12 de novembro de 2010

Passamento

Passamento

Minha mulher acha q tenho mania de morte, minha irmã acha q estou procurando a morte.
Nada disso. Sei lá, talvez esteja obcecado pela morte, mas, no bom sentido, quero dizer, a morte me fascina, como uma grande aventura. Q aventura maior poderá existir? Tive uma vida, sonhei, realizei talvez até mais do q sonhei por ser intrinsecamente modesto, acho, herança da dona Martha.

Algumas pessoas disseram q me acham muito corajoso, não como elogio, mais como crítica, corro riscos desnecessários, um jogador – respondo q nesta idade posso correr riscos e q minha coragem vem exatamente de saber q sou mortal. Outras dizem q sou "desapegado", o q dá no mesmo, apenas consciência da minha transitoriedade e insignificância.

“Venho me preparando para a morte”, é isto q vou responder quando alguém me perguntar o q ando fazendo, além, é claro, q en passant, meanwhile, vou fazendo otras cositas q me agradam pois não penso na morte em tempo integral, embora não a perca de vista como meta. A linha de raciocínio por trás de tudo isso é q me preparando terei uma passagem mais tranqüila, i. e., uma “boa morte” q no fundo é a morte q é recebida como opção aceitável numa dada circunstância da vida.

A mãe acreditava em almas – um dia me disse: "posso morrer a qualquer momento porq metade das pessoas q gosto está viva, a outra metade já morreu - irei encontrar seu pai, minha mãe, ..." Acho q ela não morreu, apenas parou de viver, se mudou.

Tenha uma boa morte era um desejo q se expressava para uma pessoa querida. É isso q quero ouvir a cada aniversário.

Barra da Lagoa, 25/Set/2010 – n.m. in c.

Nenhum comentário: