Posso?
Nesta noite tíbia e silenciosa fui invadido por uma ânsia estranha de servir minha empregada: convidá-la para jantar, à luz de velas, um tango de Piazola, um Malbec especial, servi-la como faria um serviçal à sua patroa, com direito a sous-plat, entrada, primo piato, secondo piato e petit gateau.
Que mundo idiota é este em que vivemos que não me permite fazer isto. Eu, um “senhor”, emancipado e vacinado, teoricamente dono de meu nariz, com cartão de crédito e ficha limpa na praça posso tanto, mas não posso isso!
A mente humana é tão deturpada que me acusariam das maiores taras. É bem possível que ela própria me interpretasse mal, “ah, este seu Chico não tem juízo mesmo. Cada idéia – imagine só, me convidar pra jantar? Tem cabimento? O que é que a dona Maria vai achar disto? No mínimo vai me ameaçar ou até despedir. Não é à toa que ele só anda de bicicleta e vive metido no pantanal com sua velha canoa. Deve ser a idade ...”
Este simples gesto de gratidão e bem-querer não seria visto com bons olhos por ninguém, minha família especialmente. Ninguém entenderia meu simples desejo de servir minha empregada, com humildade e delicadeza, apenas servir a quem me serviu por tantos anos, só pra variar. Cozinhar para ela me daria muito prazer e aposto que ela iria adorar meu spagheti à putanesca. Ou será que iria achá-lo um pouco duro e apimentado? “Estes homens pensam que cozinhar é fácil”, pensaria.
Será que ela me deixaria arrumar a cozinha enquanto fumava seu Hollywood. Repararia na minha falta de técnica para lavar panela engordurada?
Depois lhe serviria um licor e lhe daria uma carona para a Vila Mangalot.
Levantaria as cinco da matina para chegar às 07:15 no dia seguinte para cumprir sua rotina de "doméstica" ou se sentiria cheia de direitos? Ou me denunciaria por assédio sexual na delegacia da mulher?
Meu deus, que mundo é este que não acredita em boas intenções?
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