Felicidade
Esta manhã tive um momento de graça, tão palpável que se
poderia pegar e apertar.Senti uma felicidade extrema, enchi os pulmões o mais
que pude e agradeci a Netuno em voz alta por sensação tão agradável.
Praia Vermelha do Sul, nove horas de uma manhã radiosa após
uma noite de chuva fina e do martelar incessante de uma orquestra de cururus só
quebrado pelo gemido lancinante de um urutau da mata atlântica, verdadeira alma
penada vazando sua tristeza.
Fomos para a ponta sul da praia, ainda deserta, água gostosa
de verão, transparente. Coloquei o short sobre uma pedra e entrei devagarzinho
na água, sentindo meus pêlos se arrepiarem ao contato da água com minha pele
aquecida pelo sol. Parei na zona de arrebentação, deixando as ondas estourarem
ora em meu peito, ora em minhas costas, tentando resistir, com os pés
firmemente fincados na areia grossa, o embate das ondas.
Pedro não quis ficar pelado. Corria pela praia sem direção,
dando gritos feito um louco, entrando no mar e tentando pegar jacarés. Gargalhava
de nada, acho que tão feliz quanto o “ vô Caco”, em seus seis anos.
Enchi os pulmões várias vezes, expirei e mergulhei. Ao sair
da água inclinei a cabeça para trás e a água penteou meus cabelos. Subi na
pedra e me sequei ao sol. Ao longe o primeiro turista pisou na areia. Coloquei
o short e saímos da praia pela trilha que vai paralela à praia, no meio da
restinga. Vinha mostrando as plantas para o Pedro. Um teiú, de bom tamanho,
entrou na trilha alguns metros na nossa frente. Olhou para nós de soslaio e
atravessou a trilha com dignidade, entrando na vegetação mais densa - apertou o
passo mas não correu, o corajoso, senhor de seus domínios. Expliquei ao Pedro que
o teiú não nos faria mal, e ele retrucou: - eu sei os bichos podem ser
perigosos, mas não são malvados.
Alguma árvore, que não consegui identificar, um ‘bastão”,
talvez, exalava um perfume doce.
Numa clareira vimos vários marimbondos gigantes, destes
azulados, com reflexos metálicos, que caçam caranguejeiras. Estavam alvoroçados
e zumbiam e voavam por todos os lados. Expliquei que não nos picariam se não
tentássemos pegá-los. Devia ser época de reprodução porque vimos dois copulando;
engatados tentavam voar e caiam; nem ligaram quando chegamos bem perto para ver
como estavam engatados.
Pedro andava descalço. Já estava com a sola do pé calejada,
e se orgulhava de pisar nas pedrinhas e espinhos sem sentir dor. Ia na frente
para mostrar que sabia o caminho de volta para casa. O café já deveria estar
pronto e eu pensava no meu cigarrinho de palha matinal.
Estes momentos de felicidade podem ser intensos, mas são
fugazes. Duas horas depois já não me lembrava dele. A tristeza veio na praia da
Fortaleza, sentados na escada do terraço, junto à velha colméia de Jataí que
persistia no mesmo local por mais de 30 anos, enquanto a vó Guga selecionava
objetos para levar para a casa nova da praia Vermelha tendo descartado várias
coisas que Pedro e eu havíamos pegado: - não quero lixo na casa nova!,
sentenciou.
Pedro encostou a cabeça no meu ombro. Perguntei se estava
sorumbúsio ou macambático, e ele respondeu o que eu estava pensando: - gosto
mais da casa velha que da nova. Foi daí que fiz uma proposta infeliz que deixou
a vó Guga muito triste: - Você fica com a casa nova e eu com a velha. Proposta
apoiada entusiasticamente pelo Pedro. Percebi que tinha dito algo que não devia
– ela investiu tanto tempo e carinho na casa nova e deve ter sentido um grande
vazio. Só agora percebi que embora ela tenha feito o que lhe deu na telha,
tudo, nos mínimos detalhes como queria, sem aceitar palpite de ninguém, ela não
fez a casa para ela, mas para todos nós. Dava gosto ver o prazer com que ela
mostrava a casa para cada amigo e parente que chegava. Esta frase infeliz
acabou com a paz doméstica que vinha reinando em Ubatuba.
Voltamos para a Praia Vermelha com os “bagulhos”
selecionados da Fortaleza. Sentados na rede, em silêncio, vimos a noite chegar,
pouco a pouco. O vôo alto das últimas andorinhas que riscavam o céu em linhas quebradas
deu lugar ao vôo baixo e titubeante dos morcegos que davam rasantes no gramado,
em frente ao deque do terraço. O urutau deu seu primeiro e longo gemido e os
sapos iniciaram mais uma noite de martelação. Pedro viu o primeiro vagalume.
Com o escurecer os vagalumes se tornaram mais visíveis. Já era hora de tomar a
primeira birita antes do jantar.
Praia Vermelha 2007