Galinhas na Marginal
Segunda-feira, manhã chuvosa, a Paulicéia se afogando no trânsito e eles nem aí. São as águas de março que rolam em vão, em busca de solos que possam bebê-las, e se avolumam aflitas nos baixios das avenidas, bloqueadas pelos bueiros entupidos de garrafas pet e sacos de plástico. Sampa soluça em mais uma inundação, o trânsito parado e a mídia malhando o prefeito de plantão, se deleitando com fotos dramáticas que vendem os noticiários do dia.
E os ciganos lá, indiferentes à fumaça dos ônibus e lotações clandestinas, amanheceram acampados na pseudo-praça, entre a marginal e a ponte do Jaguaré, rota para o sul e para o oeste.
São meia-dúzia de barracas, azuis, laranjas, pretas, um Monza, uma Brasília e dois fuscas remendados com peças de cores e modelos diversos. Devem ter chegado ontem à tarde. Acamparam às margens do Pinheiros, ainda um rio no seu papel de levar para longe os dejetos da cidade grande. Pobre rio, sem alma, e mal hálito!
Por aí também acamparam os bandeirantes junto ao Tietê, então transparente e piscoso, em busca de uma via que os ajudasse a ir fundo no continente, uma vereda para o oeste que penetrasse o desconhecido, onde escravizariam índios e garimpariam ouro e esmeraldas...
Da estação de trens suburbanos, em frente ao acampamento, descem magotes de gentes, vindas de Osasco, apressadas e tristes em busca das fábricas, da rotina de mais um dia, mais uma semana, mais um ano, uma década, para voltar à noite e esperar o trem que não vem, atrasado sempre, e uma melhoria de vida prometida nas eleições, que tarda, vem nunca.
Um menino de pijama de bolinhas azuis urina da porta da barraca, alheio aos transeuntes cabisbaixos que nem notam o acampamento; homens e mulheres conversam calmamente, sentados em banquetas de três pernas, ao redor de um foguinho mirrado onde passam café, pitam e cozinham alguma coisa para o desjejum. Alguns cachorros de raças indefinidas farejam os arredores, e um galo de briga multicor lidera algumas galinhas, que ciscam no gramado mal-cuidado.
Os ciganos seguem sua rotina, tranquilos, sem se perturbar com o burburinho nervoso, sem reparar nos carros importados, blindados, vidros escuros, roncando e soltando fumaça na marginal entupida; motoristas engravatados, nervosos, xingando os motoqueiros que deslizam por entre os veículos parados, batendo nos espelhos laterais.
De onde vieram estes ciganos, homens de bigodes espessos, velhos com brincos, mulheres com saias longas e coloridas, pulseiras chacoalhantes, e crianças felizes, pessoas? Ignoram o acessório, não sabem quem é a prefeita, que o Palmeiras perdeu ontem mais uma vez e pode ser rebaixado para a segunda divisão...
Tenho vontade de me achegar, tomar um café ralo puxando prosa e pedindo fogo; perguntar que rumo tomarão, onde será o próximo acampamento, se viajam por viajar, ou se pretendem chegar a algum destino...
Um dia ainda crio coragem, troco meu Vectra por uma Variant com bagageiro, compro uma lona usada, deixo a barba crescer e coloco um brinco, alheio aos progressos de tecnologias supérfluas, laptops, celulares, jornais, vejas, isto-és, deputados, ratinhos, faustões, hebes, pílulas mil, vitaminas, hormônios, viagras - spams, enfim, e sigo com eles, por aí, carregando os cachorros e as galinhas, vivendo a vida, que "a morte acontece mas só a vida existe".
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