13 de julho de 2010

O Gato, o Caxinguelê e Eu

O gato, o caxinguelê e eu

O Saco do Mamanguá fica aqui, na costa, entre o Rio e São Paulo. Zanzibar fica do outro lado do mundo.

O Mamanguá parece um fjord tropical, mas não é. É apenas uma ria – detalhe geográfico ainda mais interessante por ser único nesta parte do mundo.
Visitei o Mamanguá recentemente em uma expedição de canoas canadenses. Da rede, onde descansava o esqueleto cansado de remar desde Paraty, e pitava um “paieiro” de fumo goiano, observava um caxinguelê que saltitava no gramado, revirando frutos de abricó da praia. Ao perceber o gato que se aproximava rastejando, sorrateiro, ondulando o rabo como uma serpente, emitiu um som agudo e em três pulos alcançou o coqueiro, subindo até a copa antes que o bichano tivesse tempo de esboçar um ataque. O gato foi até o coqueiro, com calma, mas vivamente interessado, afiou as garras no tronco, deu algumas voltas olhando para cima, talvez pensando que as uvas estavam verdes, e deitou-se, com dignidade e aparente paciência, junto ao pé do coqueiro. Daí a pouco o esquilo desceu “a meio pau” e começou a guinchar, revoltado. Saí da rede e fui pra cozinha preparar o café.

Semana seguinte viajei para Zanzibar, um conjunto de ilhas no Oceano Índico, próximo à costa da África, ao norte de Madagascar. Após ser explorada por vários colonizadores tornou-se independente e juntou-se a Tanganica, no país que é atualmente a República Unida da Tanzânia. A ilha principal, Unguja, é hoje um centro turístico conhecido como Zanzibar. É famosa pelas praias de águas transparentes, areias brancas e recifes de corais que maravilham mergulhadores de todo o mundo. É famosa também pela sua “Stone Town”, cidade única que mantém uma arquitetura árabe e indiana extremamente curiosa; suas vielas estreitas e tortuosas, onde os mizungos (turistas) se perdem, lembram um queijo suíço.

Hoje era dia de folga no simpósio de aquicultura organizado pelo consórcio de pesquisas marinhas do Índico Ocidental. O grupo saiu cedo, em dois ônibus, rumo à Fumba, na extremidade de uma península na costa sul-ocidental da ilha. O objetivo era caminhar até uma ilhota só acessível nas marés mais baixas. Após dois dias fechados em uma sala com o ar condicionado regulado no mais frio os gringos estavam ansiosos para sair a campo, tomar sol e fotografar as gramas marinhas, algas e invertebrados expostos pela baixamar de sizígia. Como já conhecia o local desgarrei-me e resolvi caminhar pelo manguezal que se estendia para o sul. Sempre tive um fraco por manguezais apesar dos maruins e outros tipos de borrachudos. Ainda mais que os manguezais do Índico diferem bastante dos manguezais do Brasil pela sua alta biodiversidade e por crescerem em concreções de velhos bancos de coral.
Caminhei por entre as árvores testando um guia de identificação das espécies: Avicennia marina, Bruguiera parviflora, Rhizophora apiculata ...
Começou a chover e me recolhi sob a copa de uma grande Avicennia officinalis, com flores amarelo-laranja, cheirando a mel. Não encontrando local seco e confortável para sentar resolvi subir na árvore e sentar em um galho. Era uma árvore sólida, esgalhada, fácil de trepar. Encontrei uma posição confortável à meia altura, pendurei minha mochila em uma ponta de galho, peguei um pacotinho de amendoim japonês que havia surrupiado da sala VIP da VARIG, e me preparei para ler um livro do Coetzee (Disgrace), enquanto aguardava a chuva passar e a volta dos companheiros de simpósio.
Daí a pouco ouvi um cantarolar e vi um homem que se aproximava vindo da praia, possivelmente em busca de abrigo da chuva. Fiquei meio cabreiro ao lembrar de tantas estórias sobre turistas que foram assaltados e ameaçados com facas. Achei que poderia passar despercebido em cima da árvore. Procurando me ajeitar melhor, para uma espera talvez um pouco longa, derrubei o pacotinho de amendoim. O cara olhou para cima e me viu. Devia ter uns vinte anos, descalço, cabeça raspada, trajando uma velha bermuda preta e uma camisa de malha com quadrados marrons e amarelos, intercalados, como uma mesa de xadrez. Numa das mãos trazia um grande balde verde e um machete na outra. Deve ter ficado intrigado ao ver um velho de barbas brancas, com chapéu de pano e óculos de leitura, encarapitado em um galho da árvore. Imediatamente eu disse “salamaleicon, jambo”. Ele retrucou com um “jambo”. Disse algo mais que não entendi e respondi com um “assante”. Procurei demonstrar tranqüilidade, e recomecei a ler, mas alerta com o rabo dos olhos. O cara olhava para cima, curioso, sem saber bem o que fazer. Deu uma volta em torno da árvore, olhou em todas as direções, virou o balde de boca para baixo e sentou-se.

“Está planejando o assalto”, pensei. Procurando não fazer barulho, subi mais um pouco, sob seu atento escrutínio, achando que estaria mais seguro sentado próximo ao topo. Lá de cima conseguia ver meu grupo caminhando na lama e entre os corais, a pouco mais de um quilômetro. Vi, também, que outro homem se aproximava. Era mais velho, com uma camisa vermelha, de algum time de futebol, com um grande número 10 nas costas. Parou sob a árvore, trocou umas palavras com o cara do balde e olhou para cima. Quando nossos olhos se encontraram eu disse “jambo”. Ele não respondeu. Tirou a camisa, exibindo um corpo malhado pelo trabalho pesado, forrou uma pedra mais plana com a camisa e se deitou. Continuaram conversando em swahili e olhando para mim de vez em quando. Eu fingia que lia, mas mantinha a vigília, de soslaio, planejando o que fazer: se um deles subir para me pegar estarei numa posição favorável para pisar-lhe nas mãos e dar uns bons chutes, além de gritar. A não ser que usem o facão para cortar o galho onde estou sentado... .

Daí a pouco ouvi vozes e risos e vi que o pessoal do simpósio estava voltando. Aliviado desci da árvore, peguei o pacote de amendoim e dei para o cara do balde. Ele estendeu a mão e disse “assante”.
Acho que me preocupei à toa.
Mais tarde, relatando meu apuro, um colega da Tanzânia me disse que os caras ao verem minha barba branca e minha posição inusitada num galho de árvore certamente pensaram que eu era um imã, ou algo do tipo, e não iriam me molestar, são muito supersticiosos e respeitam muito velhos de barba. Sei lá, o fato é que passei uma meia hora bastante tensa.
Saí com o grupo para visitar uma fazenda de algas marinhas, agora sob um sol abrasador. Programa de biólogos.

Ah, quanto ao caxinguelê ... não sei se ele teve a sorte que tive. Quando voltei da cozinha ele e o gato tinham sumido.

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