30 de agosto de 2010

Ano Novo

Ano Novo

O som que vinha do outro lado da rua era insuportável – quase cinco horas da manhã e a festa seguia  em ritmo de bate-estaca. Seu corpo estava pegajoso de suor e os pernilongos não davam trégua. “Fim de ano em Ubatuba é isto mesmo, e não aprendo, acabo sempre voltando para cá. Devíamos ter ficado em Sampa assistindo à São Silvestre”, falou pra mulher. Desistiu de tentar dormir, colocou um calção e saiu em direção à praia em busca de uma brisa e do silêncio.

A lua, embora de quarto, tinha luz suficiente para iluminar o caminho. Ao pisar na areia sentiu o cheiro de pólvora dos fogos queimados na virada do ano. Sentou-se numa espreguiçadeira esquecida na duna e ficou olhando a espuma das ondas pratejando a areia grossa da praia. Ouviu sussurros e viu dois vultos de branco que vinham em sua direção. Puxou a espreguiçadeira mais para cima de modo a passar despercebido na sombra projetada pela amendoeira - não estava afim de encontrar ninguém. Caminhavam devagar, de mãos dadas. Pararam, a uns trinta metros dele, abraçaram-se e estenderam uma tolha na areia fofa. Conseguia ouvir palavras soltas, mas não entendia bem o que diziam. Ele se deitou, ela se dirigiu devagar até onde as ondas se quebravam e caminhou pela espuma, para lá e para cá. Um pouco depois voltou e se aninhou ao lado dele.
Uma nuvem vagando para o leste cobiu a lua e uma sombra envolveu o casal. Mesmo assim percebeu um vulto se abaixando lentamente e se encaixando sobre o corpo deitado na toalha. Aguçou os ouvidos. Gemidos contidos se intercalavam com o marulhar ritimado das ondas. Vislumbrou sombras de um lento cavalgar. Amazona sobre cavalo marinho.

Constrangido pensou em recuar discretamente, mas foi ficando. Recolheu-se ainda mais na sombra da amendoeira com medo de ser visto, procurando controlar sua excitação. Os gemidos atingiram um crescendo. Gradualmente diminuíram e cessaram quando a lua voltou a brilhar.
O céu começou a clarear lá pelas bandas da ilha Anchieta e foi ficando cor de fogo, avermelhado, ofuscando o quarto crescente.
Uma brisa fresca começou a soprar do nascente. O casal levantou-se e entrou no mar sem tirar a roupa. Agora já era possível ver que ela era um pouco gorda, cabelos longos, encaracolados; o rapaz magro, alto, com barba. Chacoalharam a água do mar, abraçaram-se e saíram de mãos dadas, as roupas grudadas no corpo, voltando pelo caminho por onde vieram. Ao perceberem sua presença, ainda na cadeira de praia, ela deu um sorriso sem-graça e ele fez um aceno com a cabeça.

Ainda se sentia grudento e excitado. Tirou o calção, deu um mergulho, e voltou para casa, em busca de um café e um cigarro, matutando que os jovens não sabiam  como era ser jovem.

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