16 de junho de 2010

Rumo ao centro

Rumo ao centro

Quando o carro da vó Magu está no rodízio, ou tem algum problema, ela pega o meu. Aí vou de bicicleta para o trabalho. Se bem que quando ela não pega é a mesma coisa, pois adoro, e uso, minha magrela, a bici.

Hoje, depois do almoço, o sol estava de rachar mamona, e desisti de voltar ao trabalho. Afinal estou aposentado, ora bolas! Resolvi ficar trabalhando no computador de casa. Mas, me deu uma preguicite danada, e achei que era uma boa oportunidade para ir comprar charutos na famosa Charutaria do Marquez, no centro de São Paulo. Tinham me dito que era perto da Praça da República. Decidi ir de ônibus, coisa que nunca faço, para rever um pouco da cidade.

Tomei um CMTC na Imperatriz Leopoldina. O trânsito estava péssimo e acabei deixando o ônibus e pegando o metrô na Vila Madalena. Após duas conexões cheguei ao colégio Caetano de Campos e saí em busca da charutaria, na Rua dos Timbiras. Vi que deveria ter descido na Luz. Paciência, uma caminhada não me faria mal. Ao passar pelas bocas de contrabando na Santa Ifigênia, aproveitei para comprar um pendrive de 16 Gigas (uau!), por noventa pratas, em duas vezes no cartão de crédito. Noventa pratas, francamente, achei barato.

Revisitei lugares de meu tempo de estudante, recém chegado a Sampa nos idos de 1960. Meu avô Chico dizia que o vai e vem das pernas estimula os neurônios da memória – memórias esgarçadas do início de vida na metrópole. Passei pelo restaurante Giovanni, antigamente Buon Giovanni, para onde, nos finais de semana, ia a pé desde a pensão em que morava, perto do Hospital das Clínicas. Comia uma lasanha, tomava um copo de vinho da távola, isto é, de garrafão, e fechava o banquete com goiabada, catupiry, e um expresso. Dependendo do programa ia ao Cine Metro ou ao Marabá, um luxo comparado ao velho Polytheama de Jaboticabal. Não ia ao Olido, porque só se entrava com gravata. Algumas vezes fui ao Dancing Avenidas, tentando fugir da solidão, onde a um preço módico se podia dançar com uma táxi-girl, coisa impensável atualmente. Depois subia a Consolação assobiando, de volta à pensão da portuguesa.

Afinal cheguei à tal charutaria, da qual sempre ouvira falar como sendo o paraíso dos viciados em charutos, por sua grande variedade e preços baixos. Não era a maravilha que eu imaginara. Achei-a acanhada, com pouca variedade e preços regulares, nada de excepcional. Mas gostei do atendimento, e descobri que comprando acima de 100 pratas, por telefone, entregam a domicílio.

O vendedor, mulato barrigudo e simpático, me convenceu a comprar um havano “de fumo picado”, cá entre nós, rebarbas, mas da mesma boa e forte Nicotiana tabacum de Cuba. Segundo ele, era a melhor relação custo x benefício disponível no mercado. Perguntei se não seria a melhor relação custo x malefício? Ele riu com simpatia.

Havia mais três pessoas na tabacaria: um cara de barba bem aparada, que parecia o dono, sentado num banquinho alto, e dois senhores de meia-idade encostados ao balcão. Pararam de conversar quando cheguei, e passaram a olhar com interesse as escolhas que eu fazia, aprovando discretamente com movimentos de cabeça quando, além de levar os cubanos, escolhi também alguns Paraguaçus, de Cachoeira (BA) e um maço de "cigarrilhas Talvis".

Tinha planejado voltar de ônibus, e passar no mercado da Lapa para comprar castanhas e fumo de corda, mas o barulho e aquela montoeira de gente pelo centro foram me dando aflição e resolvi pegar um metrô na Luz. Queria voltar rapidinho para experimentar o charuto cubano no quintal de casa, pois já não há mais onde se possa fumar em paz nesta cidade.

Antes de chegar à Avenida Ipiranga, em um cruzamento muito movimentado, vi um cego, ainda jovem, que me pareceu meio aflito e indeciso, parado no meio-fio, tateando no vazio com sua bengala. Perguntei se queria ajuda para atravessar a rua. Fez que sim. Largou a mão que lhe estendi e segurou no meu braço. Percebi que os cegos não querem ser segurados, mas segurar.
Com uma paciência infinita esperei aparecer o hominho verde na luz do semáforo de três fases, e atravessamos. Ao largá-lo no outro lado perguntei para onde ia; disse um lugar que não entendi e perguntou aonde eu ia, “Ao metrô”, respondi. Retrucou prontamente, “Então vou aproveitar sua gentileza”, e voltou a segurar no meu braço.

Virei à esquerda, rumo à estação da Luz. Andamos mais um quarteirão, e ele me perguntou o nome da rua; li na placa e ele falou que então era melhor virar à direita, pois a entrada do metrô na Tiradentes era mais perto. Fiquei cabreiro achando que ele não era tão cego assim. A cada cruzamento me dizia o nome das ruas e me orientava rumo ao metrô. Tive uma sensação estranha e disse que era ele que estava me guiando. Riu e falou, “Brincadeira, é que ando por aqui há mais de 20 anos”. A conversa foi ficando animada com perguntas e respostas de parte a parte. Achou legal que eu tivesse vindo de tão longe só para comprar charutos. Ele não conhecia ninguém que fumasse essas coisas e perguntou se era bom. Ficou abismado quando lhe falei o preço de um Cohiba legítimo. Em cada rua, para subir ou descer eu avisava: “Atenção, ’olha’ a guia”; só mais tarde me dei conta de estar fazendo uma observação ridícula pois ele já sabia antes de eu avisar, tateando o caminho com sua bengala. Perguntei se enxergava um pouquinho, vultos talvez? Respondeu, “Patavina”. E foi me guiando.

Pensei em perguntar que idéia fazia de mim, mas deixei pra lá. Acho que eu era apenas uma voz meio rouca na escuridão ou na névoa de sua retina. Deveria ter-lhe dito que eu era um velho barbudo e ele um jovem simpático, com boa aparência. Tantas coisas que não disse ...

Concluí que ele não enxergava mesmo, quando no metrô, após um lance de escadas, havia um patamar e logo outro lance, onde ele tropeçou e quase caiu. Pedi desculpas por não ter avisado. Mas não foi de propósito, acho.

Estava me sentindo incomodado com meu braço flexionado, e aquela mão quente me segurando. No metrô perguntei logo, antes que ele me perguntasse, com receio de que quisesse me seguir, se ia rumo ao Jabaquara ou ao Tucuruvi. “Tucuruvi? Então é por aqui. Desculpe, mas vou na direção Jabaquara, então tchau e boa sorte.” Deixei-o a cargo de um funcionário do metrô.

O trem para o Jabaquara já estava parando. Sentei num dos bancos cinza, reservado aos deficientes e idosos. Na estação São Bento entrou um senhor grisalho. Levantei e ofereci meu lugar. Ele se sentou, mas se levantou em seguida dizendo: “Espera aí, acho que o senhor é mais velho do que eu”. E ficamos naquela troca de gentilezas, os dois em pé, até que vagou outro assento.

Apertando minha mochila no peito para proteger os charutos, vim pensando nessa pequena aventura urbana (há décadas não ia ao centro) e me arrependi de ter largado o ceguinho de forma tão abrupta, sem sequer ter lhe apertado a mão ou esperado seu trem chegar. Medo? De que? De fazer nova amizade? De que me pedisse algo? Deveria ter ido ao Tucuruvi com ele, ter-lhe pago um café, oferecido um charuto, talvez, ouvido suas histórias, sua opinião sobre o senado, o Dunga..., afinal estou aposentado, não tinha nada urgente para fazer naquele resto de tarde. Além disso, nunca tinha tido chance de conversar com um cego - deve ser um barato entrar no mundo deles para saber do seu dia-a-dia, como levam a vida e conseguem ser tão otimistas, pelo menos aquele me parecia. Achei que com este meu modo apressadinho de fazer tudo correndo, chegar logo ao destino para sair em busca de outro, acabar uma coisa para começar outra, tinha perdido uma boa oportunidade de travar um relacionamento interessante, talvez ....

Desci na Vila Madalena, tomei uma água de coco na esquina e um café no Franz Café. Peguei um ônibus que ia para o Parque Continental, via Jaguaré, achando que ia passar perto de casa. Acabei descendo na Vila Leopoldina, bem mais longe do que esperava pois o ônibus fez um trajeto maluco, dando voltas e mais voltas.

E assim passei uma tarde de aposentado, sem pagar transporte e esbanjando um tempo que não tenho. Ou será que tenho? Corro tanto por quê? Como diz o MR, não adianta fugir, seu problema está dentro de você.

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