Crônica do sapato de camurça
Ontem acordei com o barulho de um caminhão “leva-caçamba”que
remove o entulho da casa do vizinho, em reforma. Apesar do frio não consegui
ficar na cama, uma angustia, ... como todas, inexplicável pois tudo parecia
estar nos conformes ...
Subi numa cadeira para, afinal, guardar na parte mais alta
do guarda-roupa uma mala que há tempos estava jogada num canto desde a última
viagem, tempos atrás. Ao abrir a porta dei de cara com um par de calçados de
camurça, beije, solado de couro, arrumadinho num canto da prateleira. Tive a
impressão de que ele me “olhou” com uma cara de tristeza. Há quantos anos
estava lá, fechado, no escuro. Acho que o comprei muitos anos atrás quando fui fazer
uma palestra em Concepción. Acontece que já há muitos anos uso tênis1,
não um, mas vários: um para subir montanhas (travado); um para jogar tênis,
propriamente (solado liso); um molhável para canoar (vazado); um para correr (com
amortecedor)... - Santa invenção. O pior é que causa uma dependência habilmente
explorada pelas Nike, Adidas e tantas outras que, dizem, exploram trabalho de
crianças no terceiro mundo, vai saber...
Pois é, resolvi levar o pobre calçado para tomar ares e ver
os arredores do Boaçava que mudaram muito nos últimos anos. Fomos, eu e o camurça,
comprar pão na padaria Santa Ethiène, à pé, é claro, para que ele tirasse maior
proveito do passeio, quase aventura após tanto tempo de inatividade.
Ao amarrar bem os cadarços lembrei do tio Zé-Petrowich e do
curtume que minha família tinha em Jaboticabal. Não sei se com razão, ou porque
antecipasse possíveis problemas de mercado para a famosa sola de sapato
fabricada no “Curtume Cerradinho”, tio Zé vivia apregoando aos quatro ventos os
malefícios dos calçados com solados de borracha recém lançados no mercado. Quem
precisa de sapatos com solado de borracha são os gatunos, que andam sorrateiros
pelos telhados, como os ‘Meneghetti’. E completava com razões mais objetivas: “o
couro respira, os pés precisam respirar, não podem ficar sufocados numa borracha
impermeável que dá frieira e um chulé nauseabundo ...”. Hoje lhe diria que os
tênis modernos também respiram, até mais que o couro, além de muitas outras
vantagens. Isso tudo sem falar nas pobres vacas assassinadas que não têm nada a
ver com pés-de-atleta ... Mas, não alardeio isso mundo afora que não sou bobo
de colocar azeitonas na empadinha das nikes.
Decisão tomada, escolhi uma daquelas meias de seda que já
não se usam mais, perdidas no fundo da gaveta, calcei os sapatos com sola e
salto de couro, já disse – salto mesmo. Imaginem! Não sem dificuldade porque
minha mulher descartou uma velha calçadeira. Saí pisando duro nas pedras da rua
como um burro picaço. A cada passo um barulho, um impacto e uma quase emoção,
André de sapato novo. Percebi que o sapato estava apertado no pé esquerdo mas
folgado no direito, vai entender; detalhe que não percebia com os tênis. Parece
que isso corrobora uma estória que ouvi de que algumas partes do corpo crescem
com o passar dos anos (outras, sei de experiência própria diminuem: já encolhi
5 cm nos meus 75 anos; enquanto outras se tornam flácidas ... deixa pra lá,
coisas da vida).
Com um certo desconforto e estranhamento pelo ruído
cadenciado de meu pisar, cheguei à padaria. Comprei uma baguete com semente de
gergelim, voltei marchando para a casa e guardei o camurça no seu devido local
com palavras duras: “meu caro amigo, espero que você tenha desfrutado de seu
último passeio – frisei último! Mas, não vou descartá-lo de imediato – vou
aguardar a campanha do agasalho no próximo inverno”.
Tio Zé que me perdoe, mas ...
1NE: Tênis
– calçado inventado em 1873 (sneakers) especialmente para jogar tênis, o esporte,
em quadras de saibro para não esburacar o piso nas brecadas violentas que os
tenistas dão para não bater na rede ao rebaterem uma ‘deixada’ do adversário.
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