Ano Novo
O som que vinha do outro lado da rua era insuportável – quase cinco horas da manhã e a festa seguia em ritmo de bate-estaca. Seu corpo estava pegajoso de suor e os pernilongos não davam trégua. “Fim de ano em Ubatuba é isto mesmo, e não aprendo, acabo sempre voltando para cá. Devíamos ter ficado em Sampa assistindo à São Silvestre”, falou pra mulher. Desistiu de tentar dormir, colocou um calção e saiu em direção à praia em busca de uma brisa e do silêncio.
A lua, embora de quarto, tinha luz suficiente para iluminar o caminho. Ao pisar na areia sentiu o cheiro de pólvora dos fogos queimados na virada do ano. Sentou-se numa espreguiçadeira esquecida na duna e ficou olhando a espuma das ondas pratejando a areia grossa da praia. Ouviu sussurros e viu dois vultos de branco que vinham em sua direção. Puxou a espreguiçadeira mais para cima de modo a passar despercebido na sombra projetada pela amendoeira - não estava afim de encontrar ninguém. Caminhavam devagar, de mãos dadas. Pararam, a uns trinta metros dele, abraçaram-se e estenderam uma tolha na areia fofa. Conseguia ouvir palavras soltas, mas não entendia bem o que diziam. Ele se deitou, ela se dirigiu devagar até onde as ondas se quebravam e caminhou pela espuma, para lá e para cá. Um pouco depois voltou e se aninhou ao lado dele.
Uma nuvem vagando para o leste cobiu a lua e uma sombra envolveu o casal. Mesmo assim percebeu um vulto se abaixando lentamente e se encaixando sobre o corpo deitado na toalha. Aguçou os ouvidos. Gemidos contidos se intercalavam com o marulhar ritimado das ondas. Vislumbrou sombras de um lento cavalgar. Amazona sobre cavalo marinho.
Constrangido pensou em recuar discretamente, mas foi ficando. Recolheu-se ainda mais na sombra da amendoeira com medo de ser visto, procurando controlar sua excitação. Os gemidos atingiram um crescendo. Gradualmente diminuíram e cessaram quando a lua voltou a brilhar.
O céu começou a clarear lá pelas bandas da ilha Anchieta e foi ficando cor de fogo, avermelhado, ofuscando o quarto crescente.
Uma brisa fresca começou a soprar do nascente. O casal levantou-se e entrou no mar sem tirar a roupa. Agora já era possível ver que ela era um pouco gorda, cabelos longos, encaracolados; o rapaz magro, alto, com barba. Chacoalharam a água do mar, abraçaram-se e saíram de mãos dadas, as roupas grudadas no corpo, voltando pelo caminho por onde vieram. Ao perceberem sua presença, ainda na cadeira de praia, ela deu um sorriso sem-graça e ele fez um aceno com a cabeça.
Ainda se sentia grudento e excitado. Tirou o calção, deu um mergulho, e voltou para casa, em busca de um café e um cigarro, matutando que os jovens não sabiam como era ser jovem.
30 de agosto de 2010
24 de agosto de 2010
Curtas
BIC
Ah, esta minha compulsão em roubar canetas. Vez em quando me surpreende e fico morrendo de vergonha. Roubo e perco. Ou será q me roubam? Não fosse assim teria milhares de bics. Por falar nisso, você conhece alguém q já comprou uma?
QUERO PORQUE QUERO
E o quero-quero lá, no meio da pista, impassível ao ronco ensurdecedor das turbinas, esticava o pescoço e dava de ombros, quero dizer de asas. Foi só quando o gigantesco Boeing projetou sua sombra sobre ele q se tocou, deu um pulinho para o lado e alçou vôo, displicente. Embora acostumado com a prepotência humana em invadir seu espaço aéreo, e terrestre, protestou alto com gritos esganiçados, inúteis, pensando lá com seus remígios “Ah esses homens: fingem q sabem voar. Não é à toa q vez em quando se esborracham”, e num vôo gracioso fez uma curva ampla, quase sem bater as asas, retornando para junto de sua companheira q zelava aflita pelos ovos pintalgados de verde no ninho raso.
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Ah, esta minha compulsão em roubar canetas. Vez em quando me surpreende e fico morrendo de vergonha. Roubo e perco. Ou será q me roubam? Não fosse assim teria milhares de bics. Por falar nisso, você conhece alguém q já comprou uma?
QUERO PORQUE QUERO
E o quero-quero lá, no meio da pista, impassível ao ronco ensurdecedor das turbinas, esticava o pescoço e dava de ombros, quero dizer de asas. Foi só quando o gigantesco Boeing projetou sua sombra sobre ele q se tocou, deu um pulinho para o lado e alçou vôo, displicente. Embora acostumado com a prepotência humana em invadir seu espaço aéreo, e terrestre, protestou alto com gritos esganiçados, inúteis, pensando lá com seus remígios “Ah esses homens: fingem q sabem voar. Não é à toa q vez em quando se esborracham”, e num vôo gracioso fez uma curva ampla, quase sem bater as asas, retornando para junto de sua companheira q zelava aflita pelos ovos pintalgados de verde no ninho raso.
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