13 de julho de 2010

Às voltas com o pó

ÀS VOLTAS COM O PÓ

Elsa sempre quis ser cremada. Não queria ir de jeito nenhum para o jazigo da família. A burocracia “crematória” foi mais complicada do que eu imaginara, mas não tinha como não atender ao seu último desejo – fora uma esposa excepcional durante o curto tempo que durara nosso casamento.
É, a vida tem destas coisas! Aparentemente uma saúde de ferro que se esvaiu rapidamente em uma septicemia até hoje não bem explicada pelos médicos.

Agora era deixar a tristeza de lado e tocar viola, quero dizer, a vida. Quero ver se é verdade que “mulher a gente encontra em toda parte”, como dizia o poeta. Não tenho filhos, estou bem de vida e de saúde (cala-te boca), e vou tentar afogar a falta que ela me faz aceitando as cantadas que venho recebendo de ex-namoradas e até de amigas dela.

Mas, antes, preciso resolver um probleminha que ainda me incomoda: as cinzas. Não consigo tirar os olhos daquela urna indiana sobre a lareira. Ainda me lembro do dia em que ela a comprara na memorável viagem que fizemos a Calcutá – “Para mim ou para você, a gente nunca sabe ...”

A viagem à Índia fora um presente da empresa alemã para quem Elsa trabalhara como secretária até as vésperas do casamento. Ela não queria seguir os bandos de turistas visitando os pontos tradicionais. Queria se aperfeiçoar nas práticas sexuais tântricas, e se exercitar nas posições do Kama Sutra. Imbuíra-se de que sexo não é apenas um simples prazer como comer, mas um ritual de amor, maithuna, e que deveríamos encarnar os papéis de Shakti e Shiva, usando a yoni e o linga com calma e sofisticação. Apreciava especialmente as posições de Ananga Ranga e do “caranguejo”. Confesso que no início achei que era frescura de uma mulher inexperiente, mas com a prática vi que ela tinha razão. Uma sessão de sexo com Elsa era realmente uma experiência única, mesmo pra mim, um cara bem rodado.

Uma das características de Elsa era ser detalhista. Planejou minuciosamente cada detalhe da noite de núpcias. Passara suas poucas horas livres, no período de noivado, pesquisando artes sexuais na internet. Só vim a saber isso depois, pois ela fizera questão de casar virgem, mantendo um comportamento recatado e pudico durante todo o noivado− o que chegou a me preocupar. Assim, o que se passou na noite de núpcias e nos dias seguintes foi uma tremenda surpresa para mim. Oh que agradável surpresa! Elsa preparara um verdadeiro cerimonial para a primeira noite no Hotel Othon, para onde fomos após a recepção que se seguiu ao casório no convento de São Bento, com cantoria sacra e tudo mais.

Quando manifestei minha enorme surpresa com o que aconteceu na noite de núpcias, ela me disse que a única maneira de evitar a prevaricação de um marido era mantê-lo sexualmente saciado no leito conjugal – ensinamento de sua tia Isaura, no terceiro casamento, sem falar nos numerosos “affairs”, tão comentados na família. E para isto ela se preparara desde a adolescência. Era persistente, criativa e insuperável em tudo que fazia, como já me havia dito o diretor alemão, seu patrão, ao felicitar-me pelo casamento.

Dois anos depois, quando percebeu que estava desenganada e no leito de morte, me fez prometer que guardaria suas cinzas sempre comigo. Ela se fora, ficaram as cinzas. Aquela maldita, desculpem o termo, urna indiana me vinha à mente sempre que via um rabo de saia.
Pensei em espalhar as cinzas do alto do Pico do Jaraguá para que o vento as espalhasse pela Sampa que ela amava tanto, mas não consegui. Achei que o remorso de faltar com sua promessa iria me perseguir por toda a vida. Poderia ser ainda pior.
O problema é que em matéria de sexo Elsa me deixara muito mal acostumado, e a cada dia que passava os hormônios se acumulavam e a pressão aumentava. Precisava fazer alguma coisa, dar seqüência à vida orgânica, cuidar do corpo, porque a alma, ah a alma ... não me preocupava, pois, “graças a Deus, sou ateu”.
E, neste passo, de que era preciso superar as perdas, um mês depois da cremação achei que já era hora de voltar à vida de solteiro, isto é, viúvo. Resolvi “tomar uma providência no bar do seu José”, onde entornei umas e outras antes de levar uma ex-namorada boazuda para um jantar à luz de velas em casa. Foi a primeira decepção – não podia acreditar que isto fosse acontecer comigo, pelo menos nesta idade. Tereza até que foi compreensiva e disse que isso era normal, acontecia com todo mundo – fazia tão pouco tempo que eu enviuvara... Mas, fiquei muito cabreiro, além de envergonhado - tanto libido e o bicho não correspondia. Aquela urna não saía da minha mente.

Passado uns dias estava mais calmo e marquei novo encontro, agora num motel sofisticado para fugir do ambiente familiar. Na hora H voltou a imagem da urna e, fracasso, fracasso, fracasso. Desta vez Tereza tentou me consolar dizendo que deveria ser algo errado com ela. Assumiu um ar de tédio e sorriu amarelo. Mas não me enganou. Definitivamente a coisa era séria e o problema era comigo. Mesmo assim resolvi tentar com mulheres de programa, pelo menos não me conheciam. Gastei uma grana com garotas fogosas, de corpos esculturais, uma mulata que era uma parada federal; tentei até com uma nissei, miudinha, uma graça. O Viagra ajudou um pouco mas meu desempenho ainda era medíocre se comparado com minha performance com a Elsa. Entrei numa fase de tristeza, definhava .... Todos reparavam, até minha mãe. Definitivamente precisava de ajuda médica.

Meu médico diagnosticou disfunção erétil e recomendou uma clínica especializada. Após vários exames, o diagnóstico foi o de que não havia nada de errado com minha anatomia, nem com os hormônios – as glândulas funcionavam dentro dos parâmetros da normalidade, os corpos cavernosos estavam em ordem ...
“Tente Viagra, Cialis, estas coisas”, me disse o médico. “Já tentou? Então o problema está na sua cabeça, meu amigo. Vá ver um terapeuta”. Saí cabisbaixo e furioso – merda de clínica!
Analista, eu? Os que conheço são uns desequilibrados. Trauma de perda amorosa? Papo furado! Elsa era o máximo, mas já pertence ao passado. Tô pouco me lixando pra memória dela; a vida continua e quero mais é voltar a fornicar como antes. Comecei a freqüentar bares quase todos os dias. A coisa só piorava.
No desespero, lembrei-me de um anúncio que vi num poste lá no Rio Pequeno: Tia Zilda – benze e cura. Trata de mau-de-amor, mau-olhado, fraqueza de homem. Discrição absoluta.
"Fraqueza de homem" chamou minha atenção. É claro que não acreditava nestas coisas, mas não sei porque anotei o número do telefone. Aquilo ficou na minha cabeça – fraqueza de homem ... Afinal, o que tinha a perder? Num impulso telefonei marcando um encontro para as dezesseis horas de sexta feira. Sexta, depois do almoço, comecei a pensar se não seria um golpe para pegar os manés fragilizados. Estava quase amarelando, mas resolvi ir de uma vez pra desencucar. Prevenido fui com uma calça surrada, uma velha camisa polo, e tênis, para não dar bandeira. Parei a Pajero um quarteirão antes e levei no bolso apenas o celular e as oitenta pratas da consulta.

O endereço era nos fundos de um conjunto de casas geminadas - uma edícula com telhado de eternit. No terreiro um galo de grande crista vermelha com longas esporas e umas galinhas carijós ciscavam e cacarejavam. Ao lado, uma horta com losna, arruda, comigo-ninguém-pode, e outras plantas que não conhecia. Um aviso rabiscado na porta dizia: Entre sem bater. Entrei. De início não via quase nada, mas aos poucos fui me adaptando à meia luz e à fumaça.
Tia Zilda, sentada em uma espreguiçadeira, cabelos longos, toda de preto, pitava uma mistura de baseado com fumo de corda. Acenou para eu sentar em um tamborete de couro de cabrito, me estendeu um copinho de 51, e numa voz rouca e falhada falou, “Meu nego, tome o remédio, sou toda ouvidos, desembuxe – fale dos seus pobremas.”
E falei, no princípio meio sem jeito e aos solavancos. Fui ganhando confiança, encorajado pela penumbra, e aos poucos engrenei o papo e contei meu relacionamento com Elsa e a brochada que me acometeu após a morte dela. “Mulher não falta, tenho vontade e muita, mas o negócio não funciona – o bráulio está como um gato de armazém, dormindo sobre a sacaria”. Tia Zilda acendia constantemente o grosso cigarro que teimava em apagar, e dava tapas nas fagulhas que lhe caiam na blusa. A cada frase minha fazia um movimento afirmativo com a cabeça, incentivando-me a prosseguir em meu relato.
Depois de ouvir tudo com atenção estendeu a mão, pegou as oitenta pratas, amassou as notas, enfiou em uma cabaça que estava ao lado da espreguiçadeira, e deu o veredicto: “Meu fio, conheço este tipo de dona. A solução, meu fio, é você se livrar das cinzas. Mas, sem se afastar delas pra não quebrar a promessa. Em vez de Viagra e estas besteiras, coloque uma colherinha das cinzas em uma xícara de café, bem adoçada, e tome uma hora antes de você trepar. Vá tomando e trepando, até acabar.Tenha fé que vai funcionar. Senão, marque um retorno. Agora vá meu fio, adeus, tenha fé ,,,”
Virei as costas e saí apressado, sentindo-me ridículo, mas ao mesmo tempo aliviado. Engolir cinzas da Elsa? Que loucura; além de me parecer meio nojento. Arranquei, cantando os pneus e fui tomar uma cangibrina num boteco da Vila Madá, pensando como fui ingênuo.
Chegando em casa e sem saber bem o que estava fazendo passei as cinzas para um saco zip-lock e coloquei na minha pasta de trabalho. Esbarrei com o cotovelo na urna, que se espatifou no chão; coloquei os cacos num saco plástico e atirei na lixeira. A sensação de alívio foi imediata.
Não foi fácil convencê-la, mas o primeiro teste foi com a mesma ex-namorada. Posso lhe assegurar que ficou admirada – “um outro homem” disse olhando-me nos olhos.
Tempos depois, no check-up de rotina, meu médico perguntou se eu tinha mudado de vida, de alimentação, algum suplemento mineral? Minha osteoporose havia desaparecido, e minha pele estava mais hidratada, rejuvenescida, as íris mais brilhantes, parecia um novo homem.
- Nada doutor, ando apenas menos estressado.”
- E aquela sua queixa de perda da libido?
-Na idade em que estou não posso me queixar doutor. Vou marcar o retorno pro ano que vem.
Sentiu uma comichão na língua e vontade de dizer que não havia nada mais afrodisíaco que o pó da mulher amada. Santa Elza!

Praia Vermelha, 16 de outubro de 2009.

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