquiaberto com a altura do prédio e o movimento da Paulista. Gostou do Robinson desde o primeiro contato - pessoa humilde, mas inteligente e muito forte, embora magro. Tempos depois com seu sucesso profissional acabou contratando-o para motorista quando se mudou para o Jardim Europa. Era uma época de muitas viagens para dar aulas e fazer conferências no Brasil e no exterior. Robinson era uma mão na roda, jack of all trades, fazendo pequenos consertos, compras e sobretudo para levá-lo e buscá-lo em Cumbica e Congonhas. Aproveitava os congestionamentos para ir estudando casos de clientes e preparando palestras. Acabara ficando famoso por suas pesquisas sobre Alzheimer e doenças degenerativas do sistema nervoso. Convenceu Robinson a fazer um curso de defesa pessoal e direção defensiva durante os períodos em que estava no exterior em congressos. Robinson aprendeu lutas marciais e a atirar com precisão. Andava armado graças a um porte de armas que conseguiu para ele através de seu cunhado, delegado da Divisão Anti-Sequestros.
Embora mantivesse uma distância conveniente com o motorista às vezes contava a ele alguns dos casos mais curiosos q apareciam no consultório e falavam de futebol, ambos corintianos. Mais de uma vez lhe dissera que morria de medo de ficar gagá e ser alvo da zombaria dos pares e parentes. Sabia bem como funcionava a genética nesses casos – de seus 12 tios paternos só não ficaram esclerosados seu pai, que morreu com 33 anos, e um tio que também “partiu antes do combinado” num acidente em uma caçada de codornas. Em suma, preferia abreviar a vida a passar os últimos anos de fraldas e com um enfermeiro.
Enquanto fumava no jardim ia pensando na cara de espanto de Robinson quando lhe explicou em detalhes seu plano de "eutanásia". Robinson deveria “apagá-lo” logo ao reconhecer os primeiros sintomas de Alzheimer, os quais lhe foram explicados com a maior clareza. Sua primeira reação foi: “Mas, doutor, logo eu que gosto e respeito tanto o senhor?”.
- Exatamente por isso. Você é a única pessoa em q confio para tal tarefa. O plano só vai funcionar se for você o executor.
- Sei que o senhor planejou tudo para que eu não seja incriminado e que vou ficar bem de vida, mas não sei se terei coragem ...
- Vai ter sim. Veja isso como seu último serviço.
Os anos foram passando, o doutor cada vez mais rico e famoso e Robinson sempre dedicado e atento, até que num sábado de manhã quando o doutor entrou no carro para ir ao club de golf, Robinson deu-lhe um tapinha nas costas: “Doutor, é com muita tristeza q lhe digo q chegou a hora"
- Hora?
- Sim, vamos à sua casa de campo cumprir o plano.
- Plano?
- Sim o negócio da eutanásia que o senhor me explicou. O senhor não percebe, mas não é de hoje q vem fazendo uma série de cagadas, com perdão da palavra. Tenho tudo anotadinho. A arma e o anestésico estão comigo.
Antes que Robinson ligasse o motor o doutor desceu do carro como se estivesse esquecido alguma coisa e correu para casa. Já entrou gritando “mulher, ligue já pro seu irmão. Robinson ficou maluco.”
-É isso mesmo Pacheco, ele me ameaçou de morte.
- Por que?
- Sei lá, acho que pirou. Deve ter algum desvio mental q não tinha notado.
- E como é q v. não percebeu isso antes? Você é psicólogo, caralho!
- Sempre foi um cara normal. Não sei o q deu nele!
- Que filha da puta! Deixe comigo, vou cuidar disso pessoalmente. Agora! Dê uma desculpa a ele e se tranque em casa. Vou mandar uma viatura.
13 de setembro de 2010
Summertime
Summertime
Virou de lado e colocou um travesseiro sobre o rosto para se proteger do raio de sol que filtrava pela veneziana. Não estava sonhando, era mesmo o Adágio de Albinone que vinha do banheiro. Espreguiçou-se, colocou o roupão, entreabriu a porta do banheiro e ficou imóvel observando. Através do vidro embaçado do box se deu conta de como ela ainda continuava atraente. A meticulosidade com que ela limpava seu corpo o impressionara desde a primeira vez em que a vira tomar banho. Não era apenas meticulosidade ou capricho, era técnica. Banho, para ela, era uma cerimônia, um ritual de prazer - a água morna escorrendo pelos cabelos castanhos; a maneira delicada de deslizar o sabonete por todo o corpo, reentrâncias e saliências, os dedos longos, unhas cortadas rentes, sem esmalte, espalhando a espuma, milimetricamente; e depois o detalhe em se enxaguar, passar as mãos pelo corpo para retirar o excesso de água antes de se enxugar; a elegância com que se equilibrava em uma perna e enxugava os dedos dos pés ...
Ao perceber a presença dele, olhou intrigada e foi logo avisando que era dia de folga da empregada e teriam que preparar o próprio café da manhã.
A música o deixara sensível e inspirado; parecia haver algo especial no ar leve daquela manhã de verão. Disse a ela para relaxar e ficar ouvindo o programa matinal da Cultura FM enquanto ele preparava o café. Sentia um inexplicável bem-estar e em paz com a vida após uma semana agitada e a perspectiva de um domingo de lazer e preguiça, sem nenhuma programação. Resolveu impressioná-la com um desjejum especial, fora da rotina do dia-a-dia, dos cafés corridos e do beijo mecânico e apressado antes de sair para deixar as crianças na escola, sempre um pouco atrasado ...
Sabia como ela adorava tomar o café da manhã ao ar livre. Sempre que podia passava a mão no suplemento de cultura do Estadão e ia tomar a última chicara de café no jardim dos fundos. Ás vezes levava seu pequeno binóculo e ficava observando os sabiás-laranjeira e sanhaços, sanhaçús, como ela gostava de dizer, beliscando os restos de fruta que ela espetava nos espinhos do pé de limão galego, do qual se orgulhava tanto de haver plantado.
Preparou suco de tangerina misturado com lima-da-pérsia para dar um leve amargor, papaia já sem sementes e com uns pingos de limão como ela gostava, uvas rubi do vale do São Francisco, torradas de pão integral, geléia de mexerica-bode feita pela tia Milena em Taiaçú, queijo de minas, café colhido e torrado na fazenda e leite fumegante, espumado. Forrou a mesa do jardim com uma toalha de linho branco e arranjou os talheres, louças e comidas caprichosamente, enfeitando a mesa com um copo longo de tomar grappa, lembrança da lua de mel em Florença, onde colocou uns tufinhos de flores de capim e dois raminhos de beijo lilás que apanhara embaixo da pitangueira. María não era mulher de orquídeas, dálias, flores exuberantes; preferia uma florzinha simples, destas que crescem nos terrenos baldios. Quando tudo estava pronto ficou satisfeito com seu trabalho e assobiou.
Ela apareceu descalça e faceira, e com um ar maroto foi dizendo “opa!, café no jardim, hummm ....” Pegou uma torrada, passou manteiga, Aviação, daquelas de lata (nunca usava margarina), e espalhou um pouco de geléia de mexerica azedo-amarga sobre a manteiga, tomou um gole de suco, comentou o perfume do sumo da lima e o colorido da tangerina, e perguntou onde ele havia aprendido a arranjar uma mesa daquele jeito? “O que você pretende? Não está com segundas intenções né?”
Embora ele se sentisse ridículo no roupão bordô de seda que ela lhe dera no aniversário, não podia negar que era confortável e, além disto, hoje estava afim de agradá-la, aproveitando a ausência dos filhos, no sítio dos avós. Observou como ela estava provocante no kimono que ele havia trazido por “engano” de um hotel de Kyoto: branco com ramos verdes de bambu, estilizados, e escritas elegantes que ele não tinha a mínima idéia do significado. O kimono, pequeno para ela, deixava entrever o seio esquerdo até quase a ponta do mamilo. Proposital ou apenas descuido?
Enquanto tomava seu suco, olhava de soslaio, pensando que ela sabia muito bem como ele adorava aqueles seios. Ficou excitado ao vê-la lamber os dedos; ah, aqueles lábios, molhados, com aroma de mexerica ... Sai desejo vão!
Há muito não ousava pedir certas carícias. Achava deselegante com medo de ouvir uma desculpa que invariavelmente o deixaria emburrado o resto do dia. A idéia de forçá-la a fazer uma coisa de que não gostasse o deixava sem ação. Por isso, há já um bom tempo preferia que ela tomasse a iniciativa para um contato mais íntimo, numa espera quase sempre ansiosa e frustrante. Mesmo assim, sempre que podia transmitia mensagens subliminares de desejo. Agora mesmo, posicionara-se de forma estratégica, torcendo para que ela reparasse na elevação sob seu roupão. Distraída ela olhava os movimentos nervosos do arisco sanhaço, alheia à presença dele.
Parecia feliz, pernas abertas e esticadas, abrindo e fechando os dedos do pé de uma forma que só ela conseguia fazer, relaxada. Ao se aproximar para pegar uma torrada do outro lado da mesa ela enfiou sua mão, aquecida pela xícara de café, por sob o roupão, e o prendeu delicadamente, provocando-lhe uma agradável onda de calor e um arrepio nas virilhas. O cinto do roupão se soltou, ela deu um suspiro longo e o puxou para mais perto; pôs-se mais cômoda na cadeira e começou a acariciá-lo como nunca havia feito.
Meu deus, onde será que ela aprendeu essas coisas? Ele olhava para o limoeiro mas já não via os sanhaços .... . Só lhe ocorreu perguntar quando seria a próxima folga da empregada.
Virou de lado e colocou um travesseiro sobre o rosto para se proteger do raio de sol que filtrava pela veneziana. Não estava sonhando, era mesmo o Adágio de Albinone que vinha do banheiro. Espreguiçou-se, colocou o roupão, entreabriu a porta do banheiro e ficou imóvel observando. Através do vidro embaçado do box se deu conta de como ela ainda continuava atraente. A meticulosidade com que ela limpava seu corpo o impressionara desde a primeira vez em que a vira tomar banho. Não era apenas meticulosidade ou capricho, era técnica. Banho, para ela, era uma cerimônia, um ritual de prazer - a água morna escorrendo pelos cabelos castanhos; a maneira delicada de deslizar o sabonete por todo o corpo, reentrâncias e saliências, os dedos longos, unhas cortadas rentes, sem esmalte, espalhando a espuma, milimetricamente; e depois o detalhe em se enxaguar, passar as mãos pelo corpo para retirar o excesso de água antes de se enxugar; a elegância com que se equilibrava em uma perna e enxugava os dedos dos pés ...
Ao perceber a presença dele, olhou intrigada e foi logo avisando que era dia de folga da empregada e teriam que preparar o próprio café da manhã.
A música o deixara sensível e inspirado; parecia haver algo especial no ar leve daquela manhã de verão. Disse a ela para relaxar e ficar ouvindo o programa matinal da Cultura FM enquanto ele preparava o café. Sentia um inexplicável bem-estar e em paz com a vida após uma semana agitada e a perspectiva de um domingo de lazer e preguiça, sem nenhuma programação. Resolveu impressioná-la com um desjejum especial, fora da rotina do dia-a-dia, dos cafés corridos e do beijo mecânico e apressado antes de sair para deixar as crianças na escola, sempre um pouco atrasado ...
Sabia como ela adorava tomar o café da manhã ao ar livre. Sempre que podia passava a mão no suplemento de cultura do Estadão e ia tomar a última chicara de café no jardim dos fundos. Ás vezes levava seu pequeno binóculo e ficava observando os sabiás-laranjeira e sanhaços, sanhaçús, como ela gostava de dizer, beliscando os restos de fruta que ela espetava nos espinhos do pé de limão galego, do qual se orgulhava tanto de haver plantado.
Preparou suco de tangerina misturado com lima-da-pérsia para dar um leve amargor, papaia já sem sementes e com uns pingos de limão como ela gostava, uvas rubi do vale do São Francisco, torradas de pão integral, geléia de mexerica-bode feita pela tia Milena em Taiaçú, queijo de minas, café colhido e torrado na fazenda e leite fumegante, espumado. Forrou a mesa do jardim com uma toalha de linho branco e arranjou os talheres, louças e comidas caprichosamente, enfeitando a mesa com um copo longo de tomar grappa, lembrança da lua de mel em Florença, onde colocou uns tufinhos de flores de capim e dois raminhos de beijo lilás que apanhara embaixo da pitangueira. María não era mulher de orquídeas, dálias, flores exuberantes; preferia uma florzinha simples, destas que crescem nos terrenos baldios. Quando tudo estava pronto ficou satisfeito com seu trabalho e assobiou.
Ela apareceu descalça e faceira, e com um ar maroto foi dizendo “opa!, café no jardim, hummm ....” Pegou uma torrada, passou manteiga, Aviação, daquelas de lata (nunca usava margarina), e espalhou um pouco de geléia de mexerica azedo-amarga sobre a manteiga, tomou um gole de suco, comentou o perfume do sumo da lima e o colorido da tangerina, e perguntou onde ele havia aprendido a arranjar uma mesa daquele jeito? “O que você pretende? Não está com segundas intenções né?”
Embora ele se sentisse ridículo no roupão bordô de seda que ela lhe dera no aniversário, não podia negar que era confortável e, além disto, hoje estava afim de agradá-la, aproveitando a ausência dos filhos, no sítio dos avós. Observou como ela estava provocante no kimono que ele havia trazido por “engano” de um hotel de Kyoto: branco com ramos verdes de bambu, estilizados, e escritas elegantes que ele não tinha a mínima idéia do significado. O kimono, pequeno para ela, deixava entrever o seio esquerdo até quase a ponta do mamilo. Proposital ou apenas descuido?
Enquanto tomava seu suco, olhava de soslaio, pensando que ela sabia muito bem como ele adorava aqueles seios. Ficou excitado ao vê-la lamber os dedos; ah, aqueles lábios, molhados, com aroma de mexerica ... Sai desejo vão!
Há muito não ousava pedir certas carícias. Achava deselegante com medo de ouvir uma desculpa que invariavelmente o deixaria emburrado o resto do dia. A idéia de forçá-la a fazer uma coisa de que não gostasse o deixava sem ação. Por isso, há já um bom tempo preferia que ela tomasse a iniciativa para um contato mais íntimo, numa espera quase sempre ansiosa e frustrante. Mesmo assim, sempre que podia transmitia mensagens subliminares de desejo. Agora mesmo, posicionara-se de forma estratégica, torcendo para que ela reparasse na elevação sob seu roupão. Distraída ela olhava os movimentos nervosos do arisco sanhaço, alheia à presença dele.
Parecia feliz, pernas abertas e esticadas, abrindo e fechando os dedos do pé de uma forma que só ela conseguia fazer, relaxada. Ao se aproximar para pegar uma torrada do outro lado da mesa ela enfiou sua mão, aquecida pela xícara de café, por sob o roupão, e o prendeu delicadamente, provocando-lhe uma agradável onda de calor e um arrepio nas virilhas. O cinto do roupão se soltou, ela deu um suspiro longo e o puxou para mais perto; pôs-se mais cômoda na cadeira e começou a acariciá-lo como nunca havia feito.
Meu deus, onde será que ela aprendeu essas coisas? Ele olhava para o limoeiro mas já não via os sanhaços .... . Só lhe ocorreu perguntar quando seria a próxima folga da empregada.
30 de agosto de 2010
Ano Novo
Ano Novo
O som que vinha do outro lado da rua era insuportável – quase cinco horas da manhã e a festa seguia em ritmo de bate-estaca. Seu corpo estava pegajoso de suor e os pernilongos não davam trégua. “Fim de ano em Ubatuba é isto mesmo, e não aprendo, acabo sempre voltando para cá. Devíamos ter ficado em Sampa assistindo à São Silvestre”, falou pra mulher. Desistiu de tentar dormir, colocou um calção e saiu em direção à praia em busca de uma brisa e do silêncio.
A lua, embora de quarto, tinha luz suficiente para iluminar o caminho. Ao pisar na areia sentiu o cheiro de pólvora dos fogos queimados na virada do ano. Sentou-se numa espreguiçadeira esquecida na duna e ficou olhando a espuma das ondas pratejando a areia grossa da praia. Ouviu sussurros e viu dois vultos de branco que vinham em sua direção. Puxou a espreguiçadeira mais para cima de modo a passar despercebido na sombra projetada pela amendoeira - não estava afim de encontrar ninguém. Caminhavam devagar, de mãos dadas. Pararam, a uns trinta metros dele, abraçaram-se e estenderam uma tolha na areia fofa. Conseguia ouvir palavras soltas, mas não entendia bem o que diziam. Ele se deitou, ela se dirigiu devagar até onde as ondas se quebravam e caminhou pela espuma, para lá e para cá. Um pouco depois voltou e se aninhou ao lado dele.
Uma nuvem vagando para o leste cobiu a lua e uma sombra envolveu o casal. Mesmo assim percebeu um vulto se abaixando lentamente e se encaixando sobre o corpo deitado na toalha. Aguçou os ouvidos. Gemidos contidos se intercalavam com o marulhar ritimado das ondas. Vislumbrou sombras de um lento cavalgar. Amazona sobre cavalo marinho.
Constrangido pensou em recuar discretamente, mas foi ficando. Recolheu-se ainda mais na sombra da amendoeira com medo de ser visto, procurando controlar sua excitação. Os gemidos atingiram um crescendo. Gradualmente diminuíram e cessaram quando a lua voltou a brilhar.
O céu começou a clarear lá pelas bandas da ilha Anchieta e foi ficando cor de fogo, avermelhado, ofuscando o quarto crescente.
Uma brisa fresca começou a soprar do nascente. O casal levantou-se e entrou no mar sem tirar a roupa. Agora já era possível ver que ela era um pouco gorda, cabelos longos, encaracolados; o rapaz magro, alto, com barba. Chacoalharam a água do mar, abraçaram-se e saíram de mãos dadas, as roupas grudadas no corpo, voltando pelo caminho por onde vieram. Ao perceberem sua presença, ainda na cadeira de praia, ela deu um sorriso sem-graça e ele fez um aceno com a cabeça.
Ainda se sentia grudento e excitado. Tirou o calção, deu um mergulho, e voltou para casa, em busca de um café e um cigarro, matutando que os jovens não sabiam como era ser jovem.
O som que vinha do outro lado da rua era insuportável – quase cinco horas da manhã e a festa seguia em ritmo de bate-estaca. Seu corpo estava pegajoso de suor e os pernilongos não davam trégua. “Fim de ano em Ubatuba é isto mesmo, e não aprendo, acabo sempre voltando para cá. Devíamos ter ficado em Sampa assistindo à São Silvestre”, falou pra mulher. Desistiu de tentar dormir, colocou um calção e saiu em direção à praia em busca de uma brisa e do silêncio.
A lua, embora de quarto, tinha luz suficiente para iluminar o caminho. Ao pisar na areia sentiu o cheiro de pólvora dos fogos queimados na virada do ano. Sentou-se numa espreguiçadeira esquecida na duna e ficou olhando a espuma das ondas pratejando a areia grossa da praia. Ouviu sussurros e viu dois vultos de branco que vinham em sua direção. Puxou a espreguiçadeira mais para cima de modo a passar despercebido na sombra projetada pela amendoeira - não estava afim de encontrar ninguém. Caminhavam devagar, de mãos dadas. Pararam, a uns trinta metros dele, abraçaram-se e estenderam uma tolha na areia fofa. Conseguia ouvir palavras soltas, mas não entendia bem o que diziam. Ele se deitou, ela se dirigiu devagar até onde as ondas se quebravam e caminhou pela espuma, para lá e para cá. Um pouco depois voltou e se aninhou ao lado dele.
Uma nuvem vagando para o leste cobiu a lua e uma sombra envolveu o casal. Mesmo assim percebeu um vulto se abaixando lentamente e se encaixando sobre o corpo deitado na toalha. Aguçou os ouvidos. Gemidos contidos se intercalavam com o marulhar ritimado das ondas. Vislumbrou sombras de um lento cavalgar. Amazona sobre cavalo marinho.
Constrangido pensou em recuar discretamente, mas foi ficando. Recolheu-se ainda mais na sombra da amendoeira com medo de ser visto, procurando controlar sua excitação. Os gemidos atingiram um crescendo. Gradualmente diminuíram e cessaram quando a lua voltou a brilhar.
O céu começou a clarear lá pelas bandas da ilha Anchieta e foi ficando cor de fogo, avermelhado, ofuscando o quarto crescente.
Uma brisa fresca começou a soprar do nascente. O casal levantou-se e entrou no mar sem tirar a roupa. Agora já era possível ver que ela era um pouco gorda, cabelos longos, encaracolados; o rapaz magro, alto, com barba. Chacoalharam a água do mar, abraçaram-se e saíram de mãos dadas, as roupas grudadas no corpo, voltando pelo caminho por onde vieram. Ao perceberem sua presença, ainda na cadeira de praia, ela deu um sorriso sem-graça e ele fez um aceno com a cabeça.
Ainda se sentia grudento e excitado. Tirou o calção, deu um mergulho, e voltou para casa, em busca de um café e um cigarro, matutando que os jovens não sabiam como era ser jovem.
24 de agosto de 2010
Curtas
BIC
Ah, esta minha compulsão em roubar canetas. Vez em quando me surpreende e fico morrendo de vergonha. Roubo e perco. Ou será q me roubam? Não fosse assim teria milhares de bics. Por falar nisso, você conhece alguém q já comprou uma?
QUERO PORQUE QUERO
E o quero-quero lá, no meio da pista, impassível ao ronco ensurdecedor das turbinas, esticava o pescoço e dava de ombros, quero dizer de asas. Foi só quando o gigantesco Boeing projetou sua sombra sobre ele q se tocou, deu um pulinho para o lado e alçou vôo, displicente. Embora acostumado com a prepotência humana em invadir seu espaço aéreo, e terrestre, protestou alto com gritos esganiçados, inúteis, pensando lá com seus remígios “Ah esses homens: fingem q sabem voar. Não é à toa q vez em quando se esborracham”, e num vôo gracioso fez uma curva ampla, quase sem bater as asas, retornando para junto de sua companheira q zelava aflita pelos ovos pintalgados de verde no ninho raso.
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Ah, esta minha compulsão em roubar canetas. Vez em quando me surpreende e fico morrendo de vergonha. Roubo e perco. Ou será q me roubam? Não fosse assim teria milhares de bics. Por falar nisso, você conhece alguém q já comprou uma?
QUERO PORQUE QUERO
E o quero-quero lá, no meio da pista, impassível ao ronco ensurdecedor das turbinas, esticava o pescoço e dava de ombros, quero dizer de asas. Foi só quando o gigantesco Boeing projetou sua sombra sobre ele q se tocou, deu um pulinho para o lado e alçou vôo, displicente. Embora acostumado com a prepotência humana em invadir seu espaço aéreo, e terrestre, protestou alto com gritos esganiçados, inúteis, pensando lá com seus remígios “Ah esses homens: fingem q sabem voar. Não é à toa q vez em quando se esborracham”, e num vôo gracioso fez uma curva ampla, quase sem bater as asas, retornando para junto de sua companheira q zelava aflita pelos ovos pintalgados de verde no ninho raso.
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13 de julho de 2010
Quarta Parada
QUARTA PARADA
Finalmente conseguiu controlar a velha mania de arrancar pêlos da barba, coisa de quando estava entediado. Com um gesto discreto chamou a atenção da mulher para um saco plástico, destes de supermercado, que se movia estranhamente no canto da sala.
Um cheiro enjoado e quente, mistura de ozonizador, formol, vela queimada e crisântemos tornava o ar pesado. Afrouxou um pouco o nó da gravata e sussurrou que aquele cheiro lhe trazia lembranças de um táxi com "Bom Ar" que tomara no Bexiga no dia anterior.
A cabeça de um gatinho magricela espiou pela boca do saco e voltou a se esconder.
Soluços entrecortados alternavam-se com frases quase inaudíveis do outro lado da sala. O calor e aquele cheiro lhe davam uma sensação de angústia e desconforto.
A atenção do casal se voltou para uma velha de preto que interrompera sua conversa com as amigas para espantar um outro gatinho que entrava na sala.
- Por que será que há tantos gatos neste velório?, resmungou a mulher.
Os cheiros se misturavam no corredor mal-iluminado que ligava as salas, onde algumas pessoas saíam para fumar e esticar as pernas, andando de um lado para outro com ar compenetrado. Caixões entravam e saíam das salas em uma maca alta sobre rodas, acompanhados pelo vai-e-vem de parentes e amigos dos mortos.
- Não deve ser trivial administrar um velório deste porte, comentou o homem de barba, apreciando o movimento.
O casal se sentia incomodado por não conhecer ninguém.
- Sequer temos certeza se estamos na sala certa - cochichou a mulher, de mau humor.
- Como não? Checamos o nome da morta mais de uma vez, Virgínia Stecchino. Não pode haver duas pessoas com este nome e neste velório, retrucou o marido.
- Mas então onde está Anita?
Uma senhora de olhos lacrimejantes, que só podia ser parente da morta, ouviu o comentário e disse que Anita saíra para tomar um banho, mas que não demoraria.
- E se fôssemos embora e deixássemos um cartão de condolências?, falou a mulher, que ainda segurava o ramalhete de cravos comprados na esquina, não sabendo a quem entregá-lo.
- Pô mulher! Viemos de tão longe, compramos as flores e agora vamos embora sem ver Anita? Aguenta mais um pouco.
A mulher apoiou a cabeça na parede procurando uma posição um pouco mais confortável e lamentou-se de não haver trazido o livro do Quiroga, que já estava no final. Era bem adequado para um velório.
- Ora, só me faltava esta, lendo num velório! E você, pensa que eu não preferia estar jogando tênis no clube?
Um homem alto, passando dos cinquenta, ar desleixado, camisa parcialmente fora da calça jeans, barras sujas de lama e cara de sono, entrou na sala puxando pela mão um senhor de bengala, curvado pelos anos.
- O homem alto, o velho e a morta são obviamente parentes e de ascendência norte-européia. É só esperar para ouvir o sotaque, comentou o marido, voltando a escarafunchar a barba.
Ao que a mulher respondeu:
- Italianos! Esqueceu o sobrenome da sua secretária, Stecchino? O homem alto deve ser o irmão de Anita, e o velho um tio.
O velho ficou parado no meio da sala com ar apalermado, enquanto o homem alto se aproximou do caixão.
- Mais meia hora, no máximo, e puxamos o carro, não aguento mais. Não sei porque você me trouxe neste fim de mundo para um velório, resmungou a mulher. “Afinal a secretária é sua. Além do mais você deveria ter se informado melhor do caminho, antes de sair por aí, perguntando a cada esquina onde ficava o velório. Neste fim de mundo deveria ser a última e não a Quarta Parada”, disse a mulher fazendo graça.
Anita chegou logo depois, com uma sacola e mais uma braçada de flores que colocou rapidamente sobre a morta antes de vir cumprimentar o chefe e sua esposa.
- Oh, Dr. Henrique, não deveria ter se incomodado. O senhor ... tão ocupado! Só deixei o recado na sua mesa porque não irei trabalhar segunda-feira. Coitada da mamãe, foi doente a vida inteira, sofreu tanto!
A esposa de Henrique entregou as flores, logo esparramadas pela secretária sobre o véu negro que cobria a defunta, e consolou Anita com as frases de sempre:
- Henrique me contou, foi melhor assim, nestes casos a morte é um descanso...
O velho de bengala, ainda sem jeito, deu uma olhada geral na sala, fazendo um cumprimento genérico, e se dirigiu a uma cadeira vazia, ao lado da mulher do chefe, que instintivamente recuou um pouco.
- Mas tio, o senhor não quer dar uma olhada nela?, disse o homem alto.
Ao que o velho respondeu:
- Quem é ela?
- É tia Virgínia, sua irmã. Venha, e arrastou o velho para perto do caixão.
- Virgiiinia, minha irmã!, soou alta a voz trêmula do velho. O que fizeram com você? Não pode ser!. Tentou arrancar o véu, derrubando os cravos. Começou a beijar sofregamente a morta, chamando a atenção de todos. “O que fizeram com você? Por que Deus faz isto com as pessoas? E ainda mais com as mulheres? Virgínia, você se lembra quando éramos meninos e roubávamos manga do vizinho?” Soluçando arrastou-se para a cadeira, acariciando o cabo da bengala.
A esposa de Henrique notou as mãos finas e delicadas do velho e uma certa elegância em sua postura, apesar da pele pregueada como papel vegetal amarrotado, através da qual transparecia uma bacia hidrográfica de veias azuladas. Trajava uma calça de casimira inglesa marrom feita sob medida, sapatos de camurça fora de moda mas bem conservados, suspensórios e uma camisa de cambraia branca de listras finas.
Aos poucos o velho foi se acalmando, e os presentes retomaram as conversas interrompidas por sua reação intempestiva
O gatinho agora brincava com as borboletas dos parafusos da tampa do caixão, apoiada num canto da parede.
O velho virou-se para o chefe e perguntou:
- De que morreu a moça?
- Ouvi dizer que teve uma infecção pulmonar, respondeu o chefe, desconcertado com tal pergunta.
- Então foi de doença? Coitadinha, tão jovem e bonita. Deve ser duro morrer de infecção pulmonar. E como se chamava a moça?
- Virgínia, respondeu o chefe, com uma piscada marota para a mulher.
- Que coincidência! Tenho uma irmã que também se chama Virgínia. Sabe, eu sou católico e tenho respeito a Deus, mas com a morte não concordo! Por que Deus tem que matar as pessoas? Ele cria, e depois mata!, e veemente: Com isto não concordo! E ainda mais matar mulher, e tão jovem e bonita como esta. Se fosse um homem podia se aceitar, o homem é meio bruto, não vai à igreja. Aposto que esta aí não fez mal a ninguém. O que ela pode ter feito para merecer a morte ? Um condenado, um criminoso, vá lá , mas uma mulher tão bonita?
A secretária se aproximou envergonhada e sussurrou para o chefe:
- Meu tio já tem 85 anos e a cabecinha dele não funciona muito bem. A gente não queria trazê-lo, mas ficamos com medo que fizesse um escândalo se soubesse da morte dela após o enterro.
- Tudo bem, respondeu o chefe, É apenas um idoso carente à procura de ouvintes. Não se preocupe.
Mais tranquila Anita resolveu fazer as apresentações.
- Olha tio, este senhor é o Dr. Henrique, diretor da Faculdade de Biologia. Trabalho com ele na Universidade, e esta é a esposa dele, dona Margherita.
- Anita sempre conta coisas da faculdade nas macarronadas de domingo. Puxa! Aquilo é um vespeiro hein?
- Tio, interrompeu Anita, ruborizada, procurando mudar de assunto. Fale de seu trabalho.
- Ah! O senhor sabe que trabalhei 35 anos no Teatro Municipal? Mas isto nos bons tempos, quando aquilo era mesmo um teatro. Hoje está praticamente fechado, não tem mais espetáculos, só levam algumas orquestras sinfônicas e uns balés, nada que valha a pena. No meu tempo sim, era magnífico! Ouvi Caruso, Gigli, Schipa. E tinha uma soprano, Bidu Sayão, dona de uma voz incrível. O senhor sabia que ela era brasileira?. O Caruso me deu uma foto autografada. Eu sabia cantar trechos da Aída e da Traviata. Diziam que eu tinha voz de tenor. Depois dos espetáculos os cantores iam comer nas cantinas do Bexiga, e a gente podia chegar perto deles. Era uma grande alegria! Eu morava no Bom Retiro. Lembro como se fosse hoje: num domingo de manhã fui pescar no Rio Tietê, perto do Clube Espéria. Eu queria pegar uns lambaris. Tinha oito anos e longos cachos dourados. Minha mãe gostava de cachos. Nesse dia, cheguei muito perto do barranco, escorreguei e caí no rio. Um homem me agarrou pelos cabelos e me salvou. Veja só, salvo pelos cachos, que detestava! Mas acho que teria sido melhor ter morrido pois assim não teria que morrer depois. Não temo a morte mas tenho muito medo de ficar velho. Como era mesmo o nome da moça que morreu?
O casal se entreolhou novamente.
- O senhor sabe que eu trabalhei 35 anos no Teatro Municipal? Isto nos bons tempos, quando aquilo era mesmo um teatro, hoje está fechado. Assisti Caruso, Gigli, Schipa, ...
- É um toca fitas com tape-reverso, comentou baixinho a mulher do chefe.
A secretária estava cada vez mais aflita. Pediu licença e levou o tio para fora da sala. O casal achou que era uma boa deixa para zarpar. Ao se despedirem, comentaram que não era preciso tirar o tio da sala pois eles também tinham parentes com o mesmo problema.
- Aliás, quem não tem? A alternativa para não ficar velho é morrer moço, não é?
A secretária replicou que receava que ele começasse a cantar ópera, pois tinha uma voz muito forte e certamente causaria mal-estar na família e nos outros velórios. Isto já havia acontecido na morte de outro parente.
No carro a mulher comentou que afinal até que os parentes da secretária eram simpáticos e que o velório não tinha sido tão aborrecido assim, graças ao irmão da morta e ao gatinho.
- Aliás, se este gato não viesse de um velório levaria ele para sua sobrinha. Depois prosseguiu, provocando o marido:
- Curioso, o velho parecia tão bem fisicamente, até feliz, não fosse a praga da esclerose. Você que se cuide porque isto é hereditário. Veja seus tios!
O marido, mais monologando que respondendo, resmungou que ficar esclerosado era o que mais temia, preferia morrer antes. E deu curso ao seu costume, vício do trabalho, de meter darwinismo em todas as situações do dia-a-dia, ponderando que, afinal, a esclerose deveria ter algum valor adaptativo, algum papel biológico, ou não seria tão frequente. Seria uma espécie de autodefesa, escape passageiro da realidade resultante das carências hormonais e vitória crescente dos processos de apoptose, destinados a tornar as limitações do envelhecimento e degeneração geral mais aceitáveis pelos "sobreviventes" da terceira idade. Assim, sempre que a mente antevisse uma situação de forte estresse emocional alguns neurônios seriam desligados evitando sofrimento maior. Talvez até com consequências físicas, como acidentes vasculares ....
_ Acho que você tá delirando. Vamos logo, o farol já abriu.
Henrique engatou uma primeira e pontificou:
- Pensando bem, acho perdi um pouco o pavor de ficar esclerosado.
Finalmente conseguiu controlar a velha mania de arrancar pêlos da barba, coisa de quando estava entediado. Com um gesto discreto chamou a atenção da mulher para um saco plástico, destes de supermercado, que se movia estranhamente no canto da sala.
Um cheiro enjoado e quente, mistura de ozonizador, formol, vela queimada e crisântemos tornava o ar pesado. Afrouxou um pouco o nó da gravata e sussurrou que aquele cheiro lhe trazia lembranças de um táxi com "Bom Ar" que tomara no Bexiga no dia anterior.
A cabeça de um gatinho magricela espiou pela boca do saco e voltou a se esconder.
Soluços entrecortados alternavam-se com frases quase inaudíveis do outro lado da sala. O calor e aquele cheiro lhe davam uma sensação de angústia e desconforto.
A atenção do casal se voltou para uma velha de preto que interrompera sua conversa com as amigas para espantar um outro gatinho que entrava na sala.
- Por que será que há tantos gatos neste velório?, resmungou a mulher.
Os cheiros se misturavam no corredor mal-iluminado que ligava as salas, onde algumas pessoas saíam para fumar e esticar as pernas, andando de um lado para outro com ar compenetrado. Caixões entravam e saíam das salas em uma maca alta sobre rodas, acompanhados pelo vai-e-vem de parentes e amigos dos mortos.
- Não deve ser trivial administrar um velório deste porte, comentou o homem de barba, apreciando o movimento.
O casal se sentia incomodado por não conhecer ninguém.
- Sequer temos certeza se estamos na sala certa - cochichou a mulher, de mau humor.
- Como não? Checamos o nome da morta mais de uma vez, Virgínia Stecchino. Não pode haver duas pessoas com este nome e neste velório, retrucou o marido.
- Mas então onde está Anita?
Uma senhora de olhos lacrimejantes, que só podia ser parente da morta, ouviu o comentário e disse que Anita saíra para tomar um banho, mas que não demoraria.
- E se fôssemos embora e deixássemos um cartão de condolências?, falou a mulher, que ainda segurava o ramalhete de cravos comprados na esquina, não sabendo a quem entregá-lo.
- Pô mulher! Viemos de tão longe, compramos as flores e agora vamos embora sem ver Anita? Aguenta mais um pouco.
A mulher apoiou a cabeça na parede procurando uma posição um pouco mais confortável e lamentou-se de não haver trazido o livro do Quiroga, que já estava no final. Era bem adequado para um velório.
- Ora, só me faltava esta, lendo num velório! E você, pensa que eu não preferia estar jogando tênis no clube?
Um homem alto, passando dos cinquenta, ar desleixado, camisa parcialmente fora da calça jeans, barras sujas de lama e cara de sono, entrou na sala puxando pela mão um senhor de bengala, curvado pelos anos.
- O homem alto, o velho e a morta são obviamente parentes e de ascendência norte-européia. É só esperar para ouvir o sotaque, comentou o marido, voltando a escarafunchar a barba.
Ao que a mulher respondeu:
- Italianos! Esqueceu o sobrenome da sua secretária, Stecchino? O homem alto deve ser o irmão de Anita, e o velho um tio.
O velho ficou parado no meio da sala com ar apalermado, enquanto o homem alto se aproximou do caixão.
- Mais meia hora, no máximo, e puxamos o carro, não aguento mais. Não sei porque você me trouxe neste fim de mundo para um velório, resmungou a mulher. “Afinal a secretária é sua. Além do mais você deveria ter se informado melhor do caminho, antes de sair por aí, perguntando a cada esquina onde ficava o velório. Neste fim de mundo deveria ser a última e não a Quarta Parada”, disse a mulher fazendo graça.
Anita chegou logo depois, com uma sacola e mais uma braçada de flores que colocou rapidamente sobre a morta antes de vir cumprimentar o chefe e sua esposa.
- Oh, Dr. Henrique, não deveria ter se incomodado. O senhor ... tão ocupado! Só deixei o recado na sua mesa porque não irei trabalhar segunda-feira. Coitada da mamãe, foi doente a vida inteira, sofreu tanto!
A esposa de Henrique entregou as flores, logo esparramadas pela secretária sobre o véu negro que cobria a defunta, e consolou Anita com as frases de sempre:
- Henrique me contou, foi melhor assim, nestes casos a morte é um descanso...
O velho de bengala, ainda sem jeito, deu uma olhada geral na sala, fazendo um cumprimento genérico, e se dirigiu a uma cadeira vazia, ao lado da mulher do chefe, que instintivamente recuou um pouco.
- Mas tio, o senhor não quer dar uma olhada nela?, disse o homem alto.
Ao que o velho respondeu:
- Quem é ela?
- É tia Virgínia, sua irmã. Venha, e arrastou o velho para perto do caixão.
- Virgiiinia, minha irmã!, soou alta a voz trêmula do velho. O que fizeram com você? Não pode ser!. Tentou arrancar o véu, derrubando os cravos. Começou a beijar sofregamente a morta, chamando a atenção de todos. “O que fizeram com você? Por que Deus faz isto com as pessoas? E ainda mais com as mulheres? Virgínia, você se lembra quando éramos meninos e roubávamos manga do vizinho?” Soluçando arrastou-se para a cadeira, acariciando o cabo da bengala.
A esposa de Henrique notou as mãos finas e delicadas do velho e uma certa elegância em sua postura, apesar da pele pregueada como papel vegetal amarrotado, através da qual transparecia uma bacia hidrográfica de veias azuladas. Trajava uma calça de casimira inglesa marrom feita sob medida, sapatos de camurça fora de moda mas bem conservados, suspensórios e uma camisa de cambraia branca de listras finas.
Aos poucos o velho foi se acalmando, e os presentes retomaram as conversas interrompidas por sua reação intempestiva
O gatinho agora brincava com as borboletas dos parafusos da tampa do caixão, apoiada num canto da parede.
O velho virou-se para o chefe e perguntou:
- De que morreu a moça?
- Ouvi dizer que teve uma infecção pulmonar, respondeu o chefe, desconcertado com tal pergunta.
- Então foi de doença? Coitadinha, tão jovem e bonita. Deve ser duro morrer de infecção pulmonar. E como se chamava a moça?
- Virgínia, respondeu o chefe, com uma piscada marota para a mulher.
- Que coincidência! Tenho uma irmã que também se chama Virgínia. Sabe, eu sou católico e tenho respeito a Deus, mas com a morte não concordo! Por que Deus tem que matar as pessoas? Ele cria, e depois mata!, e veemente: Com isto não concordo! E ainda mais matar mulher, e tão jovem e bonita como esta. Se fosse um homem podia se aceitar, o homem é meio bruto, não vai à igreja. Aposto que esta aí não fez mal a ninguém. O que ela pode ter feito para merecer a morte ? Um condenado, um criminoso, vá lá , mas uma mulher tão bonita?
A secretária se aproximou envergonhada e sussurrou para o chefe:
- Meu tio já tem 85 anos e a cabecinha dele não funciona muito bem. A gente não queria trazê-lo, mas ficamos com medo que fizesse um escândalo se soubesse da morte dela após o enterro.
- Tudo bem, respondeu o chefe, É apenas um idoso carente à procura de ouvintes. Não se preocupe.
Mais tranquila Anita resolveu fazer as apresentações.
- Olha tio, este senhor é o Dr. Henrique, diretor da Faculdade de Biologia. Trabalho com ele na Universidade, e esta é a esposa dele, dona Margherita.
- Anita sempre conta coisas da faculdade nas macarronadas de domingo. Puxa! Aquilo é um vespeiro hein?
- Tio, interrompeu Anita, ruborizada, procurando mudar de assunto. Fale de seu trabalho.
- Ah! O senhor sabe que trabalhei 35 anos no Teatro Municipal? Mas isto nos bons tempos, quando aquilo era mesmo um teatro. Hoje está praticamente fechado, não tem mais espetáculos, só levam algumas orquestras sinfônicas e uns balés, nada que valha a pena. No meu tempo sim, era magnífico! Ouvi Caruso, Gigli, Schipa. E tinha uma soprano, Bidu Sayão, dona de uma voz incrível. O senhor sabia que ela era brasileira?. O Caruso me deu uma foto autografada. Eu sabia cantar trechos da Aída e da Traviata. Diziam que eu tinha voz de tenor. Depois dos espetáculos os cantores iam comer nas cantinas do Bexiga, e a gente podia chegar perto deles. Era uma grande alegria! Eu morava no Bom Retiro. Lembro como se fosse hoje: num domingo de manhã fui pescar no Rio Tietê, perto do Clube Espéria. Eu queria pegar uns lambaris. Tinha oito anos e longos cachos dourados. Minha mãe gostava de cachos. Nesse dia, cheguei muito perto do barranco, escorreguei e caí no rio. Um homem me agarrou pelos cabelos e me salvou. Veja só, salvo pelos cachos, que detestava! Mas acho que teria sido melhor ter morrido pois assim não teria que morrer depois. Não temo a morte mas tenho muito medo de ficar velho. Como era mesmo o nome da moça que morreu?
O casal se entreolhou novamente.
- O senhor sabe que eu trabalhei 35 anos no Teatro Municipal? Isto nos bons tempos, quando aquilo era mesmo um teatro, hoje está fechado. Assisti Caruso, Gigli, Schipa, ...
- É um toca fitas com tape-reverso, comentou baixinho a mulher do chefe.
A secretária estava cada vez mais aflita. Pediu licença e levou o tio para fora da sala. O casal achou que era uma boa deixa para zarpar. Ao se despedirem, comentaram que não era preciso tirar o tio da sala pois eles também tinham parentes com o mesmo problema.
- Aliás, quem não tem? A alternativa para não ficar velho é morrer moço, não é?
A secretária replicou que receava que ele começasse a cantar ópera, pois tinha uma voz muito forte e certamente causaria mal-estar na família e nos outros velórios. Isto já havia acontecido na morte de outro parente.
No carro a mulher comentou que afinal até que os parentes da secretária eram simpáticos e que o velório não tinha sido tão aborrecido assim, graças ao irmão da morta e ao gatinho.
- Aliás, se este gato não viesse de um velório levaria ele para sua sobrinha. Depois prosseguiu, provocando o marido:
- Curioso, o velho parecia tão bem fisicamente, até feliz, não fosse a praga da esclerose. Você que se cuide porque isto é hereditário. Veja seus tios!
O marido, mais monologando que respondendo, resmungou que ficar esclerosado era o que mais temia, preferia morrer antes. E deu curso ao seu costume, vício do trabalho, de meter darwinismo em todas as situações do dia-a-dia, ponderando que, afinal, a esclerose deveria ter algum valor adaptativo, algum papel biológico, ou não seria tão frequente. Seria uma espécie de autodefesa, escape passageiro da realidade resultante das carências hormonais e vitória crescente dos processos de apoptose, destinados a tornar as limitações do envelhecimento e degeneração geral mais aceitáveis pelos "sobreviventes" da terceira idade. Assim, sempre que a mente antevisse uma situação de forte estresse emocional alguns neurônios seriam desligados evitando sofrimento maior. Talvez até com consequências físicas, como acidentes vasculares ....
_ Acho que você tá delirando. Vamos logo, o farol já abriu.
Henrique engatou uma primeira e pontificou:
- Pensando bem, acho perdi um pouco o pavor de ficar esclerosado.
O Gato, o Caxinguelê e Eu
O gato, o caxinguelê e eu
O Saco do Mamanguá fica aqui, na costa, entre o Rio e São Paulo. Zanzibar fica do outro lado do mundo.
O Mamanguá parece um fjord tropical, mas não é. É apenas uma ria – detalhe geográfico ainda mais interessante por ser único nesta parte do mundo.
Visitei o Mamanguá recentemente em uma expedição de canoas canadenses. Da rede, onde descansava o esqueleto cansado de remar desde Paraty, e pitava um “paieiro” de fumo goiano, observava um caxinguelê que saltitava no gramado, revirando frutos de abricó da praia. Ao perceber o gato que se aproximava rastejando, sorrateiro, ondulando o rabo como uma serpente, emitiu um som agudo e em três pulos alcançou o coqueiro, subindo até a copa antes que o bichano tivesse tempo de esboçar um ataque. O gato foi até o coqueiro, com calma, mas vivamente interessado, afiou as garras no tronco, deu algumas voltas olhando para cima, talvez pensando que as uvas estavam verdes, e deitou-se, com dignidade e aparente paciência, junto ao pé do coqueiro. Daí a pouco o esquilo desceu “a meio pau” e começou a guinchar, revoltado. Saí da rede e fui pra cozinha preparar o café.
Semana seguinte viajei para Zanzibar, um conjunto de ilhas no Oceano Índico, próximo à costa da África, ao norte de Madagascar. Após ser explorada por vários colonizadores tornou-se independente e juntou-se a Tanganica, no país que é atualmente a República Unida da Tanzânia. A ilha principal, Unguja, é hoje um centro turístico conhecido como Zanzibar. É famosa pelas praias de águas transparentes, areias brancas e recifes de corais que maravilham mergulhadores de todo o mundo. É famosa também pela sua “Stone Town”, cidade única que mantém uma arquitetura árabe e indiana extremamente curiosa; suas vielas estreitas e tortuosas, onde os mizungos (turistas) se perdem, lembram um queijo suíço.
Hoje era dia de folga no simpósio de aquicultura organizado pelo consórcio de pesquisas marinhas do Índico Ocidental. O grupo saiu cedo, em dois ônibus, rumo à Fumba, na extremidade de uma península na costa sul-ocidental da ilha. O objetivo era caminhar até uma ilhota só acessível nas marés mais baixas. Após dois dias fechados em uma sala com o ar condicionado regulado no mais frio os gringos estavam ansiosos para sair a campo, tomar sol e fotografar as gramas marinhas, algas e invertebrados expostos pela baixamar de sizígia. Como já conhecia o local desgarrei-me e resolvi caminhar pelo manguezal que se estendia para o sul. Sempre tive um fraco por manguezais apesar dos maruins e outros tipos de borrachudos. Ainda mais que os manguezais do Índico diferem bastante dos manguezais do Brasil pela sua alta biodiversidade e por crescerem em concreções de velhos bancos de coral.
Caminhei por entre as árvores testando um guia de identificação das espécies: Avicennia marina, Bruguiera parviflora, Rhizophora apiculata ...
Começou a chover e me recolhi sob a copa de uma grande Avicennia officinalis, com flores amarelo-laranja, cheirando a mel. Não encontrando local seco e confortável para sentar resolvi subir na árvore e sentar em um galho. Era uma árvore sólida, esgalhada, fácil de trepar. Encontrei uma posição confortável à meia altura, pendurei minha mochila em uma ponta de galho, peguei um pacotinho de amendoim japonês que havia surrupiado da sala VIP da VARIG, e me preparei para ler um livro do Coetzee (Disgrace), enquanto aguardava a chuva passar e a volta dos companheiros de simpósio.
Daí a pouco ouvi um cantarolar e vi um homem que se aproximava vindo da praia, possivelmente em busca de abrigo da chuva. Fiquei meio cabreiro ao lembrar de tantas estórias sobre turistas que foram assaltados e ameaçados com facas. Achei que poderia passar despercebido em cima da árvore. Procurando me ajeitar melhor, para uma espera talvez um pouco longa, derrubei o pacotinho de amendoim. O cara olhou para cima e me viu. Devia ter uns vinte anos, descalço, cabeça raspada, trajando uma velha bermuda preta e uma camisa de malha com quadrados marrons e amarelos, intercalados, como uma mesa de xadrez. Numa das mãos trazia um grande balde verde e um machete na outra. Deve ter ficado intrigado ao ver um velho de barbas brancas, com chapéu de pano e óculos de leitura, encarapitado em um galho da árvore. Imediatamente eu disse “salamaleicon, jambo”. Ele retrucou com um “jambo”. Disse algo mais que não entendi e respondi com um “assante”. Procurei demonstrar tranqüilidade, e recomecei a ler, mas alerta com o rabo dos olhos. O cara olhava para cima, curioso, sem saber bem o que fazer. Deu uma volta em torno da árvore, olhou em todas as direções, virou o balde de boca para baixo e sentou-se.
“Está planejando o assalto”, pensei. Procurando não fazer barulho, subi mais um pouco, sob seu atento escrutínio, achando que estaria mais seguro sentado próximo ao topo. Lá de cima conseguia ver meu grupo caminhando na lama e entre os corais, a pouco mais de um quilômetro. Vi, também, que outro homem se aproximava. Era mais velho, com uma camisa vermelha, de algum time de futebol, com um grande número 10 nas costas. Parou sob a árvore, trocou umas palavras com o cara do balde e olhou para cima. Quando nossos olhos se encontraram eu disse “jambo”. Ele não respondeu. Tirou a camisa, exibindo um corpo malhado pelo trabalho pesado, forrou uma pedra mais plana com a camisa e se deitou. Continuaram conversando em swahili e olhando para mim de vez em quando. Eu fingia que lia, mas mantinha a vigília, de soslaio, planejando o que fazer: se um deles subir para me pegar estarei numa posição favorável para pisar-lhe nas mãos e dar uns bons chutes, além de gritar. A não ser que usem o facão para cortar o galho onde estou sentado... .
Daí a pouco ouvi vozes e risos e vi que o pessoal do simpósio estava voltando. Aliviado desci da árvore, peguei o pacote de amendoim e dei para o cara do balde. Ele estendeu a mão e disse “assante”.
Acho que me preocupei à toa.
Mais tarde, relatando meu apuro, um colega da Tanzânia me disse que os caras ao verem minha barba branca e minha posição inusitada num galho de árvore certamente pensaram que eu era um imã, ou algo do tipo, e não iriam me molestar, são muito supersticiosos e respeitam muito velhos de barba. Sei lá, o fato é que passei uma meia hora bastante tensa.
Saí com o grupo para visitar uma fazenda de algas marinhas, agora sob um sol abrasador. Programa de biólogos.
Ah, quanto ao caxinguelê ... não sei se ele teve a sorte que tive. Quando voltei da cozinha ele e o gato tinham sumido.
O Saco do Mamanguá fica aqui, na costa, entre o Rio e São Paulo. Zanzibar fica do outro lado do mundo.
O Mamanguá parece um fjord tropical, mas não é. É apenas uma ria – detalhe geográfico ainda mais interessante por ser único nesta parte do mundo.
Visitei o Mamanguá recentemente em uma expedição de canoas canadenses. Da rede, onde descansava o esqueleto cansado de remar desde Paraty, e pitava um “paieiro” de fumo goiano, observava um caxinguelê que saltitava no gramado, revirando frutos de abricó da praia. Ao perceber o gato que se aproximava rastejando, sorrateiro, ondulando o rabo como uma serpente, emitiu um som agudo e em três pulos alcançou o coqueiro, subindo até a copa antes que o bichano tivesse tempo de esboçar um ataque. O gato foi até o coqueiro, com calma, mas vivamente interessado, afiou as garras no tronco, deu algumas voltas olhando para cima, talvez pensando que as uvas estavam verdes, e deitou-se, com dignidade e aparente paciência, junto ao pé do coqueiro. Daí a pouco o esquilo desceu “a meio pau” e começou a guinchar, revoltado. Saí da rede e fui pra cozinha preparar o café.
Semana seguinte viajei para Zanzibar, um conjunto de ilhas no Oceano Índico, próximo à costa da África, ao norte de Madagascar. Após ser explorada por vários colonizadores tornou-se independente e juntou-se a Tanganica, no país que é atualmente a República Unida da Tanzânia. A ilha principal, Unguja, é hoje um centro turístico conhecido como Zanzibar. É famosa pelas praias de águas transparentes, areias brancas e recifes de corais que maravilham mergulhadores de todo o mundo. É famosa também pela sua “Stone Town”, cidade única que mantém uma arquitetura árabe e indiana extremamente curiosa; suas vielas estreitas e tortuosas, onde os mizungos (turistas) se perdem, lembram um queijo suíço.
Hoje era dia de folga no simpósio de aquicultura organizado pelo consórcio de pesquisas marinhas do Índico Ocidental. O grupo saiu cedo, em dois ônibus, rumo à Fumba, na extremidade de uma península na costa sul-ocidental da ilha. O objetivo era caminhar até uma ilhota só acessível nas marés mais baixas. Após dois dias fechados em uma sala com o ar condicionado regulado no mais frio os gringos estavam ansiosos para sair a campo, tomar sol e fotografar as gramas marinhas, algas e invertebrados expostos pela baixamar de sizígia. Como já conhecia o local desgarrei-me e resolvi caminhar pelo manguezal que se estendia para o sul. Sempre tive um fraco por manguezais apesar dos maruins e outros tipos de borrachudos. Ainda mais que os manguezais do Índico diferem bastante dos manguezais do Brasil pela sua alta biodiversidade e por crescerem em concreções de velhos bancos de coral.
Caminhei por entre as árvores testando um guia de identificação das espécies: Avicennia marina, Bruguiera parviflora, Rhizophora apiculata ...
Começou a chover e me recolhi sob a copa de uma grande Avicennia officinalis, com flores amarelo-laranja, cheirando a mel. Não encontrando local seco e confortável para sentar resolvi subir na árvore e sentar em um galho. Era uma árvore sólida, esgalhada, fácil de trepar. Encontrei uma posição confortável à meia altura, pendurei minha mochila em uma ponta de galho, peguei um pacotinho de amendoim japonês que havia surrupiado da sala VIP da VARIG, e me preparei para ler um livro do Coetzee (Disgrace), enquanto aguardava a chuva passar e a volta dos companheiros de simpósio.
Daí a pouco ouvi um cantarolar e vi um homem que se aproximava vindo da praia, possivelmente em busca de abrigo da chuva. Fiquei meio cabreiro ao lembrar de tantas estórias sobre turistas que foram assaltados e ameaçados com facas. Achei que poderia passar despercebido em cima da árvore. Procurando me ajeitar melhor, para uma espera talvez um pouco longa, derrubei o pacotinho de amendoim. O cara olhou para cima e me viu. Devia ter uns vinte anos, descalço, cabeça raspada, trajando uma velha bermuda preta e uma camisa de malha com quadrados marrons e amarelos, intercalados, como uma mesa de xadrez. Numa das mãos trazia um grande balde verde e um machete na outra. Deve ter ficado intrigado ao ver um velho de barbas brancas, com chapéu de pano e óculos de leitura, encarapitado em um galho da árvore. Imediatamente eu disse “salamaleicon, jambo”. Ele retrucou com um “jambo”. Disse algo mais que não entendi e respondi com um “assante”. Procurei demonstrar tranqüilidade, e recomecei a ler, mas alerta com o rabo dos olhos. O cara olhava para cima, curioso, sem saber bem o que fazer. Deu uma volta em torno da árvore, olhou em todas as direções, virou o balde de boca para baixo e sentou-se.
“Está planejando o assalto”, pensei. Procurando não fazer barulho, subi mais um pouco, sob seu atento escrutínio, achando que estaria mais seguro sentado próximo ao topo. Lá de cima conseguia ver meu grupo caminhando na lama e entre os corais, a pouco mais de um quilômetro. Vi, também, que outro homem se aproximava. Era mais velho, com uma camisa vermelha, de algum time de futebol, com um grande número 10 nas costas. Parou sob a árvore, trocou umas palavras com o cara do balde e olhou para cima. Quando nossos olhos se encontraram eu disse “jambo”. Ele não respondeu. Tirou a camisa, exibindo um corpo malhado pelo trabalho pesado, forrou uma pedra mais plana com a camisa e se deitou. Continuaram conversando em swahili e olhando para mim de vez em quando. Eu fingia que lia, mas mantinha a vigília, de soslaio, planejando o que fazer: se um deles subir para me pegar estarei numa posição favorável para pisar-lhe nas mãos e dar uns bons chutes, além de gritar. A não ser que usem o facão para cortar o galho onde estou sentado... .
Daí a pouco ouvi vozes e risos e vi que o pessoal do simpósio estava voltando. Aliviado desci da árvore, peguei o pacote de amendoim e dei para o cara do balde. Ele estendeu a mão e disse “assante”.
Acho que me preocupei à toa.
Mais tarde, relatando meu apuro, um colega da Tanzânia me disse que os caras ao verem minha barba branca e minha posição inusitada num galho de árvore certamente pensaram que eu era um imã, ou algo do tipo, e não iriam me molestar, são muito supersticiosos e respeitam muito velhos de barba. Sei lá, o fato é que passei uma meia hora bastante tensa.
Saí com o grupo para visitar uma fazenda de algas marinhas, agora sob um sol abrasador. Programa de biólogos.
Ah, quanto ao caxinguelê ... não sei se ele teve a sorte que tive. Quando voltei da cozinha ele e o gato tinham sumido.
Às voltas com o pó
ÀS VOLTAS COM O PÓ
Elsa sempre quis ser cremada. Não queria ir de jeito nenhum para o jazigo da família. A burocracia “crematória” foi mais complicada do que eu imaginara, mas não tinha como não atender ao seu último desejo – fora uma esposa excepcional durante o curto tempo que durara nosso casamento.
É, a vida tem destas coisas! Aparentemente uma saúde de ferro que se esvaiu rapidamente em uma septicemia até hoje não bem explicada pelos médicos.
Agora era deixar a tristeza de lado e tocar viola, quero dizer, a vida. Quero ver se é verdade que “mulher a gente encontra em toda parte”, como dizia o poeta. Não tenho filhos, estou bem de vida e de saúde (cala-te boca), e vou tentar afogar a falta que ela me faz aceitando as cantadas que venho recebendo de ex-namoradas e até de amigas dela.
Mas, antes, preciso resolver um probleminha que ainda me incomoda: as cinzas. Não consigo tirar os olhos daquela urna indiana sobre a lareira. Ainda me lembro do dia em que ela a comprara na memorável viagem que fizemos a Calcutá – “Para mim ou para você, a gente nunca sabe ...”
A viagem à Índia fora um presente da empresa alemã para quem Elsa trabalhara como secretária até as vésperas do casamento. Ela não queria seguir os bandos de turistas visitando os pontos tradicionais. Queria se aperfeiçoar nas práticas sexuais tântricas, e se exercitar nas posições do Kama Sutra. Imbuíra-se de que sexo não é apenas um simples prazer como comer, mas um ritual de amor, maithuna, e que deveríamos encarnar os papéis de Shakti e Shiva, usando a yoni e o linga com calma e sofisticação. Apreciava especialmente as posições de Ananga Ranga e do “caranguejo”. Confesso que no início achei que era frescura de uma mulher inexperiente, mas com a prática vi que ela tinha razão. Uma sessão de sexo com Elsa era realmente uma experiência única, mesmo pra mim, um cara bem rodado.
Uma das características de Elsa era ser detalhista. Planejou minuciosamente cada detalhe da noite de núpcias. Passara suas poucas horas livres, no período de noivado, pesquisando artes sexuais na internet. Só vim a saber isso depois, pois ela fizera questão de casar virgem, mantendo um comportamento recatado e pudico durante todo o noivado− o que chegou a me preocupar. Assim, o que se passou na noite de núpcias e nos dias seguintes foi uma tremenda surpresa para mim. Oh que agradável surpresa! Elsa preparara um verdadeiro cerimonial para a primeira noite no Hotel Othon, para onde fomos após a recepção que se seguiu ao casório no convento de São Bento, com cantoria sacra e tudo mais.
Quando manifestei minha enorme surpresa com o que aconteceu na noite de núpcias, ela me disse que a única maneira de evitar a prevaricação de um marido era mantê-lo sexualmente saciado no leito conjugal – ensinamento de sua tia Isaura, no terceiro casamento, sem falar nos numerosos “affairs”, tão comentados na família. E para isto ela se preparara desde a adolescência. Era persistente, criativa e insuperável em tudo que fazia, como já me havia dito o diretor alemão, seu patrão, ao felicitar-me pelo casamento.
Dois anos depois, quando percebeu que estava desenganada e no leito de morte, me fez prometer que guardaria suas cinzas sempre comigo. Ela se fora, ficaram as cinzas. Aquela maldita, desculpem o termo, urna indiana me vinha à mente sempre que via um rabo de saia.
Pensei em espalhar as cinzas do alto do Pico do Jaraguá para que o vento as espalhasse pela Sampa que ela amava tanto, mas não consegui. Achei que o remorso de faltar com sua promessa iria me perseguir por toda a vida. Poderia ser ainda pior.
O problema é que em matéria de sexo Elsa me deixara muito mal acostumado, e a cada dia que passava os hormônios se acumulavam e a pressão aumentava. Precisava fazer alguma coisa, dar seqüência à vida orgânica, cuidar do corpo, porque a alma, ah a alma ... não me preocupava, pois, “graças a Deus, sou ateu”.
E, neste passo, de que era preciso superar as perdas, um mês depois da cremação achei que já era hora de voltar à vida de solteiro, isto é, viúvo. Resolvi “tomar uma providência no bar do seu José”, onde entornei umas e outras antes de levar uma ex-namorada boazuda para um jantar à luz de velas em casa. Foi a primeira decepção – não podia acreditar que isto fosse acontecer comigo, pelo menos nesta idade. Tereza até que foi compreensiva e disse que isso era normal, acontecia com todo mundo – fazia tão pouco tempo que eu enviuvara... Mas, fiquei muito cabreiro, além de envergonhado - tanto libido e o bicho não correspondia. Aquela urna não saía da minha mente.
Passado uns dias estava mais calmo e marquei novo encontro, agora num motel sofisticado para fugir do ambiente familiar. Na hora H voltou a imagem da urna e, fracasso, fracasso, fracasso. Desta vez Tereza tentou me consolar dizendo que deveria ser algo errado com ela. Assumiu um ar de tédio e sorriu amarelo. Mas não me enganou. Definitivamente a coisa era séria e o problema era comigo. Mesmo assim resolvi tentar com mulheres de programa, pelo menos não me conheciam. Gastei uma grana com garotas fogosas, de corpos esculturais, uma mulata que era uma parada federal; tentei até com uma nissei, miudinha, uma graça. O Viagra ajudou um pouco mas meu desempenho ainda era medíocre se comparado com minha performance com a Elsa. Entrei numa fase de tristeza, definhava .... Todos reparavam, até minha mãe. Definitivamente precisava de ajuda médica.
Meu médico diagnosticou disfunção erétil e recomendou uma clínica especializada. Após vários exames, o diagnóstico foi o de que não havia nada de errado com minha anatomia, nem com os hormônios – as glândulas funcionavam dentro dos parâmetros da normalidade, os corpos cavernosos estavam em ordem ...
“Tente Viagra, Cialis, estas coisas”, me disse o médico. “Já tentou? Então o problema está na sua cabeça, meu amigo. Vá ver um terapeuta”. Saí cabisbaixo e furioso – merda de clínica!
Analista, eu? Os que conheço são uns desequilibrados. Trauma de perda amorosa? Papo furado! Elsa era o máximo, mas já pertence ao passado. Tô pouco me lixando pra memória dela; a vida continua e quero mais é voltar a fornicar como antes. Comecei a freqüentar bares quase todos os dias. A coisa só piorava.
No desespero, lembrei-me de um anúncio que vi num poste lá no Rio Pequeno: Tia Zilda – benze e cura. Trata de mau-de-amor, mau-olhado, fraqueza de homem. Discrição absoluta.
"Fraqueza de homem" chamou minha atenção. É claro que não acreditava nestas coisas, mas não sei porque anotei o número do telefone. Aquilo ficou na minha cabeça – fraqueza de homem ... Afinal, o que tinha a perder? Num impulso telefonei marcando um encontro para as dezesseis horas de sexta feira. Sexta, depois do almoço, comecei a pensar se não seria um golpe para pegar os manés fragilizados. Estava quase amarelando, mas resolvi ir de uma vez pra desencucar. Prevenido fui com uma calça surrada, uma velha camisa polo, e tênis, para não dar bandeira. Parei a Pajero um quarteirão antes e levei no bolso apenas o celular e as oitenta pratas da consulta.
O endereço era nos fundos de um conjunto de casas geminadas - uma edícula com telhado de eternit. No terreiro um galo de grande crista vermelha com longas esporas e umas galinhas carijós ciscavam e cacarejavam. Ao lado, uma horta com losna, arruda, comigo-ninguém-pode, e outras plantas que não conhecia. Um aviso rabiscado na porta dizia: Entre sem bater. Entrei. De início não via quase nada, mas aos poucos fui me adaptando à meia luz e à fumaça.
Tia Zilda, sentada em uma espreguiçadeira, cabelos longos, toda de preto, pitava uma mistura de baseado com fumo de corda. Acenou para eu sentar em um tamborete de couro de cabrito, me estendeu um copinho de 51, e numa voz rouca e falhada falou, “Meu nego, tome o remédio, sou toda ouvidos, desembuxe – fale dos seus pobremas.”
E falei, no princípio meio sem jeito e aos solavancos. Fui ganhando confiança, encorajado pela penumbra, e aos poucos engrenei o papo e contei meu relacionamento com Elsa e a brochada que me acometeu após a morte dela. “Mulher não falta, tenho vontade e muita, mas o negócio não funciona – o bráulio está como um gato de armazém, dormindo sobre a sacaria”. Tia Zilda acendia constantemente o grosso cigarro que teimava em apagar, e dava tapas nas fagulhas que lhe caiam na blusa. A cada frase minha fazia um movimento afirmativo com a cabeça, incentivando-me a prosseguir em meu relato.
Depois de ouvir tudo com atenção estendeu a mão, pegou as oitenta pratas, amassou as notas, enfiou em uma cabaça que estava ao lado da espreguiçadeira, e deu o veredicto: “Meu fio, conheço este tipo de dona. A solução, meu fio, é você se livrar das cinzas. Mas, sem se afastar delas pra não quebrar a promessa. Em vez de Viagra e estas besteiras, coloque uma colherinha das cinzas em uma xícara de café, bem adoçada, e tome uma hora antes de você trepar. Vá tomando e trepando, até acabar.Tenha fé que vai funcionar. Senão, marque um retorno. Agora vá meu fio, adeus, tenha fé ,,,”
Virei as costas e saí apressado, sentindo-me ridículo, mas ao mesmo tempo aliviado. Engolir cinzas da Elsa? Que loucura; além de me parecer meio nojento. Arranquei, cantando os pneus e fui tomar uma cangibrina num boteco da Vila Madá, pensando como fui ingênuo.
Chegando em casa e sem saber bem o que estava fazendo passei as cinzas para um saco zip-lock e coloquei na minha pasta de trabalho. Esbarrei com o cotovelo na urna, que se espatifou no chão; coloquei os cacos num saco plástico e atirei na lixeira. A sensação de alívio foi imediata.
Não foi fácil convencê-la, mas o primeiro teste foi com a mesma ex-namorada. Posso lhe assegurar que ficou admirada – “um outro homem” disse olhando-me nos olhos.
Tempos depois, no check-up de rotina, meu médico perguntou se eu tinha mudado de vida, de alimentação, algum suplemento mineral? Minha osteoporose havia desaparecido, e minha pele estava mais hidratada, rejuvenescida, as íris mais brilhantes, parecia um novo homem.
- Nada doutor, ando apenas menos estressado.”
- E aquela sua queixa de perda da libido?
-Na idade em que estou não posso me queixar doutor. Vou marcar o retorno pro ano que vem.
Sentiu uma comichão na língua e vontade de dizer que não havia nada mais afrodisíaco que o pó da mulher amada. Santa Elza!
Praia Vermelha, 16 de outubro de 2009.
Elsa sempre quis ser cremada. Não queria ir de jeito nenhum para o jazigo da família. A burocracia “crematória” foi mais complicada do que eu imaginara, mas não tinha como não atender ao seu último desejo – fora uma esposa excepcional durante o curto tempo que durara nosso casamento.
É, a vida tem destas coisas! Aparentemente uma saúde de ferro que se esvaiu rapidamente em uma septicemia até hoje não bem explicada pelos médicos.
Agora era deixar a tristeza de lado e tocar viola, quero dizer, a vida. Quero ver se é verdade que “mulher a gente encontra em toda parte”, como dizia o poeta. Não tenho filhos, estou bem de vida e de saúde (cala-te boca), e vou tentar afogar a falta que ela me faz aceitando as cantadas que venho recebendo de ex-namoradas e até de amigas dela.
Mas, antes, preciso resolver um probleminha que ainda me incomoda: as cinzas. Não consigo tirar os olhos daquela urna indiana sobre a lareira. Ainda me lembro do dia em que ela a comprara na memorável viagem que fizemos a Calcutá – “Para mim ou para você, a gente nunca sabe ...”
A viagem à Índia fora um presente da empresa alemã para quem Elsa trabalhara como secretária até as vésperas do casamento. Ela não queria seguir os bandos de turistas visitando os pontos tradicionais. Queria se aperfeiçoar nas práticas sexuais tântricas, e se exercitar nas posições do Kama Sutra. Imbuíra-se de que sexo não é apenas um simples prazer como comer, mas um ritual de amor, maithuna, e que deveríamos encarnar os papéis de Shakti e Shiva, usando a yoni e o linga com calma e sofisticação. Apreciava especialmente as posições de Ananga Ranga e do “caranguejo”. Confesso que no início achei que era frescura de uma mulher inexperiente, mas com a prática vi que ela tinha razão. Uma sessão de sexo com Elsa era realmente uma experiência única, mesmo pra mim, um cara bem rodado.
Uma das características de Elsa era ser detalhista. Planejou minuciosamente cada detalhe da noite de núpcias. Passara suas poucas horas livres, no período de noivado, pesquisando artes sexuais na internet. Só vim a saber isso depois, pois ela fizera questão de casar virgem, mantendo um comportamento recatado e pudico durante todo o noivado− o que chegou a me preocupar. Assim, o que se passou na noite de núpcias e nos dias seguintes foi uma tremenda surpresa para mim. Oh que agradável surpresa! Elsa preparara um verdadeiro cerimonial para a primeira noite no Hotel Othon, para onde fomos após a recepção que se seguiu ao casório no convento de São Bento, com cantoria sacra e tudo mais.
Quando manifestei minha enorme surpresa com o que aconteceu na noite de núpcias, ela me disse que a única maneira de evitar a prevaricação de um marido era mantê-lo sexualmente saciado no leito conjugal – ensinamento de sua tia Isaura, no terceiro casamento, sem falar nos numerosos “affairs”, tão comentados na família. E para isto ela se preparara desde a adolescência. Era persistente, criativa e insuperável em tudo que fazia, como já me havia dito o diretor alemão, seu patrão, ao felicitar-me pelo casamento.
Dois anos depois, quando percebeu que estava desenganada e no leito de morte, me fez prometer que guardaria suas cinzas sempre comigo. Ela se fora, ficaram as cinzas. Aquela maldita, desculpem o termo, urna indiana me vinha à mente sempre que via um rabo de saia.
Pensei em espalhar as cinzas do alto do Pico do Jaraguá para que o vento as espalhasse pela Sampa que ela amava tanto, mas não consegui. Achei que o remorso de faltar com sua promessa iria me perseguir por toda a vida. Poderia ser ainda pior.
O problema é que em matéria de sexo Elsa me deixara muito mal acostumado, e a cada dia que passava os hormônios se acumulavam e a pressão aumentava. Precisava fazer alguma coisa, dar seqüência à vida orgânica, cuidar do corpo, porque a alma, ah a alma ... não me preocupava, pois, “graças a Deus, sou ateu”.
E, neste passo, de que era preciso superar as perdas, um mês depois da cremação achei que já era hora de voltar à vida de solteiro, isto é, viúvo. Resolvi “tomar uma providência no bar do seu José”, onde entornei umas e outras antes de levar uma ex-namorada boazuda para um jantar à luz de velas em casa. Foi a primeira decepção – não podia acreditar que isto fosse acontecer comigo, pelo menos nesta idade. Tereza até que foi compreensiva e disse que isso era normal, acontecia com todo mundo – fazia tão pouco tempo que eu enviuvara... Mas, fiquei muito cabreiro, além de envergonhado - tanto libido e o bicho não correspondia. Aquela urna não saía da minha mente.
Passado uns dias estava mais calmo e marquei novo encontro, agora num motel sofisticado para fugir do ambiente familiar. Na hora H voltou a imagem da urna e, fracasso, fracasso, fracasso. Desta vez Tereza tentou me consolar dizendo que deveria ser algo errado com ela. Assumiu um ar de tédio e sorriu amarelo. Mas não me enganou. Definitivamente a coisa era séria e o problema era comigo. Mesmo assim resolvi tentar com mulheres de programa, pelo menos não me conheciam. Gastei uma grana com garotas fogosas, de corpos esculturais, uma mulata que era uma parada federal; tentei até com uma nissei, miudinha, uma graça. O Viagra ajudou um pouco mas meu desempenho ainda era medíocre se comparado com minha performance com a Elsa. Entrei numa fase de tristeza, definhava .... Todos reparavam, até minha mãe. Definitivamente precisava de ajuda médica.
Meu médico diagnosticou disfunção erétil e recomendou uma clínica especializada. Após vários exames, o diagnóstico foi o de que não havia nada de errado com minha anatomia, nem com os hormônios – as glândulas funcionavam dentro dos parâmetros da normalidade, os corpos cavernosos estavam em ordem ...
“Tente Viagra, Cialis, estas coisas”, me disse o médico. “Já tentou? Então o problema está na sua cabeça, meu amigo. Vá ver um terapeuta”. Saí cabisbaixo e furioso – merda de clínica!
Analista, eu? Os que conheço são uns desequilibrados. Trauma de perda amorosa? Papo furado! Elsa era o máximo, mas já pertence ao passado. Tô pouco me lixando pra memória dela; a vida continua e quero mais é voltar a fornicar como antes. Comecei a freqüentar bares quase todos os dias. A coisa só piorava.
No desespero, lembrei-me de um anúncio que vi num poste lá no Rio Pequeno: Tia Zilda – benze e cura. Trata de mau-de-amor, mau-olhado, fraqueza de homem. Discrição absoluta.
"Fraqueza de homem" chamou minha atenção. É claro que não acreditava nestas coisas, mas não sei porque anotei o número do telefone. Aquilo ficou na minha cabeça – fraqueza de homem ... Afinal, o que tinha a perder? Num impulso telefonei marcando um encontro para as dezesseis horas de sexta feira. Sexta, depois do almoço, comecei a pensar se não seria um golpe para pegar os manés fragilizados. Estava quase amarelando, mas resolvi ir de uma vez pra desencucar. Prevenido fui com uma calça surrada, uma velha camisa polo, e tênis, para não dar bandeira. Parei a Pajero um quarteirão antes e levei no bolso apenas o celular e as oitenta pratas da consulta.
O endereço era nos fundos de um conjunto de casas geminadas - uma edícula com telhado de eternit. No terreiro um galo de grande crista vermelha com longas esporas e umas galinhas carijós ciscavam e cacarejavam. Ao lado, uma horta com losna, arruda, comigo-ninguém-pode, e outras plantas que não conhecia. Um aviso rabiscado na porta dizia: Entre sem bater. Entrei. De início não via quase nada, mas aos poucos fui me adaptando à meia luz e à fumaça.
Tia Zilda, sentada em uma espreguiçadeira, cabelos longos, toda de preto, pitava uma mistura de baseado com fumo de corda. Acenou para eu sentar em um tamborete de couro de cabrito, me estendeu um copinho de 51, e numa voz rouca e falhada falou, “Meu nego, tome o remédio, sou toda ouvidos, desembuxe – fale dos seus pobremas.”
E falei, no princípio meio sem jeito e aos solavancos. Fui ganhando confiança, encorajado pela penumbra, e aos poucos engrenei o papo e contei meu relacionamento com Elsa e a brochada que me acometeu após a morte dela. “Mulher não falta, tenho vontade e muita, mas o negócio não funciona – o bráulio está como um gato de armazém, dormindo sobre a sacaria”. Tia Zilda acendia constantemente o grosso cigarro que teimava em apagar, e dava tapas nas fagulhas que lhe caiam na blusa. A cada frase minha fazia um movimento afirmativo com a cabeça, incentivando-me a prosseguir em meu relato.
Depois de ouvir tudo com atenção estendeu a mão, pegou as oitenta pratas, amassou as notas, enfiou em uma cabaça que estava ao lado da espreguiçadeira, e deu o veredicto: “Meu fio, conheço este tipo de dona. A solução, meu fio, é você se livrar das cinzas. Mas, sem se afastar delas pra não quebrar a promessa. Em vez de Viagra e estas besteiras, coloque uma colherinha das cinzas em uma xícara de café, bem adoçada, e tome uma hora antes de você trepar. Vá tomando e trepando, até acabar.Tenha fé que vai funcionar. Senão, marque um retorno. Agora vá meu fio, adeus, tenha fé ,,,”
Virei as costas e saí apressado, sentindo-me ridículo, mas ao mesmo tempo aliviado. Engolir cinzas da Elsa? Que loucura; além de me parecer meio nojento. Arranquei, cantando os pneus e fui tomar uma cangibrina num boteco da Vila Madá, pensando como fui ingênuo.
Chegando em casa e sem saber bem o que estava fazendo passei as cinzas para um saco zip-lock e coloquei na minha pasta de trabalho. Esbarrei com o cotovelo na urna, que se espatifou no chão; coloquei os cacos num saco plástico e atirei na lixeira. A sensação de alívio foi imediata.
Não foi fácil convencê-la, mas o primeiro teste foi com a mesma ex-namorada. Posso lhe assegurar que ficou admirada – “um outro homem” disse olhando-me nos olhos.
Tempos depois, no check-up de rotina, meu médico perguntou se eu tinha mudado de vida, de alimentação, algum suplemento mineral? Minha osteoporose havia desaparecido, e minha pele estava mais hidratada, rejuvenescida, as íris mais brilhantes, parecia um novo homem.
- Nada doutor, ando apenas menos estressado.”
- E aquela sua queixa de perda da libido?
-Na idade em que estou não posso me queixar doutor. Vou marcar o retorno pro ano que vem.
Sentiu uma comichão na língua e vontade de dizer que não havia nada mais afrodisíaco que o pó da mulher amada. Santa Elza!
Praia Vermelha, 16 de outubro de 2009.
7 de julho de 2010
Lindos
LINDOS
Recostado no tronco de uma tamareira, onde se protegia dos últimos raios de sol, Costas palitava os dentes e observava a loura saltando as ondas na beira da praia. Uns 17 anos no máximo, coxas roliças cobertas por uma tênue penugem dourada, peitos empinados, no tamanho certo. Ela chamara sua atenção desde que entrara na van com o grupo de turistas escandinavos que trouxera a Lindos pela manhã. Havia muitas mulheres de top less naquele dia, algumas até com corpos tentadores. Estava acostumado, virara rotina. Agora, seios como aqueles nunca tinha visto! Eram como imãs atraindo seus olhos.
Sentia um certo desconforto quando seus olhares gulosos eram surpreendidos por ela - disfarçava fingindo olhar para o horizonte, mas logo voltava a admirá-la e sua fantasia voava solta. Aos poucos foi se convencendo de que ela não se aborrecia com isto. Ao contrário, parecia até se divertir, assumindo poses provocadoras.
Costas, 40 anos, era simpático e bem apessoado, sorridente e atencioso com os turistas, respondendo a todas as perguntas sobre a história e a geografia da Grécia. Longe de ser um “apolo”, seu bigode bem aparado, corpo atlético, aspecto asseado e fresco era, no mínimo, "um tipo interessante", já lhe haviam dito, e talvez motivo de cochichos entre as turistas.
O dia tinha sido exaustivo. Não só pela intensa atividade física, mas pelo mormaço e umidade que deixavam uma sensação desagradável, a pele pegajosa e a boca seca, os olhos ardendo pelo vento salgado, um desejo de escovar os dentes, tomar um banho e beber cerveja bem gelada sem parar.
Sentiu-se aliviado quando, após um demorado e barulhento jantar, o grupo foi reunido para voltar ao hotel em Rhodes. Mais umas duas horas e estaria em casa tomando uma cerveja no terraço do apartamento.
A van subia lentamente a estrada sinuosa, à leste da Ilha de Rhodes. O grupo já não tinha ânimo para a algazarra da vinda. Após tanto sol e mergulhos nas águas azuis do mar Egeu os turistas dormitavam sob a ação das enzimas proteolíticas. Vapores etílicos e cheiro de bronzeador chegavam até Costas que procurava se concentrar em sua função de motorista, rumo ao Mythos Resort.
A jovem loura resmungou qualquer coisa em inglês sobre o calor, e pulou para o banco do motorista. Costas olhou para ela com ar surpreso e vislumbrou, através da blusa branca parcialmente desabotoada, o contorno daqueles seios acobreados pelo excesso de sol. Tentando puxar conversa fez um comentário sobre o calor. Ela sorriu, mas não disse nada.
A proximidade daqueles seios lhe causava uma sensação esquisita, como asas de borboletas roçando sua barriga, algo entre desejo e frustração. Melhor nem pensar! Os faróis já acesos, as curvas da estrada e da dinamarquesa eram uma combinação perigosa. Ele sabia bem as regras do serviço de turismo e as recomendações para não se meter com as turistas, mesmo quando provocado. Procurou não pensar na loura e seguir seu caminho.
Ao entrar um tanto afoitamente numa curva para a esquerda, sentiu a mão dela esbarrar em sua coxa direita, como que em busca de apoio. Recuou sua perna. Na curva seguinte a mão tornou a se apoiar na sua coxa. Ele não recuou a perna e ela não retirou a mão. Sentiu um frio na barriga. Olhou para a moça. Ela olhava pela janela lateral, como se nada tivesse acontecido. Agora não tinha dúvida: a gringa estava procurando encrenca. Sentiu um arrepio na virilha e começou a suar. Entre excitado e nervoso, não sabia o que fazer. Seria uma armadilha? Estaria sendo testado pela companhia de turismo? Cabreiro, procurou prestar mais atenção na estrada, o carro pedia uma marcha mais forte, que ele demorara a engatar. A mão começou a acariciar a parte interna de sua coxa enquanto ela continuava a olhar pela janela, observando talvez o jogo de sombras, causado pelas luzes dos carros que passavam em sentido oposto. Nervoso, viu pelo retrovisor que a caldeirada de frutos do mar e o vinho grego faziam efeito e o sono imperava, embalado pelo ron-ron monótono e pela trepidação do motor a diesel.
A mão estava cada vez mais ousada, e com rara habilidade abriu o zíper de sua bermuda - mão experiente de quem conhece anatomia masculina. Seu desejo foi ficando insuportável, um misto de prazer e pânico. Vieram-lhe à mente os postais de gregos com pênis eretos, que tanto riso haviam provocado nas turistas. Ela deu uma rápida olhada para trás, inclinou-se, e ele sentiu uns lábios quentes e uma ágil língua tremelicante acariciá-lo. Automaticamente reduziu a velocidade e teve que se controlar para não frear abruptamente. Mas era tarde ...
Sem tirar os olhos da estrada, percebeu quando ela limpou os lábios na manga da camisa e pulou para o banco de trás sem dizer uma palavra. Costas se ajeitou suando em febre, e fechou o zíper. Pelo retrovisor viu que ela, olhava pela janela num alheiamento incompreensível.
Desceu no hotel abraçada na mãe, e nem lhe deu a mão e agradeceu como fizeram os outros turistas.
Recostado no tronco de uma tamareira, onde se protegia dos últimos raios de sol, Costas palitava os dentes e observava a loura saltando as ondas na beira da praia. Uns 17 anos no máximo, coxas roliças cobertas por uma tênue penugem dourada, peitos empinados, no tamanho certo. Ela chamara sua atenção desde que entrara na van com o grupo de turistas escandinavos que trouxera a Lindos pela manhã. Havia muitas mulheres de top less naquele dia, algumas até com corpos tentadores. Estava acostumado, virara rotina. Agora, seios como aqueles nunca tinha visto! Eram como imãs atraindo seus olhos.
Sentia um certo desconforto quando seus olhares gulosos eram surpreendidos por ela - disfarçava fingindo olhar para o horizonte, mas logo voltava a admirá-la e sua fantasia voava solta. Aos poucos foi se convencendo de que ela não se aborrecia com isto. Ao contrário, parecia até se divertir, assumindo poses provocadoras.
Costas, 40 anos, era simpático e bem apessoado, sorridente e atencioso com os turistas, respondendo a todas as perguntas sobre a história e a geografia da Grécia. Longe de ser um “apolo”, seu bigode bem aparado, corpo atlético, aspecto asseado e fresco era, no mínimo, "um tipo interessante", já lhe haviam dito, e talvez motivo de cochichos entre as turistas.
O dia tinha sido exaustivo. Não só pela intensa atividade física, mas pelo mormaço e umidade que deixavam uma sensação desagradável, a pele pegajosa e a boca seca, os olhos ardendo pelo vento salgado, um desejo de escovar os dentes, tomar um banho e beber cerveja bem gelada sem parar.
Sentiu-se aliviado quando, após um demorado e barulhento jantar, o grupo foi reunido para voltar ao hotel em Rhodes. Mais umas duas horas e estaria em casa tomando uma cerveja no terraço do apartamento.
A van subia lentamente a estrada sinuosa, à leste da Ilha de Rhodes. O grupo já não tinha ânimo para a algazarra da vinda. Após tanto sol e mergulhos nas águas azuis do mar Egeu os turistas dormitavam sob a ação das enzimas proteolíticas. Vapores etílicos e cheiro de bronzeador chegavam até Costas que procurava se concentrar em sua função de motorista, rumo ao Mythos Resort.
A jovem loura resmungou qualquer coisa em inglês sobre o calor, e pulou para o banco do motorista. Costas olhou para ela com ar surpreso e vislumbrou, através da blusa branca parcialmente desabotoada, o contorno daqueles seios acobreados pelo excesso de sol. Tentando puxar conversa fez um comentário sobre o calor. Ela sorriu, mas não disse nada.
A proximidade daqueles seios lhe causava uma sensação esquisita, como asas de borboletas roçando sua barriga, algo entre desejo e frustração. Melhor nem pensar! Os faróis já acesos, as curvas da estrada e da dinamarquesa eram uma combinação perigosa. Ele sabia bem as regras do serviço de turismo e as recomendações para não se meter com as turistas, mesmo quando provocado. Procurou não pensar na loura e seguir seu caminho.
Ao entrar um tanto afoitamente numa curva para a esquerda, sentiu a mão dela esbarrar em sua coxa direita, como que em busca de apoio. Recuou sua perna. Na curva seguinte a mão tornou a se apoiar na sua coxa. Ele não recuou a perna e ela não retirou a mão. Sentiu um frio na barriga. Olhou para a moça. Ela olhava pela janela lateral, como se nada tivesse acontecido. Agora não tinha dúvida: a gringa estava procurando encrenca. Sentiu um arrepio na virilha e começou a suar. Entre excitado e nervoso, não sabia o que fazer. Seria uma armadilha? Estaria sendo testado pela companhia de turismo? Cabreiro, procurou prestar mais atenção na estrada, o carro pedia uma marcha mais forte, que ele demorara a engatar. A mão começou a acariciar a parte interna de sua coxa enquanto ela continuava a olhar pela janela, observando talvez o jogo de sombras, causado pelas luzes dos carros que passavam em sentido oposto. Nervoso, viu pelo retrovisor que a caldeirada de frutos do mar e o vinho grego faziam efeito e o sono imperava, embalado pelo ron-ron monótono e pela trepidação do motor a diesel.
A mão estava cada vez mais ousada, e com rara habilidade abriu o zíper de sua bermuda - mão experiente de quem conhece anatomia masculina. Seu desejo foi ficando insuportável, um misto de prazer e pânico. Vieram-lhe à mente os postais de gregos com pênis eretos, que tanto riso haviam provocado nas turistas. Ela deu uma rápida olhada para trás, inclinou-se, e ele sentiu uns lábios quentes e uma ágil língua tremelicante acariciá-lo. Automaticamente reduziu a velocidade e teve que se controlar para não frear abruptamente. Mas era tarde ...
Sem tirar os olhos da estrada, percebeu quando ela limpou os lábios na manga da camisa e pulou para o banco de trás sem dizer uma palavra. Costas se ajeitou suando em febre, e fechou o zíper. Pelo retrovisor viu que ela, olhava pela janela num alheiamento incompreensível.
Desceu no hotel abraçada na mãe, e nem lhe deu a mão e agradeceu como fizeram os outros turistas.
24 de junho de 2010
Reminicências e reticências
Reminiscências e reticências
Hoje tive a sensação de estar me despedindo deste mundo. Não que queira morrer agora, ou a curto prazo. Ao contrário, quero apenas começar a me despedir, mas sem pressa, lentamente, len-ta-men-te ...
O dia estava glorioso na praia da Fortaleza, a maré baixa, a água transparente e a praia vazia, como gosto. Arrastei minha canoa até a areia fofa, fora do alcance da maré para não ter que amarrá-la, e subi a escada do seu Maneco devagar. Antigamente subia correndo, controlando a respiração para fingir que não estava ofegante. Caminhei até a entrada da casa, mas não me senti à vontade para entrar. Sentei na escada, junto à colméia de jataí com quem tentei conversar e entender como sobreviveram a tantos inquilinos ignorantes que tentaram exterminá-las com sprays de inseticidas. Elas ficaram alvoroçadas, mas não responderam.
Olhei ao redor, e tudo estava lá: o caxinguelê saltando de galho em galho na velha mangueira, que nunca deu frutos; a baunilha, continuando seu caminho tronco acima do velho tarumã; o pé de abil, que plantei de uma semente trazida do quintal da vó Marcionília, de Jaboticabal, com suas folhas escuras, e seus frutos dourados, mas bichados, como sempre; os palmiteiros esbeltos e soberanos, balançando ao vento, que nunca tive coragem de cortar um sequer; as saíras-sete-cores, mansas, e os tiês-sangue, ariscos, bicando as pitangas mais vermelhas; a grama cortada, o terreiro varrido, indicando que seu Vavá devia ter passado por ali no dia anterior.
Afinal criei coragem, abri a porta e entrei na velha casinha, como um intruso, pisando em ovos, sorrateiramente. Não queria despertar os espíritos que se instalaram lá depois que abandonamos a casa. Senti uma sensação de culpa, de ter atraiçoado quem muito me deu, de tê-la trocado por uma casa nova, mais sofisticada e modernosa, em praia-condomínio, de elite, com seguranças motorizados...
Andei pelos cômodos com muito respeito. “Roubei” dois copinhos mexicanos de tomar tequila, trazidos de La Paz, Baja California. Peguei também um pau de “socaralho”, mas só porque havia dois, e a bóia de vidro que encontrei em Piúma (ES) quando coletava algas para minha tese de doutorado. Andei pelo jardim selecionando sementes e mudas, numa tentativa de levar para a casa nova algumas lembranças da casinha que me abrigou por tantos anos, onde trabalhei duro, nos tempos em que a estrada era precária e se atolava, a geladeira e os lampiões eram a querosene, o chuveiro um balde suspenso aquecido por uma espiriteira a álcool, água uma luta constante; quando a pesca era fácil e abundante: pirajicas, garoupas, pernas-de moça e corvinas, carapaus, espadas prateadas de mais de metro, panaguaiús e timbales, sargo-de-dente, salemas e marimbás, e até um ou outro robalo; quando dona Maria-da-barra ainda existia e caçava guaiás assobiando uma musiquinha monótona para eles se distraírem e saírem das tocas. Bons tempos ... As estórias dos velhos pescadores: Benedito Celidônio, que me vendeu sua canoa de guapuruvu de larga trajetória e passado de respeito, leve e equilibrada, da qual me desfiz numa crise de estupidez; “seus” Dário, Oliveira, Cândido, Bernardino ... que partiram para o além sem deixar substitutos. O Joaquim, de pouca prosa e grande facão jacaré, que descia o morro com cinco cachos de banana prata nas costas; as mentiras fantásticas do seu Maneco, tocador de rabeca nos dias de Reis, acompanhado pelos gemidos de dona Ana, “fazendo a trip”, ...
Coloquei a placa de vende-se num ato de crueldade. Quem será o novo proprietário? Seja quem for mutilações serão inevitáveis, paredes serão derrubadas, outras erguidas, árvores cortadas para aumentar o estacionamento ... As velhas telhas com seus liquens, musgos, bromélias e kalanchoes, um jardim suspenso que amenizava os dias quentes do verão serão trocadas – já não se toleram goteiras hoje em dia ... morcegos, então, nem pensar!
Mas, a decisão estava tomada. Somos, eu e a casa, cartas fora do baralho, páginas viradas desta estória de vida, apenas mais uma. Bola pra frente. Agora é iniciar uma nova estória na Praia Vermelha, que não deixa de ter seus encantos. Mas, tudo será diferente, sem peixes, sem pescadores ... “Tristeza não paga conta”, dizia Carmem Miranda, mas estou com uma preguiça de recomeçar...
Hoje tive a sensação de estar me despedindo deste mundo. Não que queira morrer agora, ou a curto prazo. Ao contrário, quero apenas começar a me despedir, mas sem pressa, lentamente, len-ta-men-te ...
O dia estava glorioso na praia da Fortaleza, a maré baixa, a água transparente e a praia vazia, como gosto. Arrastei minha canoa até a areia fofa, fora do alcance da maré para não ter que amarrá-la, e subi a escada do seu Maneco devagar. Antigamente subia correndo, controlando a respiração para fingir que não estava ofegante. Caminhei até a entrada da casa, mas não me senti à vontade para entrar. Sentei na escada, junto à colméia de jataí com quem tentei conversar e entender como sobreviveram a tantos inquilinos ignorantes que tentaram exterminá-las com sprays de inseticidas. Elas ficaram alvoroçadas, mas não responderam.
Olhei ao redor, e tudo estava lá: o caxinguelê saltando de galho em galho na velha mangueira, que nunca deu frutos; a baunilha, continuando seu caminho tronco acima do velho tarumã; o pé de abil, que plantei de uma semente trazida do quintal da vó Marcionília, de Jaboticabal, com suas folhas escuras, e seus frutos dourados, mas bichados, como sempre; os palmiteiros esbeltos e soberanos, balançando ao vento, que nunca tive coragem de cortar um sequer; as saíras-sete-cores, mansas, e os tiês-sangue, ariscos, bicando as pitangas mais vermelhas; a grama cortada, o terreiro varrido, indicando que seu Vavá devia ter passado por ali no dia anterior.
Afinal criei coragem, abri a porta e entrei na velha casinha, como um intruso, pisando em ovos, sorrateiramente. Não queria despertar os espíritos que se instalaram lá depois que abandonamos a casa. Senti uma sensação de culpa, de ter atraiçoado quem muito me deu, de tê-la trocado por uma casa nova, mais sofisticada e modernosa, em praia-condomínio, de elite, com seguranças motorizados...
Andei pelos cômodos com muito respeito. “Roubei” dois copinhos mexicanos de tomar tequila, trazidos de La Paz, Baja California. Peguei também um pau de “socaralho”, mas só porque havia dois, e a bóia de vidro que encontrei em Piúma (ES) quando coletava algas para minha tese de doutorado. Andei pelo jardim selecionando sementes e mudas, numa tentativa de levar para a casa nova algumas lembranças da casinha que me abrigou por tantos anos, onde trabalhei duro, nos tempos em que a estrada era precária e se atolava, a geladeira e os lampiões eram a querosene, o chuveiro um balde suspenso aquecido por uma espiriteira a álcool, água uma luta constante; quando a pesca era fácil e abundante: pirajicas, garoupas, pernas-de moça e corvinas, carapaus, espadas prateadas de mais de metro, panaguaiús e timbales, sargo-de-dente, salemas e marimbás, e até um ou outro robalo; quando dona Maria-da-barra ainda existia e caçava guaiás assobiando uma musiquinha monótona para eles se distraírem e saírem das tocas. Bons tempos ... As estórias dos velhos pescadores: Benedito Celidônio, que me vendeu sua canoa de guapuruvu de larga trajetória e passado de respeito, leve e equilibrada, da qual me desfiz numa crise de estupidez; “seus” Dário, Oliveira, Cândido, Bernardino ... que partiram para o além sem deixar substitutos. O Joaquim, de pouca prosa e grande facão jacaré, que descia o morro com cinco cachos de banana prata nas costas; as mentiras fantásticas do seu Maneco, tocador de rabeca nos dias de Reis, acompanhado pelos gemidos de dona Ana, “fazendo a trip”, ...
Coloquei a placa de vende-se num ato de crueldade. Quem será o novo proprietário? Seja quem for mutilações serão inevitáveis, paredes serão derrubadas, outras erguidas, árvores cortadas para aumentar o estacionamento ... As velhas telhas com seus liquens, musgos, bromélias e kalanchoes, um jardim suspenso que amenizava os dias quentes do verão serão trocadas – já não se toleram goteiras hoje em dia ... morcegos, então, nem pensar!
Mas, a decisão estava tomada. Somos, eu e a casa, cartas fora do baralho, páginas viradas desta estória de vida, apenas mais uma. Bola pra frente. Agora é iniciar uma nova estória na Praia Vermelha, que não deixa de ter seus encantos. Mas, tudo será diferente, sem peixes, sem pescadores ... “Tristeza não paga conta”, dizia Carmem Miranda, mas estou com uma preguiça de recomeçar...
16 de junho de 2010
Galinhas na marginal
Galinhas na Marginal
Segunda-feira, manhã chuvosa, a Paulicéia se afogando no trânsito e eles nem aí. São as águas de março que rolam em vão, em busca de solos que possam bebê-las, e se avolumam aflitas nos baixios das avenidas, bloqueadas pelos bueiros entupidos de garrafas pet e sacos de plástico. Sampa soluça em mais uma inundação, o trânsito parado e a mídia malhando o prefeito de plantão, se deleitando com fotos dramáticas que vendem os noticiários do dia.
E os ciganos lá, indiferentes à fumaça dos ônibus e lotações clandestinas, amanheceram acampados na pseudo-praça, entre a marginal e a ponte do Jaguaré, rota para o sul e para o oeste.
São meia-dúzia de barracas, azuis, laranjas, pretas, um Monza, uma Brasília e dois fuscas remendados com peças de cores e modelos diversos. Devem ter chegado ontem à tarde. Acamparam às margens do Pinheiros, ainda um rio no seu papel de levar para longe os dejetos da cidade grande. Pobre rio, sem alma, e mal hálito!
Por aí também acamparam os bandeirantes junto ao Tietê, então transparente e piscoso, em busca de uma via que os ajudasse a ir fundo no continente, uma vereda para o oeste que penetrasse o desconhecido, onde escravizariam índios e garimpariam ouro e esmeraldas...
Da estação de trens suburbanos, em frente ao acampamento, descem magotes de gentes, vindas de Osasco, apressadas e tristes em busca das fábricas, da rotina de mais um dia, mais uma semana, mais um ano, uma década, para voltar à noite e esperar o trem que não vem, atrasado sempre, e uma melhoria de vida prometida nas eleições, que tarda, vem nunca.
Um menino de pijama de bolinhas azuis urina da porta da barraca, alheio aos transeuntes cabisbaixos que nem notam o acampamento; homens e mulheres conversam calmamente, sentados em banquetas de três pernas, ao redor de um foguinho mirrado onde passam café, pitam e cozinham alguma coisa para o desjejum. Alguns cachorros de raças indefinidas farejam os arredores, e um galo de briga multicor lidera algumas galinhas, que ciscam no gramado mal-cuidado.
Os ciganos seguem sua rotina, tranquilos, sem se perturbar com o burburinho nervoso, sem reparar nos carros importados, blindados, vidros escuros, roncando e soltando fumaça na marginal entupida; motoristas engravatados, nervosos, xingando os motoqueiros que deslizam por entre os veículos parados, batendo nos espelhos laterais.
De onde vieram estes ciganos, homens de bigodes espessos, velhos com brincos, mulheres com saias longas e coloridas, pulseiras chacoalhantes, e crianças felizes, pessoas? Ignoram o acessório, não sabem quem é a prefeita, que o Palmeiras perdeu ontem mais uma vez e pode ser rebaixado para a segunda divisão...
Tenho vontade de me achegar, tomar um café ralo puxando prosa e pedindo fogo; perguntar que rumo tomarão, onde será o próximo acampamento, se viajam por viajar, ou se pretendem chegar a algum destino...
Um dia ainda crio coragem, troco meu Vectra por uma Variant com bagageiro, compro uma lona usada, deixo a barba crescer e coloco um brinco, alheio aos progressos de tecnologias supérfluas, laptops, celulares, jornais, vejas, isto-és, deputados, ratinhos, faustões, hebes, pílulas mil, vitaminas, hormônios, viagras - spams, enfim, e sigo com eles, por aí, carregando os cachorros e as galinhas, vivendo a vida, que "a morte acontece mas só a vida existe".
Rumo ao centro
Rumo ao centro
Quando o carro da vó Magu está no rodízio, ou tem algum problema, ela pega o meu. Aí vou de bicicleta para o trabalho. Se bem que quando ela não pega é a mesma coisa, pois adoro, e uso, minha magrela, a bici.
Quando o carro da vó Magu está no rodízio, ou tem algum problema, ela pega o meu. Aí vou de bicicleta para o trabalho. Se bem que quando ela não pega é a mesma coisa, pois adoro, e uso, minha magrela, a bici.
Hoje, depois do almoço, o sol estava de rachar mamona, e desisti de voltar ao trabalho. Afinal estou aposentado, ora bolas! Resolvi ficar trabalhando no computador de casa. Mas, me deu uma preguicite danada, e achei que era uma boa oportunidade para ir comprar charutos na famosa Charutaria do Marquez, no centro de São Paulo. Tinham me dito que era perto da Praça da República. Decidi ir de ônibus, coisa que nunca faço, para rever um pouco da cidade.
Tomei um CMTC na Imperatriz Leopoldina. O trânsito estava péssimo e acabei deixando o ônibus e pegando o metrô na Vila Madalena. Após duas conexões cheguei ao colégio Caetano de Campos e saí em busca da charutaria, na Rua dos Timbiras. Vi que deveria ter descido na Luz. Paciência, uma caminhada não me faria mal. Ao passar pelas bocas de contrabando na Santa Ifigênia, aproveitei para comprar um pendrive de 16 Gigas (uau!), por noventa pratas, em duas vezes no cartão de crédito. Noventa pratas, francamente, achei barato.
Revisitei lugares de meu tempo de estudante, recém chegado a Sampa nos idos de 1960. Meu avô Chico dizia que o vai e vem das pernas estimula os neurônios da memória – memórias esgarçadas do início de vida na metrópole. Passei pelo restaurante Giovanni, antigamente Buon Giovanni, para onde, nos finais de semana, ia a pé desde a pensão em que morava, perto do Hospital das Clínicas. Comia uma lasanha, tomava um copo de vinho da távola, isto é, de garrafão, e fechava o banquete com goiabada, catupiry, e um expresso. Dependendo do programa ia ao Cine Metro ou ao Marabá, um luxo comparado ao velho Polytheama de Jaboticabal. Não ia ao Olido, porque só se entrava com gravata. Algumas vezes fui ao Dancing Avenidas, tentando fugir da solidão, onde a um preço módico se podia dançar com uma táxi-girl, coisa impensável atualmente. Depois subia a Consolação assobiando, de volta à pensão da portuguesa.
Afinal cheguei à tal charutaria, da qual sempre ouvira falar como sendo o paraíso dos viciados em charutos, por sua grande variedade e preços baixos. Não era a maravilha que eu imaginara. Achei-a acanhada, com pouca variedade e preços regulares, nada de excepcional. Mas gostei do atendimento, e descobri que comprando acima de 100 pratas, por telefone, entregam a domicílio.
O vendedor, mulato barrigudo e simpático, me convenceu a comprar um havano “de fumo picado”, cá entre nós, rebarbas, mas da mesma boa e forte Nicotiana tabacum de Cuba. Segundo ele, era a melhor relação custo x benefício disponível no mercado. Perguntei se não seria a melhor relação custo x malefício? Ele riu com simpatia.
Havia mais três pessoas na tabacaria: um cara de barba bem aparada, que parecia o dono, sentado num banquinho alto, e dois senhores de meia-idade encostados ao balcão. Pararam de conversar quando cheguei, e passaram a olhar com interesse as escolhas que eu fazia, aprovando discretamente com movimentos de cabeça quando, além de levar os cubanos, escolhi também alguns Paraguaçus, de Cachoeira (BA) e um maço de "cigarrilhas Talvis".
Tinha planejado voltar de ônibus, e passar no mercado da Lapa para comprar castanhas e fumo de corda, mas o barulho e aquela montoeira de gente pelo centro foram me dando aflição e resolvi pegar um metrô na Luz. Queria voltar rapidinho para experimentar o charuto cubano no quintal de casa, pois já não há mais onde se possa fumar em paz nesta cidade.
Antes de chegar à Avenida Ipiranga, em um cruzamento muito movimentado, vi um cego, ainda jovem, que me pareceu meio aflito e indeciso, parado no meio-fio, tateando no vazio com sua bengala. Perguntei se queria ajuda para atravessar a rua. Fez que sim. Largou a mão que lhe estendi e segurou no meu braço. Percebi que os cegos não querem ser segurados, mas segurar.
Com uma paciência infinita esperei aparecer o hominho verde na luz do semáforo de três fases, e atravessamos. Ao largá-lo no outro lado perguntei para onde ia; disse um lugar que não entendi e perguntou aonde eu ia, “Ao metrô”, respondi. Retrucou prontamente, “Então vou aproveitar sua gentileza”, e voltou a segurar no meu braço.
Virei à esquerda, rumo à estação da Luz. Andamos mais um quarteirão, e ele me perguntou o nome da rua; li na placa e ele falou que então era melhor virar à direita, pois a entrada do metrô na Tiradentes era mais perto. Fiquei cabreiro achando que ele não era tão cego assim. A cada cruzamento me dizia o nome das ruas e me orientava rumo ao metrô. Tive uma sensação estranha e disse que era ele que estava me guiando. Riu e falou, “Brincadeira, é que ando por aqui há mais de 20 anos”. A conversa foi ficando animada com perguntas e respostas de parte a parte. Achou legal que eu tivesse vindo de tão longe só para comprar charutos. Ele não conhecia ninguém que fumasse essas coisas e perguntou se era bom. Ficou abismado quando lhe falei o preço de um Cohiba legítimo. Em cada rua, para subir ou descer eu avisava: “Atenção, ’olha’ a guia”; só mais tarde me dei conta de estar fazendo uma observação ridícula pois ele já sabia antes de eu avisar, tateando o caminho com sua bengala. Perguntei se enxergava um pouquinho, vultos talvez? Respondeu, “Patavina”. E foi me guiando.
Pensei em perguntar que idéia fazia de mim, mas deixei pra lá. Acho que eu era apenas uma voz meio rouca na escuridão ou na névoa de sua retina. Deveria ter-lhe dito que eu era um velho barbudo e ele um jovem simpático, com boa aparência. Tantas coisas que não disse ...
Concluí que ele não enxergava mesmo, quando no metrô, após um lance de escadas, havia um patamar e logo outro lance, onde ele tropeçou e quase caiu. Pedi desculpas por não ter avisado. Mas não foi de propósito, acho.
Estava me sentindo incomodado com meu braço flexionado, e aquela mão quente me segurando. No metrô perguntei logo, antes que ele me perguntasse, com receio de que quisesse me seguir, se ia rumo ao Jabaquara ou ao Tucuruvi. “Tucuruvi? Então é por aqui. Desculpe, mas vou na direção Jabaquara, então tchau e boa sorte.” Deixei-o a cargo de um funcionário do metrô.
O trem para o Jabaquara já estava parando. Sentei num dos bancos cinza, reservado aos deficientes e idosos. Na estação São Bento entrou um senhor grisalho. Levantei e ofereci meu lugar. Ele se sentou, mas se levantou em seguida dizendo: “Espera aí, acho que o senhor é mais velho do que eu”. E ficamos naquela troca de gentilezas, os dois em pé, até que vagou outro assento.
Apertando minha mochila no peito para proteger os charutos, vim pensando nessa pequena aventura urbana (há décadas não ia ao centro) e me arrependi de ter largado o ceguinho de forma tão abrupta, sem sequer ter lhe apertado a mão ou esperado seu trem chegar. Medo? De que? De fazer nova amizade? De que me pedisse algo? Deveria ter ido ao Tucuruvi com ele, ter-lhe pago um café, oferecido um charuto, talvez, ouvido suas histórias, sua opinião sobre o senado, o Dunga..., afinal estou aposentado, não tinha nada urgente para fazer naquele resto de tarde. Além disso, nunca tinha tido chance de conversar com um cego - deve ser um barato entrar no mundo deles para saber do seu dia-a-dia, como levam a vida e conseguem ser tão otimistas, pelo menos aquele me parecia. Achei que com este meu modo apressadinho de fazer tudo correndo, chegar logo ao destino para sair em busca de outro, acabar uma coisa para começar outra, tinha perdido uma boa oportunidade de travar um relacionamento interessante, talvez ....
Desci na Vila Madalena, tomei uma água de coco na esquina e um café no Franz Café. Peguei um ônibus que ia para o Parque Continental, via Jaguaré, achando que ia passar perto de casa. Acabei descendo na Vila Leopoldina, bem mais longe do que esperava pois o ônibus fez um trajeto maluco, dando voltas e mais voltas.
E assim passei uma tarde de aposentado, sem pagar transporte e esbanjando um tempo que não tenho. Ou será que tenho? Corro tanto por quê? Como diz o MR, não adianta fugir, seu problema está dentro de você.
É tempo
É TEMPO
-Jô, desculpe-me por envolvê-la nisto, mas quem mais me entenderia e teria coragem de reunir os amigos que sobraram, um garrafão de cachaça, uma caixa de charutos que nem precisa ser Cohiba, cavaquinho e pandeiro? Difícil mesmo vai ser arranjar clarineta...
-Pai fique quieto, relaxe.
- Jô, venha mais perto, tá chegando a hora, este ano não vou comer os caquis-chocolate de que tanto gosto. Mais hora menos hora, possivelmente menos, embarco de vez, mas agora numa canoa com alça, sem remos nem cuia, não há colete salva-vida que me mantenha com o nariz pra fora, vou com destino certo, será a Viagem! Conto com você.
- Besteira pai, fique quieto e descanse que você não sabe o que está falando, é efeito do remédio.
- Nada. Já sinto que estou na correnteza em ponto de não retorno e despenco... A cachoeira, tão grande... Custo a chegar ao fundo, mas não tarda, estou tranqüilo. Vivi a vida, agora sinto um querer descansar, um desinteresse em continuar empurrando com a barriga, levar por levar. Não que a vida seja ruim, mas já não é tão boa, tantas as limitações, tantas as lembranças. Após uma certa idade, como dizia a vó Martha, metade das pessoas de quem gostei já está do lado de lá e partir ou ficar dá no mesmo...Tinha planejado morrer longe, onde não desse pra recuperar o corpo, de modo a não se ter certeza absoluta da minha morte, um desaparecimento, mas não consegui, adiei muito e agora o sonho de virar um ulysses-guimarães não se realizou, foi apenas mais um dentre tantos que gostei de sonhar. Acabei nesta cama de hospital, com o sofrimento atenuado pelo carinho de vocês, e estes fantásticos analgésicos modernos que ajudam no traslado.
“Que uma namorada sapateasse no meu caixão” já dizia o poeta, e nenhuma lágrima, só lembrança dos bons momentos de uma passagem feliz, boa desde o início, mas que foi melhorando ano após ano quase até o finzinho.
- Pai fique quieto ou vou ter que chamar a enfermeira.
- Chama não, só vou passar por um processo de desmontagem, minhas células serão fundidas, hidrolisadas em uma sopa de proteínas, lipídios, carboidratos, e logo depois gás carbônico, água, amoníaco, cálcio, fósforo, potássio...Afinal de que é feito o homem? Nutrientes que fertilizarão a terra, e a grama crescerá verde, alimentando as vacas cujo leite nutrirá meus bisnetos. É a vida, matéria e energia em transformação, a morte é apenas um nãonada. Será uma vitória temporária da entropia, antes da próxima remontagem na forma de bactéria, algas, protozoários, vermes, moluscos ... e reviverei em outros seres, outra vida, sem que ninguém perceba, a verdadeira re-encarnação, vida é vida ...
- Por isto vá preparando a festa, a hora é de chorinhos, não de choradeira, chame os amigos, abra a cachaça e acenda um havana.
-Jô, desculpe-me por envolvê-la nisto, mas quem mais me entenderia e teria coragem de reunir os amigos que sobraram, um garrafão de cachaça, uma caixa de charutos que nem precisa ser Cohiba, cavaquinho e pandeiro? Difícil mesmo vai ser arranjar clarineta...
-Pai fique quieto, relaxe.
- Jô, venha mais perto, tá chegando a hora, este ano não vou comer os caquis-chocolate de que tanto gosto. Mais hora menos hora, possivelmente menos, embarco de vez, mas agora numa canoa com alça, sem remos nem cuia, não há colete salva-vida que me mantenha com o nariz pra fora, vou com destino certo, será a Viagem! Conto com você.
- Besteira pai, fique quieto e descanse que você não sabe o que está falando, é efeito do remédio.
- Nada. Já sinto que estou na correnteza em ponto de não retorno e despenco... A cachoeira, tão grande... Custo a chegar ao fundo, mas não tarda, estou tranqüilo. Vivi a vida, agora sinto um querer descansar, um desinteresse em continuar empurrando com a barriga, levar por levar. Não que a vida seja ruim, mas já não é tão boa, tantas as limitações, tantas as lembranças. Após uma certa idade, como dizia a vó Martha, metade das pessoas de quem gostei já está do lado de lá e partir ou ficar dá no mesmo...Tinha planejado morrer longe, onde não desse pra recuperar o corpo, de modo a não se ter certeza absoluta da minha morte, um desaparecimento, mas não consegui, adiei muito e agora o sonho de virar um ulysses-guimarães não se realizou, foi apenas mais um dentre tantos que gostei de sonhar. Acabei nesta cama de hospital, com o sofrimento atenuado pelo carinho de vocês, e estes fantásticos analgésicos modernos que ajudam no traslado.
“Que uma namorada sapateasse no meu caixão” já dizia o poeta, e nenhuma lágrima, só lembrança dos bons momentos de uma passagem feliz, boa desde o início, mas que foi melhorando ano após ano quase até o finzinho.
- Pai fique quieto ou vou ter que chamar a enfermeira.
- Chama não, só vou passar por um processo de desmontagem, minhas células serão fundidas, hidrolisadas em uma sopa de proteínas, lipídios, carboidratos, e logo depois gás carbônico, água, amoníaco, cálcio, fósforo, potássio...Afinal de que é feito o homem? Nutrientes que fertilizarão a terra, e a grama crescerá verde, alimentando as vacas cujo leite nutrirá meus bisnetos. É a vida, matéria e energia em transformação, a morte é apenas um nãonada. Será uma vitória temporária da entropia, antes da próxima remontagem na forma de bactéria, algas, protozoários, vermes, moluscos ... e reviverei em outros seres, outra vida, sem que ninguém perceba, a verdadeira re-encarnação, vida é vida ...
- Por isto vá preparando a festa, a hora é de chorinhos, não de choradeira, chame os amigos, abra a cachaça e acenda um havana.
6 de junho de 2010
A Corvina
A CORVINA
Trabalhara pesado cortando grama e desbastando o hibisco da cerca. Suado e cansado, resolveu dar um mergulho para refrescar e relaxar os músculos.
Trabalhara pesado cortando grama e desbastando o hibisco da cerca. Suado e cansado, resolveu dar um mergulho para refrescar e relaxar os músculos.
Como não gostava de nadar por nadar, pegou seu equipamento de mergulho, prendeu a faca na perna, e foi caminhando em direção à praia.
Ao passar por uma casa em construção, antes de chegar ao córrego, ouviu risos e comentários de uns pedreiros, mas não entendeu o que diziam. Atravessou a praia caminhando até o costão em busca de água mais limpa, e da possibilidade de ver algum animal ou alga interessante – velho vício de naturalista, sempre curioso. Na semana anterior tinha visto uma lagosta, mas ficou com dó de pegar. Hoje, quem sabe?
Cruzou com umas crianças que tentavam bloquear com galhos e areia o fluxo do riacho que divide a praia. Os pais liam jornal e as mães lagarteavam ao sol, besuntadas de bronzeador.
O velho de barbas brancas, chapéu de palha, e equipamento de mergulho, chamava a atenção das poucas pessoas que estavam ali naquele sábado, final de férias. Estava mais pra velho-do-rio que pra lobo-do-mar.
O costão estava deserto, como sempre. Pôs seu chapéu sobre uma rocha mais alta, prendendo-o com uma pedra para o vento não levar, colocou as nadadeiras, a máscara, e o snorquel, e entrou na água afundando devagarinho. Deixou-se levar pela corrente e balançar ao léu pelas marolas. O mar estava tranquilo e a água clara e morna, relaxante. Cantarolava mentalmente “não sou eu quem me navega...”
Ao virar para a entrada do "Saco do Guaiá" um brilho metálico chamou sua atenção: uma corvina de uns dois quilos e debatia entre as pedras, desorientada. Tentou pegá-la, mas a bicha escorregava mais do que quiabo. Aos poucos foi tangendo-a para o banco de areia e conseguiu enfiar um dedo pelas suas guelras, prendendo-a firmemente. Saiu da água, quebrou um galho com forquilha, e fez uma fisga onde prendeu o peixe. A corvina se debatia desesperada e o sangue escorria das guelras, o que lhe deu pena; mas se consolou achando que ela morreria de qualquer jeito e pelo menos daria um bom jantar.
Nadou até a praia, arrastando o peixe, tirou o equipamento, e desfilou discretamente − mas orgulhoso − de volta pra casa. Crianças corriam atrás, e gritavam excitadas. A corvina, nos últimos estertores, brilhava ao sol com lampejos dourados. Um casal veio perguntar que peixe era aquele; um senhor largou o jornal e perguntou se queria vender – não quis.
No caminho de volta passou pelos pedreiros que, alertados por um rapaz magrelo que revolvia o reboque, vieram à rua e olharam incrédulos. “O senhor pegou no mergulho, com a faca?”, perguntou o jovem.
Respondeu, baixo e grave: “Peguei a tapa”. E nem parou, só ouviu o comentário: “O véio é fodão mesmo”.
A mulher, da cozinha, gritou: Ué, já voltou?
- Mulher veja o que peguei pro jantar!
- Tá brincando! Pegou como? Com as mãos? Comprou do Mesquita?
Ao explicar como pegara o peixe, ela o mandou jogar fora, e bem longe pra não feder.
- Ficou maluco? Este peixe tá doente.
- Estava se debatendo até agorinha. Deve ter escapado de alguma rede.
- Eu é que não como isto - nem amarrada.
- Estava se debatendo até agorinha. Deve ter escapado de alguma rede.
- Eu é que não como isto - nem amarrada.
Ficou aborrecido, mas desta vez não lhe deu ouvidos. Limpou, temperou, e assou o peixe, a despeito dos reclamos da mulher.
Estava uma delícia e ainda sobrou pro almoço do dia seguinte. Ela comeu um ovo frito.
Praia Vermelha do Sul, Jan. 2010
Praia Vermelha do Sul, Jan. 2010
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