24 de junho de 2010

Reminicências e reticências

Reminiscências e reticências

Hoje tive a sensação de estar me despedindo deste mundo. Não que queira morrer agora, ou a curto prazo. Ao contrário, quero apenas começar a me despedir, mas sem pressa, lentamente, len-ta-men-te ...

O dia estava glorioso na praia da Fortaleza, a maré baixa, a água transparente e a praia vazia, como gosto. Arrastei minha canoa até a areia fofa, fora do alcance da maré para não ter que amarrá-la, e subi a escada do seu Maneco devagar. Antigamente subia correndo, controlando a respiração para fingir que não estava ofegante. Caminhei até a entrada da casa, mas não me senti à vontade para entrar. Sentei na escada, junto à colméia de jataí com quem tentei conversar e entender como sobreviveram a tantos inquilinos ignorantes que tentaram exterminá-las com sprays de inseticidas. Elas ficaram alvoroçadas, mas não responderam.

Olhei ao redor, e tudo estava lá: o caxinguelê saltando de galho em galho na velha mangueira, que nunca deu frutos; a baunilha, continuando seu caminho tronco acima do velho tarumã; o pé de abil, que plantei de uma semente trazida do quintal da vó Marcionília, de Jaboticabal, com suas folhas escuras, e seus frutos dourados, mas bichados, como sempre; os palmiteiros esbeltos e soberanos, balançando ao vento, que nunca tive coragem de cortar um sequer; as saíras-sete-cores, mansas, e os tiês-sangue, ariscos, bicando as pitangas mais vermelhas; a grama cortada, o terreiro varrido, indicando que seu Vavá devia ter passado por ali no dia anterior.

Afinal criei coragem, abri a porta e entrei na velha casinha, como um intruso, pisando em ovos, sorrateiramente. Não queria despertar os espíritos que se instalaram lá depois que abandonamos a casa. Senti uma sensação de culpa, de ter atraiçoado quem muito me deu, de tê-la trocado por uma casa nova, mais sofisticada e modernosa, em praia-condomínio, de elite, com seguranças motorizados...

Andei pelos cômodos com muito respeito. “Roubei” dois copinhos mexicanos de tomar tequila, trazidos de La Paz, Baja California. Peguei também um pau de “socaralho”, mas só porque havia dois, e a bóia de vidro que encontrei em Piúma (ES) quando coletava algas para minha tese de doutorado. Andei pelo jardim selecionando sementes e mudas, numa tentativa de levar para a casa nova algumas lembranças da casinha que me abrigou por tantos anos, onde trabalhei duro, nos tempos em que a estrada era precária e se atolava, a geladeira e os lampiões eram a querosene, o chuveiro um balde suspenso aquecido por uma espiriteira a álcool, água uma luta constante; quando a pesca era fácil e abundante: pirajicas, garoupas, pernas-de moça e corvinas, carapaus, espadas prateadas de mais de metro, panaguaiús e timbales, sargo-de-dente, salemas e marimbás, e até um ou outro robalo; quando dona Maria-da-barra ainda existia e caçava guaiás assobiando uma musiquinha monótona para eles se distraírem e saírem das tocas. Bons tempos ... As estórias dos velhos pescadores: Benedito Celidônio, que me vendeu sua canoa de guapuruvu de larga trajetória e passado de respeito, leve e equilibrada, da qual me desfiz numa crise de estupidez; “seus” Dário, Oliveira, Cândido, Bernardino ... que partiram para o além sem deixar substitutos. O Joaquim, de pouca prosa e grande facão jacaré, que descia o morro com cinco cachos de banana prata nas costas; as mentiras fantásticas do seu Maneco, tocador de rabeca nos dias de Reis, acompanhado pelos gemidos de dona Ana, “fazendo a trip”, ...

Coloquei a placa de vende-se num ato de crueldade. Quem será o novo proprietário? Seja quem for mutilações serão inevitáveis, paredes serão derrubadas, outras erguidas, árvores cortadas para aumentar o estacionamento ... As velhas telhas com seus liquens, musgos, bromélias e kalanchoes, um jardim suspenso que amenizava os dias quentes do verão serão trocadas – já não se toleram goteiras hoje em dia ... morcegos, então, nem pensar!

Mas, a decisão estava tomada. Somos, eu e a casa, cartas fora do baralho, páginas viradas desta estória de vida, apenas mais uma. Bola pra frente. Agora é iniciar uma nova estória na Praia Vermelha, que não deixa de ter seus encantos. Mas, tudo será diferente, sem peixes, sem pescadores ... “Tristeza não paga conta”, dizia Carmem Miranda, mas estou com uma preguiça de recomeçar...

16 de junho de 2010

Galinhas na marginal


Galinhas na Marginal


Segunda-feira, manhã chuvosa, a Paulicéia se afogando no trânsito e eles nem aí. São as águas de março que rolam em vão, em busca de solos que possam bebê-las, e se avolumam aflitas nos baixios das avenidas, bloqueadas pelos bueiros entupidos de garrafas pet e sacos de plástico. Sampa soluça em mais uma inundação, o trânsito parado e a mídia malhando o prefeito de plantão, se deleitando com fotos dramáticas que vendem os noticiários do dia.

E os ciganos lá, indiferentes à fumaça dos ônibus e lotações clandestinas, amanheceram acampados na pseudo-praça, entre a marginal e a ponte do Jaguaré, rota para o sul e para o oeste.

São meia-dúzia de barracas, azuis, laranjas, pretas, um Monza, uma Brasília e dois fuscas remendados com peças de cores e modelos diversos. Devem ter chegado ontem à tarde. Acamparam às margens do Pinheiros, ainda um rio no seu papel de levar para longe os dejetos da cidade grande. Pobre rio, sem alma, e mal hálito!

Por aí também acamparam os bandeirantes junto ao Tietê, então transparente e piscoso, em busca de uma via que os ajudasse a ir fundo no continente, uma vereda para o oeste que penetrasse o desconhecido, onde escravizariam índios e garimpariam ouro e esmeraldas...

Da estação de trens suburbanos, em frente ao acampamento, descem magotes de gentes, vindas de Osasco, apressadas e tristes em busca das fábricas, da rotina de mais um dia, mais uma semana, mais um ano, uma década, para voltar à noite e esperar o trem que não vem, atrasado sempre, e uma melhoria de vida prometida nas eleições, que tarda, vem nunca.

Um menino de pijama de bolinhas azuis urina da porta da barraca, alheio aos transeuntes cabisbaixos que nem notam o acampamento; homens e mulheres conversam calmamente, sentados em banquetas de três pernas, ao redor de um foguinho mirrado onde passam café, pitam e cozinham alguma coisa para o desjejum. Alguns cachorros de raças indefinidas farejam os arredores, e um galo de briga multicor lidera algumas galinhas, que ciscam no gramado mal-cuidado.

Os ciganos seguem sua rotina, tranquilos, sem se perturbar com o burburinho nervoso, sem reparar nos carros importados, blindados, vidros escuros, roncando e soltando fumaça na marginal entupida; motoristas engravatados, nervosos, xingando os motoqueiros que deslizam por entre os veículos parados, batendo nos espelhos laterais.

De onde vieram estes ciganos, homens de bigodes espessos, velhos com brincos, mulheres com saias longas e coloridas, pulseiras chacoalhantes, e crianças felizes, pessoas? Ignoram o acessório, não sabem quem é a prefeita, que o Palmeiras perdeu ontem mais uma vez e pode ser rebaixado para a segunda divisão...

Tenho vontade de me achegar, tomar um café ralo puxando prosa e pedindo fogo; perguntar que rumo tomarão, onde será o próximo acampamento, se viajam por viajar, ou se pretendem chegar a algum destino...

Um dia ainda crio coragem, troco meu Vectra por uma Variant com bagageiro, compro uma lona usada, deixo a barba crescer e coloco um brinco, alheio aos progressos de tecnologias supérfluas, laptops, celulares, jornais, vejas, isto-és, deputados, ratinhos, faustões, hebes, pílulas mil, vitaminas, hormônios, viagras - spams, enfim, e sigo com eles, por aí, carregando os cachorros e as galinhas, vivendo a vida, que "a morte acontece mas só a vida existe".



Rumo ao centro

Rumo ao centro

Quando o carro da vó Magu está no rodízio, ou tem algum problema, ela pega o meu. Aí vou de bicicleta para o trabalho. Se bem que quando ela não pega é a mesma coisa, pois adoro, e uso, minha magrela, a bici.

Hoje, depois do almoço, o sol estava de rachar mamona, e desisti de voltar ao trabalho. Afinal estou aposentado, ora bolas! Resolvi ficar trabalhando no computador de casa. Mas, me deu uma preguicite danada, e achei que era uma boa oportunidade para ir comprar charutos na famosa Charutaria do Marquez, no centro de São Paulo. Tinham me dito que era perto da Praça da República. Decidi ir de ônibus, coisa que nunca faço, para rever um pouco da cidade.

Tomei um CMTC na Imperatriz Leopoldina. O trânsito estava péssimo e acabei deixando o ônibus e pegando o metrô na Vila Madalena. Após duas conexões cheguei ao colégio Caetano de Campos e saí em busca da charutaria, na Rua dos Timbiras. Vi que deveria ter descido na Luz. Paciência, uma caminhada não me faria mal. Ao passar pelas bocas de contrabando na Santa Ifigênia, aproveitei para comprar um pendrive de 16 Gigas (uau!), por noventa pratas, em duas vezes no cartão de crédito. Noventa pratas, francamente, achei barato.

Revisitei lugares de meu tempo de estudante, recém chegado a Sampa nos idos de 1960. Meu avô Chico dizia que o vai e vem das pernas estimula os neurônios da memória – memórias esgarçadas do início de vida na metrópole. Passei pelo restaurante Giovanni, antigamente Buon Giovanni, para onde, nos finais de semana, ia a pé desde a pensão em que morava, perto do Hospital das Clínicas. Comia uma lasanha, tomava um copo de vinho da távola, isto é, de garrafão, e fechava o banquete com goiabada, catupiry, e um expresso. Dependendo do programa ia ao Cine Metro ou ao Marabá, um luxo comparado ao velho Polytheama de Jaboticabal. Não ia ao Olido, porque só se entrava com gravata. Algumas vezes fui ao Dancing Avenidas, tentando fugir da solidão, onde a um preço módico se podia dançar com uma táxi-girl, coisa impensável atualmente. Depois subia a Consolação assobiando, de volta à pensão da portuguesa.

Afinal cheguei à tal charutaria, da qual sempre ouvira falar como sendo o paraíso dos viciados em charutos, por sua grande variedade e preços baixos. Não era a maravilha que eu imaginara. Achei-a acanhada, com pouca variedade e preços regulares, nada de excepcional. Mas gostei do atendimento, e descobri que comprando acima de 100 pratas, por telefone, entregam a domicílio.

O vendedor, mulato barrigudo e simpático, me convenceu a comprar um havano “de fumo picado”, cá entre nós, rebarbas, mas da mesma boa e forte Nicotiana tabacum de Cuba. Segundo ele, era a melhor relação custo x benefício disponível no mercado. Perguntei se não seria a melhor relação custo x malefício? Ele riu com simpatia.

Havia mais três pessoas na tabacaria: um cara de barba bem aparada, que parecia o dono, sentado num banquinho alto, e dois senhores de meia-idade encostados ao balcão. Pararam de conversar quando cheguei, e passaram a olhar com interesse as escolhas que eu fazia, aprovando discretamente com movimentos de cabeça quando, além de levar os cubanos, escolhi também alguns Paraguaçus, de Cachoeira (BA) e um maço de "cigarrilhas Talvis".

Tinha planejado voltar de ônibus, e passar no mercado da Lapa para comprar castanhas e fumo de corda, mas o barulho e aquela montoeira de gente pelo centro foram me dando aflição e resolvi pegar um metrô na Luz. Queria voltar rapidinho para experimentar o charuto cubano no quintal de casa, pois já não há mais onde se possa fumar em paz nesta cidade.

Antes de chegar à Avenida Ipiranga, em um cruzamento muito movimentado, vi um cego, ainda jovem, que me pareceu meio aflito e indeciso, parado no meio-fio, tateando no vazio com sua bengala. Perguntei se queria ajuda para atravessar a rua. Fez que sim. Largou a mão que lhe estendi e segurou no meu braço. Percebi que os cegos não querem ser segurados, mas segurar.
Com uma paciência infinita esperei aparecer o hominho verde na luz do semáforo de três fases, e atravessamos. Ao largá-lo no outro lado perguntei para onde ia; disse um lugar que não entendi e perguntou aonde eu ia, “Ao metrô”, respondi. Retrucou prontamente, “Então vou aproveitar sua gentileza”, e voltou a segurar no meu braço.

Virei à esquerda, rumo à estação da Luz. Andamos mais um quarteirão, e ele me perguntou o nome da rua; li na placa e ele falou que então era melhor virar à direita, pois a entrada do metrô na Tiradentes era mais perto. Fiquei cabreiro achando que ele não era tão cego assim. A cada cruzamento me dizia o nome das ruas e me orientava rumo ao metrô. Tive uma sensação estranha e disse que era ele que estava me guiando. Riu e falou, “Brincadeira, é que ando por aqui há mais de 20 anos”. A conversa foi ficando animada com perguntas e respostas de parte a parte. Achou legal que eu tivesse vindo de tão longe só para comprar charutos. Ele não conhecia ninguém que fumasse essas coisas e perguntou se era bom. Ficou abismado quando lhe falei o preço de um Cohiba legítimo. Em cada rua, para subir ou descer eu avisava: “Atenção, ’olha’ a guia”; só mais tarde me dei conta de estar fazendo uma observação ridícula pois ele já sabia antes de eu avisar, tateando o caminho com sua bengala. Perguntei se enxergava um pouquinho, vultos talvez? Respondeu, “Patavina”. E foi me guiando.

Pensei em perguntar que idéia fazia de mim, mas deixei pra lá. Acho que eu era apenas uma voz meio rouca na escuridão ou na névoa de sua retina. Deveria ter-lhe dito que eu era um velho barbudo e ele um jovem simpático, com boa aparência. Tantas coisas que não disse ...

Concluí que ele não enxergava mesmo, quando no metrô, após um lance de escadas, havia um patamar e logo outro lance, onde ele tropeçou e quase caiu. Pedi desculpas por não ter avisado. Mas não foi de propósito, acho.

Estava me sentindo incomodado com meu braço flexionado, e aquela mão quente me segurando. No metrô perguntei logo, antes que ele me perguntasse, com receio de que quisesse me seguir, se ia rumo ao Jabaquara ou ao Tucuruvi. “Tucuruvi? Então é por aqui. Desculpe, mas vou na direção Jabaquara, então tchau e boa sorte.” Deixei-o a cargo de um funcionário do metrô.

O trem para o Jabaquara já estava parando. Sentei num dos bancos cinza, reservado aos deficientes e idosos. Na estação São Bento entrou um senhor grisalho. Levantei e ofereci meu lugar. Ele se sentou, mas se levantou em seguida dizendo: “Espera aí, acho que o senhor é mais velho do que eu”. E ficamos naquela troca de gentilezas, os dois em pé, até que vagou outro assento.

Apertando minha mochila no peito para proteger os charutos, vim pensando nessa pequena aventura urbana (há décadas não ia ao centro) e me arrependi de ter largado o ceguinho de forma tão abrupta, sem sequer ter lhe apertado a mão ou esperado seu trem chegar. Medo? De que? De fazer nova amizade? De que me pedisse algo? Deveria ter ido ao Tucuruvi com ele, ter-lhe pago um café, oferecido um charuto, talvez, ouvido suas histórias, sua opinião sobre o senado, o Dunga..., afinal estou aposentado, não tinha nada urgente para fazer naquele resto de tarde. Além disso, nunca tinha tido chance de conversar com um cego - deve ser um barato entrar no mundo deles para saber do seu dia-a-dia, como levam a vida e conseguem ser tão otimistas, pelo menos aquele me parecia. Achei que com este meu modo apressadinho de fazer tudo correndo, chegar logo ao destino para sair em busca de outro, acabar uma coisa para começar outra, tinha perdido uma boa oportunidade de travar um relacionamento interessante, talvez ....

Desci na Vila Madalena, tomei uma água de coco na esquina e um café no Franz Café. Peguei um ônibus que ia para o Parque Continental, via Jaguaré, achando que ia passar perto de casa. Acabei descendo na Vila Leopoldina, bem mais longe do que esperava pois o ônibus fez um trajeto maluco, dando voltas e mais voltas.

E assim passei uma tarde de aposentado, sem pagar transporte e esbanjando um tempo que não tenho. Ou será que tenho? Corro tanto por quê? Como diz o MR, não adianta fugir, seu problema está dentro de você.

É tempo

É TEMPO


-Jô, desculpe-me por envolvê-la nisto, mas quem mais me entenderia e teria coragem de reunir os amigos que sobraram, um garrafão de cachaça, uma caixa de charutos que nem precisa ser Cohiba, cavaquinho e pandeiro? Difícil mesmo vai ser arranjar clarineta...

-Pai fique quieto, relaxe.

- Jô, venha mais perto, tá chegando a hora, este ano não vou comer os caquis-chocolate de que tanto gosto. Mais hora menos hora, possivelmente menos, embarco de vez, mas agora numa canoa com alça, sem remos nem cuia, não há colete salva-vida que me mantenha com o nariz pra fora, vou com destino certo, será a Viagem! Conto com você.

- Besteira pai, fique quieto e descanse que você não sabe o que está falando, é efeito do remédio.

- Nada. Já sinto que estou na correnteza em ponto de não retorno e despenco... A cachoeira, tão grande... Custo a chegar ao fundo, mas não tarda, estou tranqüilo. Vivi a vida, agora sinto um querer descansar, um desinteresse em continuar empurrando com a barriga, levar por levar. Não que a vida seja ruim, mas já não é tão boa, tantas as limitações, tantas as lembranças. Após uma certa idade, como dizia a vó Martha, metade das pessoas de quem gostei já está do lado de lá e partir ou ficar dá no mesmo...Tinha planejado morrer longe, onde não desse pra recuperar o corpo, de modo a não se ter certeza absoluta da minha morte, um desaparecimento, mas não consegui, adiei muito e agora o sonho de virar um ulysses-guimarães não se realizou, foi apenas mais um dentre tantos que gostei de sonhar. Acabei nesta cama de hospital, com o sofrimento atenuado pelo carinho de vocês, e estes fantásticos analgésicos modernos que ajudam no traslado.
“Que uma namorada sapateasse no meu caixão” já dizia o poeta, e nenhuma lágrima, só lembrança dos bons momentos de uma passagem feliz, boa desde o início, mas que foi melhorando ano após ano quase até o finzinho.

- Pai fique quieto ou vou ter que chamar a enfermeira.

- Chama não, só vou passar por um processo de desmontagem, minhas células serão fundidas, hidrolisadas em uma sopa de proteínas, lipídios, carboidratos, e logo depois gás carbônico, água, amoníaco, cálcio, fósforo, potássio...Afinal de que é feito o homem? Nutrientes que fertilizarão a terra, e a grama crescerá verde, alimentando as vacas cujo leite nutrirá meus bisnetos. É a vida, matéria e energia em transformação, a morte é apenas um nãonada. Será uma vitória temporária da entropia, antes da próxima remontagem na forma de bactéria, algas, protozoários, vermes, moluscos ... e reviverei em outros seres, outra vida, sem que ninguém perceba, a verdadeira re-encarnação, vida é vida ...

- Por isto vá preparando a festa, a hora é de chorinhos, não de choradeira, chame os amigos, abra a cachaça e acenda um havana.

6 de junho de 2010

o próprio e a curiara




A Corvina

A CORVINA

Trabalhara pesado cortando grama e desbastando o hibisco da cerca. Suado e cansado, resolveu dar um mergulho para refrescar e relaxar os músculos.
Como não gostava de nadar por nadar, pegou seu equipamento de mergulho, prendeu a faca na perna, e foi caminhando em direção à praia.

Ao passar por uma casa em construção, antes de chegar ao córrego, ouviu risos e comentários de uns pedreiros, mas não entendeu o que diziam. Atravessou a praia caminhando até o costão em busca de água mais limpa, e da possibilidade de ver algum animal ou alga interessante – velho vício de naturalista, sempre curioso. Na semana anterior tinha visto uma lagosta, mas ficou com dó de pegar. Hoje, quem sabe?
Cruzou com umas crianças que tentavam bloquear com galhos e areia o fluxo do riacho que divide a praia. Os pais liam jornal e as mães lagarteavam ao sol, besuntadas de bronzeador.
O velho de barbas brancas, chapéu de palha, e equipamento de mergulho, chamava a atenção das poucas pessoas que estavam ali naquele sábado, final de férias. Estava mais pra velho-do-rio que pra lobo-do-mar.
O costão estava deserto, como sempre. Pôs seu chapéu sobre uma rocha mais alta, prendendo-o com uma pedra para o vento não levar, colocou as nadadeiras, a máscara, e o snorquel, e entrou na água afundando devagarinho. Deixou-se levar pela corrente e balançar ao léu pelas marolas. O mar estava tranquilo e a água clara e morna, relaxante. Cantarolava mentalmente “não sou eu quem me navega...”
Ao virar para a entrada do "Saco do Guaiá" um brilho metálico chamou sua atenção: uma corvina de uns dois quilos e debatia entre as pedras, desorientada. Tentou pegá-la, mas a bicha escorregava mais do que quiabo. Aos poucos foi tangendo-a para o banco de areia e conseguiu enfiar um dedo pelas suas guelras, prendendo-a firmemente. Saiu da água, quebrou um galho com forquilha, e fez uma fisga onde prendeu o peixe. A corvina se debatia desesperada e o sangue escorria das guelras, o que lhe deu pena; mas se consolou achando que ela morreria de qualquer jeito e pelo menos daria um bom jantar.
Nadou até a praia, arrastando o peixe, tirou o equipamento, e desfilou discretamente − mas orgulhoso − de volta pra casa. Crianças corriam atrás, e gritavam excitadas. A corvina, nos últimos estertores, brilhava ao sol com lampejos dourados. Um casal veio perguntar que peixe era aquele; um senhor largou o jornal e perguntou se queria vender – não quis.

No caminho de volta passou pelos pedreiros que, alertados por um rapaz magrelo que revolvia o reboque, vieram à rua e olharam incrédulos. “O senhor pegou no mergulho, com a faca?”, perguntou o jovem.

Respondeu, baixo e grave: “Peguei a tapa”. E nem parou, só ouviu o comentário: “O véio é fodão mesmo”.
A mulher, da cozinha, gritou: Ué, já voltou?
- Mulher veja o que peguei pro jantar!
- Tá brincando! Pegou como? Com as mãos? Comprou do Mesquita?
Ao explicar como pegara o peixe, ela o mandou jogar fora, e bem longe pra não feder.
- Ficou maluco? Este peixe tá doente.
- Estava se debatendo até agorinha. Deve ter escapado de alguma rede.
- Eu é que não como isto - nem amarrada.

Ficou aborrecido, mas desta vez não lhe deu ouvidos. Limpou, temperou, e assou o peixe, a despeito dos reclamos da mulher.
Estava uma delícia e ainda sobrou pro almoço do dia seguinte. Ela comeu um ovo frito.

Praia Vermelha do Sul, Jan. 2010