10 de novembro de 2010

O terapeuta

O terapêuta

Como sempre, naquela sexta feira, Robinson encostou a Mercedes na porta do Bar do Zé-Bedeu na Vila Madalena ao anoitecer. Só q dessa vez o doutor falou: -“A turma tá viajando. Deixa o carro com o manobrista e venha tomar um trago comigo”.
- Mas doutor ...
- Não tem mais nem menos, tô de saco cheio e não gosto de beber só. Hoje você vai conhecer uma cerveja de verdade.
O garçon, afastando a cadeira da mesa favorita do doutor, sorriu ao ver o motorista entrar meio sem jeito, com seu terno preto, sapato preto e gravata preta.

- Juvenal, dois pints de draft Guiness e os tira-gostos de costume. Traga também dois Stainhaegers.

Robinson, moreno alto, magro e musculoso, com bigodinho aparado e cabelo escovinha, tipo mariner do Tio Sam, estava meio desconfiado. O doutor sempre o tratara com muita consideração, mas com o distanciamento devido.  Sentiu algo diferente no ar.
O doutor perguntou da família, falou de futebol, elogiou a bundinha arrebitada da garçonete, contou umas piadas sobre o presidente, pediu mais duas Guiness, afrouxou o nó da gravata e daí falou:

- Robinson, esta é a primeira vez q bebemos juntos. Você é meu motorista e segurança há muitos anos e o considero uma pessoa inteligente e educada em quem deposito minha total confiança.

- Obrigado doutor ...

- Quieto, não me interrompa. Aguardava uma oportunidade como essa para lhe propor um negócio muito sério no qual venho pensando há tempo e q não sai da minha cabeça. Coisa muito séria mesmo.
Robinson franziu a testa e sentiu um frio na espinha.

- O negócio é o seguinte, preste bem atenção. Como você sabe sou psicólogo e trabalho especialmente com pessoas mais velhas, terceira idade, sabe como é né? Pois é, nestes últimos anos tenho visto muita coisa, pessoas importantes, de valor, grandes figuras, q fizeram carreira brilhante, construíram uma história de vida ... até que de repente põem tudo a perder, começam a falar tolices, fazer cagadas, de dar dó ... Você já deve ter visto esse tipo de coisa, né?

O doutor pediu uma folha de papel ao Juvenal e mais um pint, “só pra mim, o Robinson vai guiar e quero chegar inteiro em casa”, e passou a explicar detalhadamente seu plano, enfatizando a necessidade de sigilo absoluto, fundamental para q desse certo.

Chegou em casa meio grogue, mas feliz e aliviado com a decisão corajosa q havia tomado – acendeu um havana e ficou fumando calmamente vendo a fumaça densa ir aos poucos se dissipando e desaparecendo, como a vida da gente, sob a pitangueira. ...Tanta flor esse ano. Deve ter sido a seca, não sei se vai aguentar nutrir tantos frutos ...

Começou a rememorar sua longa relação com Robinson. Conheceu-o vendendo água de coco e batida de umbu na ilha de Itamaracá onde fora passar sua lua de mel. Na época tinha acabado o doutoramento na USP e iniciava uma promissora carreira em psicanálise. Síndico do prédio onde morava, no Paraíso, em Sampa, prometeu emprego de zelador ao Robinson se chegasse dentro de um mês. Dias depois ele tocou a campainha do prédio. Chegou apenas com uma mala de couro e uma mochila de lona, sua mudança, cara de assustado, boquiaberto com a altura do prédio e o movimento da Paulista. Gostou do Robinson desde o primeiro contato - pessoa humilde, mas inteligente e muito forte, embora magro. Tempos depois com seu sucesso profissional acabou contratando-o para motorista quando se mudou para o Jardim Europa. Era uma época de muitas viagens para dar aulas e fazer conferências no Brasil e no exterior. Robinson era uma mão na roda, jack of all trades, fazendo pequenos consertos, compras e sobretudo para levá-lo e buscá-lo em Cumbica e Congonhas. Aproveitava os congestionamentos para ir estudando casos de clientes e preparando palestras. Acabara ficando famoso por suas pesquisas sobre Alzheimer e doenças degenerativas do sistema nervoso. Convenceu Robinson a fazer um curso de defesa pessoal e direção defensiva durante os períodos em que estava no exterior em congressos. Robinson aprendeu lutas marciais e a atirar com precisão. Andava armado graças a um porte de armas que conseguiu para ele através de seu cunhado, delegado da Divisão Anti-Sequestros.

Embora mantivesse uma distância conveniente com o motorista às vezes contava a ele alguns dos casos mais curiosos q apareciam no consultório e falavam de futebol, ambos corintianos. Mais de uma vez lhe dissera que morria de medo de ficar gagá e ser alvo da zombaria dos pares e parentes. Sabia bem como funcionava a genética nesses casos – de seus 12 tios paternos só não ficaram esclerosados seu pai, que morreu com 33 anos, e um tio que também “partiu antes do combinado” num acidente em uma caçada de codornas. Em suma, preferia abreviar a vida a passar os últimos anos de fraldas e com um enfermeiro.

Enquanto fumava no jardim ia pensando na cara de espanto de Robinson quando lhe explicou em detalhes seu plano de "eutanásia". Robinson deveria “apagá-lo” logo ao reconhecer os primeiros sintomas de Alzheimer, os quais lhe foram explicados com a maior clareza. Sua primeira reação foi: “Mas, doutor, logo eu que gosto e respeito tanto o senhor?”.

- Exatamente por isso. Você é a única pessoa em q confio para tal tarefa. O plano só vai funcionar se for você o executor.

- Sei que o senhor planejou tudo para que eu não seja incriminado e que vou ficar bem de vida, mas não sei se terei coragem ...

- Vai ter sim. Veja isso como seu último serviço.

Os anos foram passando, o doutor cada vez mais rico e famoso e Robinson sempre dedicado e atento, até que num sábado de manhã quando o doutor entrou no carro para ir ao club de golf, Robinson deu-lhe um tapinha nas costas: “Doutor, é com muita tristeza q lhe digo q chegou a hora"
- Hora?
- Sim, vamos à sua casa de campo cumprir o plano.

- Plano?
- Sim o negócio da eutanásia que o senhor me explicou. O senhor não percebe, mas não é de hoje q vem fazendo uma série de cagadas, com perdão da palavra. Tenho tudo anotadinho. A arma e o anestésico estão comigo.

Antes que Robinson ligasse o motor o doutor desceu do carro como se estivesse esquecido alguma coisa e correu para casa. Já entrou gritando “mulher, ligue já pro seu irmão. Robinson ficou maluco.”

-É isso mesmo Pacheco, ele me ameaçou de morte.

- Por que?

- Sei lá, acho que pirou. Deve ter algum desvio mental q não tinha notado.

- E como é q v. não percebeu isso antes? Você é psicólogo, caralho!

- Sempre foi um cara normal. Não sei o q deu nele!

- Que filha da puta! Deixe comigo, vou cuidar disso pessoalmente. Agora! Dê uma desculpa a ele e se tranque em casa. Vou mandar uma viatura.

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