É TEMPO
-Jô, desculpe-me por envolvê-la nisto, mas quem mais me entenderia e teria coragem de reunir os amigos que sobraram, um garrafão de cachaça, uma caixa de charutos que nem precisa ser Cohiba, cavaquinho e pandeiro? Difícil mesmo vai ser arranjar clarineta...
-Pai fique quieto, relaxe.
- Jô, venha mais perto, tá chegando a hora, este ano não vou comer os caquis-chocolate de que tanto gosto. Mais hora menos hora, possivelmente menos, embarco de vez, mas agora numa canoa com alça, sem remos nem cuia, não há colete salva-vida que me mantenha com o nariz pra fora, vou com destino certo, será a Viagem! Conto com você.
- Besteira pai, fique quieto e descanse que você não sabe o que está falando, é efeito do remédio.
- Nada. Já sinto que estou na correnteza em ponto de não retorno e despenco... A cachoeira, tão grande... Custo a chegar ao fundo, mas não tarda, estou tranqüilo. Vivi a vida, agora sinto um querer descansar, um desinteresse em continuar empurrando com a barriga, levar por levar. Não que a vida seja ruim, mas já não é tão boa, tantas as limitações, tantas as lembranças. Após uma certa idade, como dizia a vó Martha, metade das pessoas de quem gostei já está do lado de lá e partir ou ficar dá no mesmo...Tinha planejado morrer longe, onde não desse pra recuperar o corpo, de modo a não se ter certeza absoluta da minha morte, um desaparecimento, mas não consegui, adiei muito e agora o sonho de virar um ulysses-guimarães não se realizou, foi apenas mais um dentre tantos que gostei de sonhar. Acabei nesta cama de hospital, com o sofrimento atenuado pelo carinho de vocês, e estes fantásticos analgésicos modernos que ajudam no traslado.
“Que uma namorada sapateasse no meu caixão” já dizia o poeta, e nenhuma lágrima, só lembrança dos bons momentos de uma passagem feliz, boa desde o início, mas que foi melhorando ano após ano quase até o finzinho.
- Pai fique quieto ou vou ter que chamar a enfermeira.
- Chama não, só vou passar por um processo de desmontagem, minhas células serão fundidas, hidrolisadas em uma sopa de proteínas, lipídios, carboidratos, e logo depois gás carbônico, água, amoníaco, cálcio, fósforo, potássio...Afinal de que é feito o homem? Nutrientes que fertilizarão a terra, e a grama crescerá verde, alimentando as vacas cujo leite nutrirá meus bisnetos. É a vida, matéria e energia em transformação, a morte é apenas um nãonada. Será uma vitória temporária da entropia, antes da próxima remontagem na forma de bactéria, algas, protozoários, vermes, moluscos ... e reviverei em outros seres, outra vida, sem que ninguém perceba, a verdadeira re-encarnação, vida é vida ...
- Por isto vá preparando a festa, a hora é de chorinhos, não de choradeira, chame os amigos, abra a cachaça e acenda um havana.
-Jô, desculpe-me por envolvê-la nisto, mas quem mais me entenderia e teria coragem de reunir os amigos que sobraram, um garrafão de cachaça, uma caixa de charutos que nem precisa ser Cohiba, cavaquinho e pandeiro? Difícil mesmo vai ser arranjar clarineta...
-Pai fique quieto, relaxe.
- Jô, venha mais perto, tá chegando a hora, este ano não vou comer os caquis-chocolate de que tanto gosto. Mais hora menos hora, possivelmente menos, embarco de vez, mas agora numa canoa com alça, sem remos nem cuia, não há colete salva-vida que me mantenha com o nariz pra fora, vou com destino certo, será a Viagem! Conto com você.
- Besteira pai, fique quieto e descanse que você não sabe o que está falando, é efeito do remédio.
- Nada. Já sinto que estou na correnteza em ponto de não retorno e despenco... A cachoeira, tão grande... Custo a chegar ao fundo, mas não tarda, estou tranqüilo. Vivi a vida, agora sinto um querer descansar, um desinteresse em continuar empurrando com a barriga, levar por levar. Não que a vida seja ruim, mas já não é tão boa, tantas as limitações, tantas as lembranças. Após uma certa idade, como dizia a vó Martha, metade das pessoas de quem gostei já está do lado de lá e partir ou ficar dá no mesmo...Tinha planejado morrer longe, onde não desse pra recuperar o corpo, de modo a não se ter certeza absoluta da minha morte, um desaparecimento, mas não consegui, adiei muito e agora o sonho de virar um ulysses-guimarães não se realizou, foi apenas mais um dentre tantos que gostei de sonhar. Acabei nesta cama de hospital, com o sofrimento atenuado pelo carinho de vocês, e estes fantásticos analgésicos modernos que ajudam no traslado.
“Que uma namorada sapateasse no meu caixão” já dizia o poeta, e nenhuma lágrima, só lembrança dos bons momentos de uma passagem feliz, boa desde o início, mas que foi melhorando ano após ano quase até o finzinho.
- Pai fique quieto ou vou ter que chamar a enfermeira.
- Chama não, só vou passar por um processo de desmontagem, minhas células serão fundidas, hidrolisadas em uma sopa de proteínas, lipídios, carboidratos, e logo depois gás carbônico, água, amoníaco, cálcio, fósforo, potássio...Afinal de que é feito o homem? Nutrientes que fertilizarão a terra, e a grama crescerá verde, alimentando as vacas cujo leite nutrirá meus bisnetos. É a vida, matéria e energia em transformação, a morte é apenas um nãonada. Será uma vitória temporária da entropia, antes da próxima remontagem na forma de bactéria, algas, protozoários, vermes, moluscos ... e reviverei em outros seres, outra vida, sem que ninguém perceba, a verdadeira re-encarnação, vida é vida ...
- Por isto vá preparando a festa, a hora é de chorinhos, não de choradeira, chame os amigos, abra a cachaça e acenda um havana.
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