30 de abril de 2013

Casa Nova e Casa Velha



Felicidade

Esta manhã tive um momento de graça, tão palpável que se poderia pegar e apertar.Senti uma felicidade extrema, enchi os pulmões o mais que pude e agradeci a Netuno em voz alta por sensação tão agradável.
Praia Vermelha do Sul, nove horas de uma manhã radiosa após uma noite de chuva fina e do martelar incessante de uma orquestra de cururus só quebrado pelo gemido lancinante de um urutau da mata atlântica, verdadeira alma penada vazando sua tristeza.
Fomos para a ponta sul da praia, ainda deserta, água gostosa de verão, transparente. Coloquei o short sobre uma pedra e entrei devagarzinho na água, sentindo meus pêlos se arrepiarem ao contato da água com minha pele aquecida pelo sol. Parei na zona de arrebentação, deixando as ondas estourarem ora em meu peito, ora em minhas costas, tentando resistir, com os pés firmemente fincados na areia grossa, o embate das ondas.
Pedro não quis ficar pelado. Corria pela praia sem direção, dando gritos feito um louco, entrando no mar e tentando pegar jacarés. Gargalhava de nada, acho que tão feliz quanto o “ vô Caco”, em seus seis anos.
Enchi os pulmões várias vezes, expirei e mergulhei. Ao sair da água inclinei a cabeça para trás e a água penteou meus cabelos. Subi na pedra e me sequei ao sol. Ao longe o primeiro turista pisou na areia. Coloquei o short e saímos da praia pela trilha que vai paralela à praia, no meio da restinga. Vinha mostrando as plantas para o Pedro. Um teiú, de bom tamanho, entrou na trilha alguns metros na nossa frente. Olhou para nós de soslaio e atravessou a trilha com dignidade, entrando na vegetação mais densa - apertou o passo mas não correu, o corajoso, senhor de seus domínios. Expliquei ao Pedro que o teiú não nos faria mal, e ele retrucou: - eu sei os bichos podem ser perigosos, mas não são malvados.
Alguma árvore, que não consegui identificar, um ‘bastão”, talvez, exalava um perfume doce.
Numa clareira vimos vários marimbondos gigantes, destes azulados, com reflexos metálicos, que caçam caranguejeiras. Estavam alvoroçados e zumbiam e voavam por todos os lados. Expliquei que não nos picariam se não tentássemos pegá-los. Devia ser época de reprodução porque vimos dois copulando; engatados tentavam voar e caiam; nem ligaram quando chegamos bem perto para ver como estavam engatados.
Pedro andava descalço. Já estava com a sola do pé calejada, e se orgulhava de pisar nas pedrinhas e espinhos sem sentir dor. Ia na frente para mostrar que sabia o caminho de volta para casa. O café já deveria estar pronto e eu pensava no meu cigarrinho de palha matinal.
Estes momentos de felicidade podem ser intensos, mas são fugazes. Duas horas depois já não me lembrava dele. A tristeza veio na praia da Fortaleza, sentados na escada do terraço, junto à velha colméia de Jataí que persistia no mesmo local por mais de 30 anos, enquanto a vó Guga selecionava objetos para levar para a casa nova da praia Vermelha tendo descartado várias coisas que Pedro e eu havíamos pegado: - não quero lixo na casa nova!, sentenciou.
Pedro encostou a cabeça no meu ombro. Perguntei se estava sorumbúsio ou macambático, e ele respondeu o que eu estava pensando: - gosto mais da casa velha que da nova. Foi daí que fiz uma proposta infeliz que deixou a vó Guga muito triste: - Você fica com a casa nova e eu com a velha. Proposta apoiada entusiasticamente pelo Pedro. Percebi que tinha dito algo que não devia – ela investiu tanto tempo e carinho na casa nova e deve ter sentido um grande vazio. Só agora percebi que embora ela tenha feito o que lhe deu na telha, tudo, nos mínimos detalhes como queria, sem aceitar palpite de ninguém, ela não fez a casa para ela, mas para todos nós. Dava gosto ver o prazer com que ela mostrava a casa para cada amigo e parente que chegava. Esta frase infeliz acabou com a paz doméstica que vinha reinando em Ubatuba.
Voltamos para a Praia Vermelha com os “bagulhos” selecionados da Fortaleza. Sentados na rede, em silêncio, vimos a noite chegar, pouco a pouco. O vôo alto das últimas andorinhas que riscavam o céu em linhas quebradas deu lugar ao vôo baixo e titubeante dos morcegos que davam rasantes no gramado, em frente ao deque do terraço. O urutau deu seu primeiro e longo gemido e os sapos iniciaram mais uma noite de martelação. Pedro viu o primeiro vagalume. Com o escurecer os vagalumes se tornaram mais visíveis. Já era hora de tomar a primeira birita antes do jantar.
Praia Vermelha 2007

29 de abril de 2013

Crônica do sapato de camurça



Crônica do sapato de camurça

Ontem acordei com o barulho de um caminhão “leva-caçamba”que remove o entulho da casa do vizinho, em reforma. Apesar do frio não consegui ficar na cama, uma angustia, ... como todas, inexplicável pois tudo parecia estar nos conformes ...
Subi numa cadeira para, afinal, guardar na parte mais alta do guarda-roupa uma mala que há tempos estava jogada num canto desde a última viagem, tempos atrás. Ao abrir a porta dei de cara com um par de calçados de camurça, beije, solado de couro, arrumadinho num canto da prateleira. Tive a impressão de que ele me “olhou” com uma cara de tristeza. Há quantos anos estava lá, fechado, no escuro. Acho que o comprei muitos anos atrás quando fui fazer uma palestra em Concepción. Acontece que já há muitos anos uso tênis1, não um, mas vários: um para subir montanhas (travado); um para jogar tênis, propriamente (solado liso); um molhável para canoar (vazado); um para correr (com amortecedor)... - Santa invenção. O pior é que causa uma dependência habilmente explorada pelas Nike, Adidas e tantas outras que, dizem, exploram trabalho de crianças no terceiro mundo, vai saber...
Pois é, resolvi levar o pobre calçado para tomar ares e ver os arredores do Boaçava que mudaram muito nos últimos anos. Fomos, eu e o camurça, comprar pão na padaria Santa Ethiène, à pé, é claro, para que ele tirasse maior proveito do passeio, quase aventura após tanto tempo de inatividade.
Ao amarrar bem os cadarços lembrei do tio Zé-Petrowich e do curtume que minha família tinha em Jaboticabal. Não sei se com razão, ou porque antecipasse possíveis problemas de mercado para a famosa sola de sapato fabricada no “Curtume Cerradinho”, tio Zé vivia apregoando aos quatro ventos os malefícios dos calçados com solados de borracha recém lançados no mercado. Quem precisa de sapatos com solado de borracha são os gatunos, que andam sorrateiros pelos telhados, como os ‘Meneghetti’. E completava com razões mais objetivas: “o couro respira, os pés precisam respirar, não podem ficar sufocados numa borracha impermeável que dá frieira e um chulé nauseabundo ...”. Hoje lhe diria que os tênis modernos também respiram, até mais que o couro, além de muitas outras vantagens. Isso tudo sem falar nas pobres vacas assassinadas que não têm nada a ver com pés-de-atleta ... Mas, não alardeio isso mundo afora que não sou bobo de colocar azeitonas na empadinha das nikes.
Decisão tomada, escolhi uma daquelas meias de seda que já não se usam mais, perdidas no fundo da gaveta, calcei os sapatos com sola e salto de couro, já disse – salto mesmo. Imaginem! Não sem dificuldade porque minha mulher descartou uma velha calçadeira. Saí pisando duro nas pedras da rua como um burro picaço. A cada passo um barulho, um impacto e uma quase emoção, André de sapato novo. Percebi que o sapato estava apertado no pé esquerdo mas folgado no direito, vai entender; detalhe que não percebia com os tênis. Parece que isso corrobora uma estória que ouvi de que algumas partes do corpo crescem com o passar dos anos (outras, sei de experiência própria diminuem: já encolhi 5 cm nos meus 75 anos; enquanto outras se tornam flácidas ... deixa pra lá, coisas da vida).
Com um certo desconforto e estranhamento pelo ruído cadenciado de meu pisar, cheguei à padaria. Comprei uma baguete com semente de gergelim, voltei marchando para a casa e guardei o camurça no seu devido local com palavras duras: “meu caro amigo, espero que você tenha desfrutado de seu último passeio – frisei último! Mas, não vou descartá-lo de imediato – vou aguardar a campanha do agasalho no próximo inverno”.
Tio Zé que me perdoe, mas ...

1NE: Tênis – calçado inventado em 1873 (sneakers) especialmente para jogar tênis, o esporte, em quadras de saibro para não esburacar o piso nas brecadas violentas que os tenistas dão para não bater na rede ao rebaterem uma ‘deixada’ do adversário.

22 de abril de 2013

JUVENTUD

JUVENTUD

- Yo tengo 86 años. No de edad sino de juventud. La mayoria de mis amigos ya se fueron o estan internados em asilos, y yo acá, mui bien y feliz. Todo depende de como llevas la vida. Tu vida.

Tenia una boina a la “Che”, y vestia un traje esporte, con corbata de lazo, y zapatillas Adidas de las mas modernas; barba blanca bien pareja y cabellos negros, teñidos tal vez.
Mui galante y convencido de sus habilidades, hablava con toda la gente en busca de
elogios. Gran parte de los amigos habia partido, otros estaban internados en asilos -
repetia a quien quisiera oir. Pero el no! Estaba muy bien y lúcido, viajaba solo a
visitar las hijas y nietos.

-? Y que vas hacer en Santiago? preguntó la señora que estaba adiante en la cola.
- No señora: voy a Lima visitar mi hija mayor.
- Pero de esta puerta sale el vuelo para Santiago, contestó la señora. Dejeme ver su
boarding pass. Si verdad, estás en otro vuelo de la compañia LAN.

La señora llamó a un empleado quien informó al viejito, ya sin su sonriza, que el estaba en la puerta equivocada. El vuelo para Lima ya habia partido hacia rato del gate 22.

- ?Señor Ferreira, usted no oió que llamaban por su nombre insistentemente?
El viejito se quedó aludiendo que los aeropuertos de Brasil eran una mierda total. Que siempre hacian estas cagadas. Pidió ayuda para llamar su hija en que lo fuera a buscar en Guarulhos, pero no conseguia se recordar el número del telefono.

La señora comentó con el empleado que la hija no deberia haber dejado a su papa sin
asistencia en el aeropuerto. Tomó su equipage de mano y atravesó la puerta de embarque 24 para el vuelo LAN 759 rumbo a Santiago

Manteiga com margarina

MANTEIGA COM MARGARINA

Amaury alisou com esmero as duas faces da palha de milho com seu durindana afiado, dobrou-a ao meio e prendeu-a entre os dedos da mão esquerda enquanto, com rara habilidade, picava, bem fininho, um pedaço de fumo tietê. Após desfiar bem o fumo enrolou um paiero caprichado, que foi devidamente lambido. Protegendo a chama do fósforo com a concha da mão esquerda acendeu o cigarro e deu a primeira tragada - o cheiro do tietê rescendeu por toda a varanda. Encheu um copinho, jogou um pouco pro santo, deu uma golada e fez hummm, satisfeito. Esticando as pernas e colocando as mãos por trás da cabeça continuou o papo:
- Pois é cumpadi, (tinha essa mania de se pretender caipira) como lhe dizia, meu nono comia na pura banha de porco, temperava salada com banha derretida e fumava como uma chaminé. Morreu com 89 anos. Naquele tempo colesterol não dava infarto e pitar não dava câncer.
Antes que eu respondesse emendou:
- Mas também não se usava fogão a gás e nem panela de alumínio. Tô achando que essas doenças modernas são causadas pelo gás de cozinha - sempre vaza um pouco ... Ou será o alumínio?
Ao ver minha cara de pouco caso continuou:
- Uai, num foi ocê mesmo que me disse que o alumínio é um metal pesado? Outro dia li nas Seleções que tá provado que metal pesado faz um mal danado. Ocê não acha que comer um pouquinho de alumínio, dia após dia, não acabará endurecendo as artérias? Depois que li isto parei de tomar cerveja em latinha. Pra mim cerveja tem que ser em garrafa de vidro, casco escuro. Bão, se não tiver... aí vai qualquer uma.
Após ouvir tanta abobrinha retruquei que acreditar em tudo que saía nas Seleções era muita ingenuidade.
- Se você estivesse mais atualizado saberia que tá provado e reprovado que o infarto do miocárdio está fortemente correlacionado com o nível de colesterol no sangue. Todo mundo sabe disso, menos você que continua comendo torresminho!
Amaury não era fácil e voltou à carga:
- Mas ocê não sabia que quem inventou esta história de colesterol foram os produtores de óleo de soja? O cultivo de soja acabou com os cerrados do Brasil Central e, é claro, com os tamanduás e o lobo guaraná, como fala meu neto. Com tanta lavoura era preciso aumentar o consumo de óleo e aí inventaram a tal da margarina que nada mais é que um óleo engrossado. Me diga aí, quem iria trocar uma boa manteiga, daquelas bem amarelinhas por esta banha vegetal? Ainda se tivesse uma crise de manteiga a margarina quebraria o galho. Mas não é o caso, há leite de sobra. Acontece, porém, que os gaúchos produziram tanta soja no Mato Grosso que não acabava mais. E daí, quem iria comer esta bosta de gordura vegetal? Não bastava dizer que ela se espalha mais fácil pelo pão, mesmo nesta porcaria de pão de fôrma sem casca. Era preciso algo mais pra vender esta pasta desbotada. Acho que algum 'duda da vida' teve a grande idéia de dizer que manteiga faz mal. Imagine uma besteira destas! Então eles pensaram: manteiga deve fazer mal pra alguma coisa. Coisa séria como câncer, dar infarto, atacar esta tal de próstata ... É claro que manteiga tem que fazer mal! Tudo faz mal, até o bom e doce açúcar. Água, em excesso, pode dar barriga d´água e até afogar .... Aí estava a chave pra vender margarina. Bastava contratar uns cientistas americanos, ou mesmo da UNICAMP, umas cobaias dessas que morrem facinho-facinho, e pronto, noves-fora tava demonstrado que manteiga tem colesterol, o que aliás todo mundo já sabia. Daí a mostrar que alguns caras que morreram do coração tinham as veias entupidas de gordura foi moleza. Usaram como exemplo até um cano de pia de cozinha entupido. A coisa foi muito bem feita; os cientistas logo mostraram que os vegetais não têm colesterol. Eu li nas Seleções. A soja é vegetal, viva a margarina, danem-se os pecuaristas ...
- Vá lá Amaury, o que você disse não deixa de ter uma certa lógica, mas ...
- É claro que tem. Você já pensou nos porcos e nas galinhas? Eles comem milho e soja, que não têm colesterol, e produzem banha e ovos, puro colesterol, como é que pode?
- É compadre, a coisa tá complicando, melhor tomar mais uma cangibrina e falar de galo de briga. Aliás, você conseguiu tirar algum filho daquele galo puva marombeiro do Zé da Bica? Eita galo bom sô!
- Afinou.
- Aquele galo?
- Não, ocê, que é todo estudado e não sabe de nada.