6 de junho de 2010

A Corvina

A CORVINA

Trabalhara pesado cortando grama e desbastando o hibisco da cerca. Suado e cansado, resolveu dar um mergulho para refrescar e relaxar os músculos.
Como não gostava de nadar por nadar, pegou seu equipamento de mergulho, prendeu a faca na perna, e foi caminhando em direção à praia.

Ao passar por uma casa em construção, antes de chegar ao córrego, ouviu risos e comentários de uns pedreiros, mas não entendeu o que diziam. Atravessou a praia caminhando até o costão em busca de água mais limpa, e da possibilidade de ver algum animal ou alga interessante – velho vício de naturalista, sempre curioso. Na semana anterior tinha visto uma lagosta, mas ficou com dó de pegar. Hoje, quem sabe?
Cruzou com umas crianças que tentavam bloquear com galhos e areia o fluxo do riacho que divide a praia. Os pais liam jornal e as mães lagarteavam ao sol, besuntadas de bronzeador.
O velho de barbas brancas, chapéu de palha, e equipamento de mergulho, chamava a atenção das poucas pessoas que estavam ali naquele sábado, final de férias. Estava mais pra velho-do-rio que pra lobo-do-mar.
O costão estava deserto, como sempre. Pôs seu chapéu sobre uma rocha mais alta, prendendo-o com uma pedra para o vento não levar, colocou as nadadeiras, a máscara, e o snorquel, e entrou na água afundando devagarinho. Deixou-se levar pela corrente e balançar ao léu pelas marolas. O mar estava tranquilo e a água clara e morna, relaxante. Cantarolava mentalmente “não sou eu quem me navega...”
Ao virar para a entrada do "Saco do Guaiá" um brilho metálico chamou sua atenção: uma corvina de uns dois quilos e debatia entre as pedras, desorientada. Tentou pegá-la, mas a bicha escorregava mais do que quiabo. Aos poucos foi tangendo-a para o banco de areia e conseguiu enfiar um dedo pelas suas guelras, prendendo-a firmemente. Saiu da água, quebrou um galho com forquilha, e fez uma fisga onde prendeu o peixe. A corvina se debatia desesperada e o sangue escorria das guelras, o que lhe deu pena; mas se consolou achando que ela morreria de qualquer jeito e pelo menos daria um bom jantar.
Nadou até a praia, arrastando o peixe, tirou o equipamento, e desfilou discretamente − mas orgulhoso − de volta pra casa. Crianças corriam atrás, e gritavam excitadas. A corvina, nos últimos estertores, brilhava ao sol com lampejos dourados. Um casal veio perguntar que peixe era aquele; um senhor largou o jornal e perguntou se queria vender – não quis.

No caminho de volta passou pelos pedreiros que, alertados por um rapaz magrelo que revolvia o reboque, vieram à rua e olharam incrédulos. “O senhor pegou no mergulho, com a faca?”, perguntou o jovem.

Respondeu, baixo e grave: “Peguei a tapa”. E nem parou, só ouviu o comentário: “O véio é fodão mesmo”.
A mulher, da cozinha, gritou: Ué, já voltou?
- Mulher veja o que peguei pro jantar!
- Tá brincando! Pegou como? Com as mãos? Comprou do Mesquita?
Ao explicar como pegara o peixe, ela o mandou jogar fora, e bem longe pra não feder.
- Ficou maluco? Este peixe tá doente.
- Estava se debatendo até agorinha. Deve ter escapado de alguma rede.
- Eu é que não como isto - nem amarrada.

Ficou aborrecido, mas desta vez não lhe deu ouvidos. Limpou, temperou, e assou o peixe, a despeito dos reclamos da mulher.
Estava uma delícia e ainda sobrou pro almoço do dia seguinte. Ela comeu um ovo frito.

Praia Vermelha do Sul, Jan. 2010

Nenhum comentário: