Uma toalha
Ficou pálida quando ele perguntou por que havia duas toalhas no chão do banheiro. Após uns segundos, que duraram uma eternidade, respondeu com voz trêmula: “Parece que você está mais preocupado em saber se alguém usou sua toalha do que se usou sua mulher”, e chorando se trancou no banheiro batendo a porta.
A toalha mal explicada foi a gota d´água que os levou a um processo de separação.
Na noite anterior ela não quis passar o final de semana na casa da praia alegando que tinha muitas provas para corrigir. Ele jogou suas coisas no banco de trás do carro e saiu de mal humor.
Foi só quando estava perto da estradinha de terra que dá acesso ao condomínio do Mangue Verde que se deu conta de que tinha esquecido o lap-top. Ficou aborrecido com sua falta de atenção – mais um sinal de que estava envelhecendo, pensou.
Ligou para se certificar de seu esquecimento quando já era quase meia-noite. Estranhou quando ela demorou para atender a ligação. A voz dela denotava uma certa agitação, tendo por fundo uma salsa cubana em alto volume, logo diminuído. “Ah, é você, a esta hora?” A mulher confirmou que o computador estava na mesa da sala. Desligou o telefone intrigado, perguntando-se como ela podia se concentrar na correção de uma prova com uma música daquelas? Devia ser isto que o deixara com a pulga atrás da orelha a noite toda. Mas, como de hábito, não deu muita importância, que se fôda, pensou.
Sábado cedo voltou para buscar o computador. Ao abrir o portão dos fundos irritou-se ao ver a cachorra presa na guia e notou que havia uma garrafa de “pró-seco” no lixo da cozinha. Soltou a cachorra e subiu até o quarto galgando os degraus de dois em dois. Abriu a porta do quarto sem bater, ofegante. Ela ainda dormia, nua, atravessada sobre alguns travesseiros, a cama em grande desordem, almofadas e colcha no chão, a capa do Buena Vista Social Club caída ao lado do toca-CDs.
Acordou assustada com a presença dele no quarto. Ao perguntar por que a cachorra passara a noite presa ela resmungou qualquer coisa que ele não entendeu. Perguntou sobre o vinho e ouviu que uma amiga aparecera para uma visita de surpresa, pediram uma pizza e tomaram o vinho. Ele fez uma cara de desconfiança pensando que pizzarias “delivery” não tinham vinhos italianos, mas não se dignou perguntar quem era a amiga. Entrou no banheiro e viu as toalhas.
Quando ela se trancou no banheiro, chorando, ficou tentado a examinar o lençol em busca de alguma marca suspeita, mas não teve coragem. Achou humilhante demais, e uma eventual confirmação o faria perder o auto-controle. Melhor a dúvida.
Fechou a porta do quarto com um ponta-pé, pegou o lap-top e voltou para a casa da praia. Ligou para a secretária mas o celular dela estava na caixa postal. Que merda! Passou o final da semana caminhando pela praia, bebendo e fumando, sem conseguir trabalhar no relatório que tinha que entregar na segunda feira. O ciúme roendo seus miolos – sensação nova pra ele que se achava imune a sentimentos possessivos.
Pensando bem suas suspeitas sobre a infidelidade dela pairavam no ar há algum tempo. Não fez conta, achando que isto lhe daria mais liberdade em suas relações paralelas com a secretária, recém separada, e uma ex-namorada dos tempos de colégio com quem saía ocasionalmente. Tinha certeza que ela sabia de seu caso com a secretária. Fazia vista grossa, acomodada com a situação.
Só agora começou a juntar coisa com coisa. Lembrou que de uns tempos para cá ela parecia mais alheia às suas observações e mais cordata em aceitar suas desculpas esfarrapadas quando ele chegava tarde e muito cansado às sextas feiras, indo direto para o banho. Ela dera para ouvir Djavans, Caetanos e até Roberto Carlos; os atrasos dela ao voltar da universidade se tornaram mais freqüentes e as explicações mais vagas; andava arredia na cama, desinteressada de carinhos. Além disso deu para tomar banho de sol nua na sacada do jardim nos finais de semana quando a empregada e os filhos não estavam. Dizia que não gostava de marcas de maiô.
É , relaxara, tinha que admitir. Mas, uma separação não estava em seus planos, pelo menos a curto prazo. Pensou que se não fosse sua pergunta sobre as toalhas a relação entre eles poderia continuar no mesmo passo por mais algum tempo. Já estava acostumado com a rotina, o salário dela era melhor que o seu ...
Agora o caldo entornara e não dava mais pra segurar. O que o deixara mais puto foi a coragem dela. Justo ela, que parecia uma recatada madame mineira, tão fina e elegante. Trazer alguém pra sua casa e transar na própria cama era demais, inaceitável. Nem ele ousara tanto. Quem seria o canalha? Devia ser o cretino daquele antigo namorado, o guitarrista.
Segunda cedo voltou pra casa decidido e lhe disse: - “se nos separarmos numa boa nem vou investigar quem esteve aqui com você sábado à noite. Mas, fico com a casa da praia e o veleiro – você não gosta muito de mar mesmo. Agora se você começar com muitas exigências, advogados, pensão, etc. vou escancarar o escândalo e brigar pela guarda das crianças. Quero ver a cara de seu pai e do seu irmão ...”.
O divórcio correu sem traumas. Como dizia o velho Woody: - “há casamentos que terminam bem. Outros duram a vida toda.”
Pensou que seu compadre tinha razão: nunca entenderemos as mulheres. Deve ser o tal do duplo cromossomo X. Ela sempre aceitara sua prevaricação, mas ele não admitia a dela. É aquela velha história, os homens são poligâmicos por natureza, as mulheres não, é um de cada vez. O problema é que o que começa com uma transa inocente acaba em paixão - aí é que mora o perigo. Quem poderia pensar que ela se entregaria tão facilmente, por uma toalha molhada. Poderia ter inventado qualquer desculpa, qualquer bobagem e o assunto seria arquivado. Que falta de prática! Maldita toalha, maldito lap-top. Agora teria que organizar uma nova vida e seria difícil escapar da secretária. Não teria mais desculpas para não ir morar com ela. Merda!
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