29 de abril de 2013

Crônica do sapato de camurça



Crônica do sapato de camurça

Ontem acordei com o barulho de um caminhão “leva-caçamba”que remove o entulho da casa do vizinho, em reforma. Apesar do frio não consegui ficar na cama, uma angustia, ... como todas, inexplicável pois tudo parecia estar nos conformes ...
Subi numa cadeira para, afinal, guardar na parte mais alta do guarda-roupa uma mala que há tempos estava jogada num canto desde a última viagem, tempos atrás. Ao abrir a porta dei de cara com um par de calçados de camurça, beije, solado de couro, arrumadinho num canto da prateleira. Tive a impressão de que ele me “olhou” com uma cara de tristeza. Há quantos anos estava lá, fechado, no escuro. Acho que o comprei muitos anos atrás quando fui fazer uma palestra em Concepción. Acontece que já há muitos anos uso tênis1, não um, mas vários: um para subir montanhas (travado); um para jogar tênis, propriamente (solado liso); um molhável para canoar (vazado); um para correr (com amortecedor)... - Santa invenção. O pior é que causa uma dependência habilmente explorada pelas Nike, Adidas e tantas outras que, dizem, exploram trabalho de crianças no terceiro mundo, vai saber...
Pois é, resolvi levar o pobre calçado para tomar ares e ver os arredores do Boaçava que mudaram muito nos últimos anos. Fomos, eu e o camurça, comprar pão na padaria Santa Ethiène, à pé, é claro, para que ele tirasse maior proveito do passeio, quase aventura após tanto tempo de inatividade.
Ao amarrar bem os cadarços lembrei do tio Zé-Petrowich e do curtume que minha família tinha em Jaboticabal. Não sei se com razão, ou porque antecipasse possíveis problemas de mercado para a famosa sola de sapato fabricada no “Curtume Cerradinho”, tio Zé vivia apregoando aos quatro ventos os malefícios dos calçados com solados de borracha recém lançados no mercado. Quem precisa de sapatos com solado de borracha são os gatunos, que andam sorrateiros pelos telhados, como os ‘Meneghetti’. E completava com razões mais objetivas: “o couro respira, os pés precisam respirar, não podem ficar sufocados numa borracha impermeável que dá frieira e um chulé nauseabundo ...”. Hoje lhe diria que os tênis modernos também respiram, até mais que o couro, além de muitas outras vantagens. Isso tudo sem falar nas pobres vacas assassinadas que não têm nada a ver com pés-de-atleta ... Mas, não alardeio isso mundo afora que não sou bobo de colocar azeitonas na empadinha das nikes.
Decisão tomada, escolhi uma daquelas meias de seda que já não se usam mais, perdidas no fundo da gaveta, calcei os sapatos com sola e salto de couro, já disse – salto mesmo. Imaginem! Não sem dificuldade porque minha mulher descartou uma velha calçadeira. Saí pisando duro nas pedras da rua como um burro picaço. A cada passo um barulho, um impacto e uma quase emoção, André de sapato novo. Percebi que o sapato estava apertado no pé esquerdo mas folgado no direito, vai entender; detalhe que não percebia com os tênis. Parece que isso corrobora uma estória que ouvi de que algumas partes do corpo crescem com o passar dos anos (outras, sei de experiência própria diminuem: já encolhi 5 cm nos meus 75 anos; enquanto outras se tornam flácidas ... deixa pra lá, coisas da vida).
Com um certo desconforto e estranhamento pelo ruído cadenciado de meu pisar, cheguei à padaria. Comprei uma baguete com semente de gergelim, voltei marchando para a casa e guardei o camurça no seu devido local com palavras duras: “meu caro amigo, espero que você tenha desfrutado de seu último passeio – frisei último! Mas, não vou descartá-lo de imediato – vou aguardar a campanha do agasalho no próximo inverno”.
Tio Zé que me perdoe, mas ...

1NE: Tênis – calçado inventado em 1873 (sneakers) especialmente para jogar tênis, o esporte, em quadras de saibro para não esburacar o piso nas brecadas violentas que os tenistas dão para não bater na rede ao rebaterem uma ‘deixada’ do adversário.

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