Hoje tive a sensação de estar me despedindo deste mundo. Não que queira morrer agora, ou a curto prazo. Ao contrário, quero apenas começar a me despedir, mas sem pressa, lentamente, len-ta-men-te ...
O dia estava glorioso na praia da Fortaleza, a maré baixa, a água transparente e a praia vazia, como gosto. Arrastei minha canoa até a areia fofa, fora do alcance da maré para não ter que amarrá-la, e subi a escada do seu Maneco devagar. Antigamente subia correndo, controlando a respiração para fingir que não estava ofegante. Caminhei até a entrada da casa, mas não me senti à vontade para entrar. Sentei na escada, junto à colméia de jataí com quem tentei conversar e entender como sobreviveram a tantos inquilinos ignorantes que tentaram exterminá-las com sprays de inseticidas. Elas ficaram alvoroçadas, mas não responderam.
Olhei ao redor, e tudo estava lá: o caxinguelê saltando de galho em galho na velha mangueira, que nunca deu frutos; a baunilha, continuando seu caminho tronco acima do velho tarumã; o pé de abil, que plantei de uma semente trazida do quintal da vó Marcionília, de Jaboticabal, com suas folhas escuras, e seus frutos dourados, mas bichados, como sempre; os palmiteiros esbeltos e soberanos, balançando ao vento, que nunca tive coragem de cortar um sequer; as saíras-sete-cores, mansas, e os tiês-sangue, ariscos, bicando as pitangas mais vermelhas; a grama cortada, o terreiro varrido, indicando que seu Vavá devia ter passado por ali no dia anterior.
Afinal criei coragem, abri a porta e entrei na velha casinha, como um intruso, pisando em ovos, sorrateiramente. Não queria despertar os espíritos que se instalaram lá depois que abandonamos a casa. Senti uma sensação de culpa, de ter atraiçoado quem muito me deu, de tê-la trocado por uma casa nova, mais sofisticada e modernosa, em praia-condomínio, de elite, com seguranças motorizados...
Andei pelos cômodos com muito respeito. “Roubei” dois copinhos mexicanos de tomar tequila, trazidos de La Paz, Baja California. Peguei também um pau de “socaralho”, mas só porque havia dois, e a bóia de vidro que encontrei em Piúma (ES) quando coletava algas para minha tese de doutorado. Andei pelo jardim selecionando sementes e mudas, numa tentativa de levar para a casa nova algumas lembranças da casinha que me abrigou por tantos anos, onde trabalhei duro, nos tempos em que a estrada era precária e se atolava, a geladeira e os lampiões eram a querosene, o chuveiro um balde suspenso aquecido por uma espiriteira a álcool, água uma luta constante; quando a pesca era fácil e abundante: pirajicas, garoupas, pernas-de moça e corvinas, carapaus, espadas prateadas de mais de metro, panaguaiús e timbales, sargo-de-dente, salemas e marimbás, e até um ou outro robalo; quando dona Maria-da-barra ainda existia e caçava guaiás assobiando uma musiquinha monótona para eles se distraírem e saírem das tocas. Bons tempos ... As estórias dos velhos pescadores: Benedito Celidônio, que me vendeu sua canoa de guapuruvu de larga trajetória e passado de respeito, leve e equilibrada, da qual me desfiz numa crise de estupidez; “seus” Dário, Oliveira, Cândido, Bernardino ... que partiram para o além sem deixar substitutos. O Joaquim, de pouca prosa e grande facão jacaré, que descia o morro com cinco cachos de banana prata nas costas; as mentiras fantásticas do seu Maneco, tocador de rabeca nos dias de Reis, acompanhado pelos gemidos de dona Ana, “fazendo a trip”, ...
Coloquei a placa de vende-se num ato de crueldade. Quem será o novo proprietário? Seja quem for mutilações serão inevitáveis, paredes serão derrubadas, outras erguidas, árvores cortadas para aumentar o estacionamento ... As velhas telhas com seus liquens, musgos, bromélias e kalanchoes, um jardim suspenso que amenizava os dias quentes do verão serão trocadas – já não se toleram goteiras hoje em dia ... morcegos, então, nem pensar!
Mas, a decisão estava tomada. Somos, eu e a casa, cartas fora do baralho, páginas viradas desta estória de vida, apenas mais uma. Bola pra frente. Agora é iniciar uma nova estória na Praia Vermelha, que não deixa de ter seus encantos. Mas, tudo será diferente, sem peixes, sem pescadores ... “Tristeza não paga conta”, dizia Carmem Miranda, mas estou com uma preguiça de recomeçar...
