30 de abril de 2013

Casa Nova e Casa Velha



Felicidade

Esta manhã tive um momento de graça, tão palpável que se poderia pegar e apertar.Senti uma felicidade extrema, enchi os pulmões o mais que pude e agradeci a Netuno em voz alta por sensação tão agradável.
Praia Vermelha do Sul, nove horas de uma manhã radiosa após uma noite de chuva fina e do martelar incessante de uma orquestra de cururus só quebrado pelo gemido lancinante de um urutau da mata atlântica, verdadeira alma penada vazando sua tristeza.
Fomos para a ponta sul da praia, ainda deserta, água gostosa de verão, transparente. Coloquei o short sobre uma pedra e entrei devagarzinho na água, sentindo meus pêlos se arrepiarem ao contato da água com minha pele aquecida pelo sol. Parei na zona de arrebentação, deixando as ondas estourarem ora em meu peito, ora em minhas costas, tentando resistir, com os pés firmemente fincados na areia grossa, o embate das ondas.
Pedro não quis ficar pelado. Corria pela praia sem direção, dando gritos feito um louco, entrando no mar e tentando pegar jacarés. Gargalhava de nada, acho que tão feliz quanto o “ vô Caco”, em seus seis anos.
Enchi os pulmões várias vezes, expirei e mergulhei. Ao sair da água inclinei a cabeça para trás e a água penteou meus cabelos. Subi na pedra e me sequei ao sol. Ao longe o primeiro turista pisou na areia. Coloquei o short e saímos da praia pela trilha que vai paralela à praia, no meio da restinga. Vinha mostrando as plantas para o Pedro. Um teiú, de bom tamanho, entrou na trilha alguns metros na nossa frente. Olhou para nós de soslaio e atravessou a trilha com dignidade, entrando na vegetação mais densa - apertou o passo mas não correu, o corajoso, senhor de seus domínios. Expliquei ao Pedro que o teiú não nos faria mal, e ele retrucou: - eu sei os bichos podem ser perigosos, mas não são malvados.
Alguma árvore, que não consegui identificar, um ‘bastão”, talvez, exalava um perfume doce.
Numa clareira vimos vários marimbondos gigantes, destes azulados, com reflexos metálicos, que caçam caranguejeiras. Estavam alvoroçados e zumbiam e voavam por todos os lados. Expliquei que não nos picariam se não tentássemos pegá-los. Devia ser época de reprodução porque vimos dois copulando; engatados tentavam voar e caiam; nem ligaram quando chegamos bem perto para ver como estavam engatados.
Pedro andava descalço. Já estava com a sola do pé calejada, e se orgulhava de pisar nas pedrinhas e espinhos sem sentir dor. Ia na frente para mostrar que sabia o caminho de volta para casa. O café já deveria estar pronto e eu pensava no meu cigarrinho de palha matinal.
Estes momentos de felicidade podem ser intensos, mas são fugazes. Duas horas depois já não me lembrava dele. A tristeza veio na praia da Fortaleza, sentados na escada do terraço, junto à velha colméia de Jataí que persistia no mesmo local por mais de 30 anos, enquanto a vó Guga selecionava objetos para levar para a casa nova da praia Vermelha tendo descartado várias coisas que Pedro e eu havíamos pegado: - não quero lixo na casa nova!, sentenciou.
Pedro encostou a cabeça no meu ombro. Perguntei se estava sorumbúsio ou macambático, e ele respondeu o que eu estava pensando: - gosto mais da casa velha que da nova. Foi daí que fiz uma proposta infeliz que deixou a vó Guga muito triste: - Você fica com a casa nova e eu com a velha. Proposta apoiada entusiasticamente pelo Pedro. Percebi que tinha dito algo que não devia – ela investiu tanto tempo e carinho na casa nova e deve ter sentido um grande vazio. Só agora percebi que embora ela tenha feito o que lhe deu na telha, tudo, nos mínimos detalhes como queria, sem aceitar palpite de ninguém, ela não fez a casa para ela, mas para todos nós. Dava gosto ver o prazer com que ela mostrava a casa para cada amigo e parente que chegava. Esta frase infeliz acabou com a paz doméstica que vinha reinando em Ubatuba.
Voltamos para a Praia Vermelha com os “bagulhos” selecionados da Fortaleza. Sentados na rede, em silêncio, vimos a noite chegar, pouco a pouco. O vôo alto das últimas andorinhas que riscavam o céu em linhas quebradas deu lugar ao vôo baixo e titubeante dos morcegos que davam rasantes no gramado, em frente ao deque do terraço. O urutau deu seu primeiro e longo gemido e os sapos iniciaram mais uma noite de martelação. Pedro viu o primeiro vagalume. Com o escurecer os vagalumes se tornaram mais visíveis. Já era hora de tomar a primeira birita antes do jantar.
Praia Vermelha 2007

29 de abril de 2013

Crônica do sapato de camurça



Crônica do sapato de camurça

Ontem acordei com o barulho de um caminhão “leva-caçamba”que remove o entulho da casa do vizinho, em reforma. Apesar do frio não consegui ficar na cama, uma angustia, ... como todas, inexplicável pois tudo parecia estar nos conformes ...
Subi numa cadeira para, afinal, guardar na parte mais alta do guarda-roupa uma mala que há tempos estava jogada num canto desde a última viagem, tempos atrás. Ao abrir a porta dei de cara com um par de calçados de camurça, beije, solado de couro, arrumadinho num canto da prateleira. Tive a impressão de que ele me “olhou” com uma cara de tristeza. Há quantos anos estava lá, fechado, no escuro. Acho que o comprei muitos anos atrás quando fui fazer uma palestra em Concepción. Acontece que já há muitos anos uso tênis1, não um, mas vários: um para subir montanhas (travado); um para jogar tênis, propriamente (solado liso); um molhável para canoar (vazado); um para correr (com amortecedor)... - Santa invenção. O pior é que causa uma dependência habilmente explorada pelas Nike, Adidas e tantas outras que, dizem, exploram trabalho de crianças no terceiro mundo, vai saber...
Pois é, resolvi levar o pobre calçado para tomar ares e ver os arredores do Boaçava que mudaram muito nos últimos anos. Fomos, eu e o camurça, comprar pão na padaria Santa Ethiène, à pé, é claro, para que ele tirasse maior proveito do passeio, quase aventura após tanto tempo de inatividade.
Ao amarrar bem os cadarços lembrei do tio Zé-Petrowich e do curtume que minha família tinha em Jaboticabal. Não sei se com razão, ou porque antecipasse possíveis problemas de mercado para a famosa sola de sapato fabricada no “Curtume Cerradinho”, tio Zé vivia apregoando aos quatro ventos os malefícios dos calçados com solados de borracha recém lançados no mercado. Quem precisa de sapatos com solado de borracha são os gatunos, que andam sorrateiros pelos telhados, como os ‘Meneghetti’. E completava com razões mais objetivas: “o couro respira, os pés precisam respirar, não podem ficar sufocados numa borracha impermeável que dá frieira e um chulé nauseabundo ...”. Hoje lhe diria que os tênis modernos também respiram, até mais que o couro, além de muitas outras vantagens. Isso tudo sem falar nas pobres vacas assassinadas que não têm nada a ver com pés-de-atleta ... Mas, não alardeio isso mundo afora que não sou bobo de colocar azeitonas na empadinha das nikes.
Decisão tomada, escolhi uma daquelas meias de seda que já não se usam mais, perdidas no fundo da gaveta, calcei os sapatos com sola e salto de couro, já disse – salto mesmo. Imaginem! Não sem dificuldade porque minha mulher descartou uma velha calçadeira. Saí pisando duro nas pedras da rua como um burro picaço. A cada passo um barulho, um impacto e uma quase emoção, André de sapato novo. Percebi que o sapato estava apertado no pé esquerdo mas folgado no direito, vai entender; detalhe que não percebia com os tênis. Parece que isso corrobora uma estória que ouvi de que algumas partes do corpo crescem com o passar dos anos (outras, sei de experiência própria diminuem: já encolhi 5 cm nos meus 75 anos; enquanto outras se tornam flácidas ... deixa pra lá, coisas da vida).
Com um certo desconforto e estranhamento pelo ruído cadenciado de meu pisar, cheguei à padaria. Comprei uma baguete com semente de gergelim, voltei marchando para a casa e guardei o camurça no seu devido local com palavras duras: “meu caro amigo, espero que você tenha desfrutado de seu último passeio – frisei último! Mas, não vou descartá-lo de imediato – vou aguardar a campanha do agasalho no próximo inverno”.
Tio Zé que me perdoe, mas ...

1NE: Tênis – calçado inventado em 1873 (sneakers) especialmente para jogar tênis, o esporte, em quadras de saibro para não esburacar o piso nas brecadas violentas que os tenistas dão para não bater na rede ao rebaterem uma ‘deixada’ do adversário.

22 de abril de 2013

JUVENTUD

JUVENTUD

- Yo tengo 86 años. No de edad sino de juventud. La mayoria de mis amigos ya se fueron o estan internados em asilos, y yo acá, mui bien y feliz. Todo depende de como llevas la vida. Tu vida.

Tenia una boina a la “Che”, y vestia un traje esporte, con corbata de lazo, y zapatillas Adidas de las mas modernas; barba blanca bien pareja y cabellos negros, teñidos tal vez.
Mui galante y convencido de sus habilidades, hablava con toda la gente en busca de
elogios. Gran parte de los amigos habia partido, otros estaban internados en asilos -
repetia a quien quisiera oir. Pero el no! Estaba muy bien y lúcido, viajaba solo a
visitar las hijas y nietos.

-? Y que vas hacer en Santiago? preguntó la señora que estaba adiante en la cola.
- No señora: voy a Lima visitar mi hija mayor.
- Pero de esta puerta sale el vuelo para Santiago, contestó la señora. Dejeme ver su
boarding pass. Si verdad, estás en otro vuelo de la compañia LAN.

La señora llamó a un empleado quien informó al viejito, ya sin su sonriza, que el estaba en la puerta equivocada. El vuelo para Lima ya habia partido hacia rato del gate 22.

- ?Señor Ferreira, usted no oió que llamaban por su nombre insistentemente?
El viejito se quedó aludiendo que los aeropuertos de Brasil eran una mierda total. Que siempre hacian estas cagadas. Pidió ayuda para llamar su hija en que lo fuera a buscar en Guarulhos, pero no conseguia se recordar el número del telefono.

La señora comentó con el empleado que la hija no deberia haber dejado a su papa sin
asistencia en el aeropuerto. Tomó su equipage de mano y atravesó la puerta de embarque 24 para el vuelo LAN 759 rumbo a Santiago

Manteiga com margarina

MANTEIGA COM MARGARINA

Amaury alisou com esmero as duas faces da palha de milho com seu durindana afiado, dobrou-a ao meio e prendeu-a entre os dedos da mão esquerda enquanto, com rara habilidade, picava, bem fininho, um pedaço de fumo tietê. Após desfiar bem o fumo enrolou um paiero caprichado, que foi devidamente lambido. Protegendo a chama do fósforo com a concha da mão esquerda acendeu o cigarro e deu a primeira tragada - o cheiro do tietê rescendeu por toda a varanda. Encheu um copinho, jogou um pouco pro santo, deu uma golada e fez hummm, satisfeito. Esticando as pernas e colocando as mãos por trás da cabeça continuou o papo:
- Pois é cumpadi, (tinha essa mania de se pretender caipira) como lhe dizia, meu nono comia na pura banha de porco, temperava salada com banha derretida e fumava como uma chaminé. Morreu com 89 anos. Naquele tempo colesterol não dava infarto e pitar não dava câncer.
Antes que eu respondesse emendou:
- Mas também não se usava fogão a gás e nem panela de alumínio. Tô achando que essas doenças modernas são causadas pelo gás de cozinha - sempre vaza um pouco ... Ou será o alumínio?
Ao ver minha cara de pouco caso continuou:
- Uai, num foi ocê mesmo que me disse que o alumínio é um metal pesado? Outro dia li nas Seleções que tá provado que metal pesado faz um mal danado. Ocê não acha que comer um pouquinho de alumínio, dia após dia, não acabará endurecendo as artérias? Depois que li isto parei de tomar cerveja em latinha. Pra mim cerveja tem que ser em garrafa de vidro, casco escuro. Bão, se não tiver... aí vai qualquer uma.
Após ouvir tanta abobrinha retruquei que acreditar em tudo que saía nas Seleções era muita ingenuidade.
- Se você estivesse mais atualizado saberia que tá provado e reprovado que o infarto do miocárdio está fortemente correlacionado com o nível de colesterol no sangue. Todo mundo sabe disso, menos você que continua comendo torresminho!
Amaury não era fácil e voltou à carga:
- Mas ocê não sabia que quem inventou esta história de colesterol foram os produtores de óleo de soja? O cultivo de soja acabou com os cerrados do Brasil Central e, é claro, com os tamanduás e o lobo guaraná, como fala meu neto. Com tanta lavoura era preciso aumentar o consumo de óleo e aí inventaram a tal da margarina que nada mais é que um óleo engrossado. Me diga aí, quem iria trocar uma boa manteiga, daquelas bem amarelinhas por esta banha vegetal? Ainda se tivesse uma crise de manteiga a margarina quebraria o galho. Mas não é o caso, há leite de sobra. Acontece, porém, que os gaúchos produziram tanta soja no Mato Grosso que não acabava mais. E daí, quem iria comer esta bosta de gordura vegetal? Não bastava dizer que ela se espalha mais fácil pelo pão, mesmo nesta porcaria de pão de fôrma sem casca. Era preciso algo mais pra vender esta pasta desbotada. Acho que algum 'duda da vida' teve a grande idéia de dizer que manteiga faz mal. Imagine uma besteira destas! Então eles pensaram: manteiga deve fazer mal pra alguma coisa. Coisa séria como câncer, dar infarto, atacar esta tal de próstata ... É claro que manteiga tem que fazer mal! Tudo faz mal, até o bom e doce açúcar. Água, em excesso, pode dar barriga d´água e até afogar .... Aí estava a chave pra vender margarina. Bastava contratar uns cientistas americanos, ou mesmo da UNICAMP, umas cobaias dessas que morrem facinho-facinho, e pronto, noves-fora tava demonstrado que manteiga tem colesterol, o que aliás todo mundo já sabia. Daí a mostrar que alguns caras que morreram do coração tinham as veias entupidas de gordura foi moleza. Usaram como exemplo até um cano de pia de cozinha entupido. A coisa foi muito bem feita; os cientistas logo mostraram que os vegetais não têm colesterol. Eu li nas Seleções. A soja é vegetal, viva a margarina, danem-se os pecuaristas ...
- Vá lá Amaury, o que você disse não deixa de ter uma certa lógica, mas ...
- É claro que tem. Você já pensou nos porcos e nas galinhas? Eles comem milho e soja, que não têm colesterol, e produzem banha e ovos, puro colesterol, como é que pode?
- É compadre, a coisa tá complicando, melhor tomar mais uma cangibrina e falar de galo de briga. Aliás, você conseguiu tirar algum filho daquele galo puva marombeiro do Zé da Bica? Eita galo bom sô!
- Afinou.
- Aquele galo?
- Não, ocê, que é todo estudado e não sabe de nada.

12 de novembro de 2010

Passamento

Passamento

Minha mulher acha q tenho mania de morte, minha irmã acha q estou procurando a morte.
Nada disso. Sei lá, talvez esteja obcecado pela morte, mas, no bom sentido, quero dizer, a morte me fascina, como uma grande aventura. Q aventura maior poderá existir? Tive uma vida, sonhei, realizei talvez até mais do q sonhei por ser intrinsecamente modesto, acho, herança da dona Martha.

Algumas pessoas disseram q me acham muito corajoso, não como elogio, mais como crítica, corro riscos desnecessários, um jogador – respondo q nesta idade posso correr riscos e q minha coragem vem exatamente de saber q sou mortal. Outras dizem q sou "desapegado", o q dá no mesmo, apenas consciência da minha transitoriedade e insignificância.

“Venho me preparando para a morte”, é isto q vou responder quando alguém me perguntar o q ando fazendo, além, é claro, q en passant, meanwhile, vou fazendo otras cositas q me agradam pois não penso na morte em tempo integral, embora não a perca de vista como meta. A linha de raciocínio por trás de tudo isso é q me preparando terei uma passagem mais tranqüila, i. e., uma “boa morte” q no fundo é a morte q é recebida como opção aceitável numa dada circunstância da vida.

A mãe acreditava em almas – um dia me disse: "posso morrer a qualquer momento porq metade das pessoas q gosto está viva, a outra metade já morreu - irei encontrar seu pai, minha mãe, ..." Acho q ela não morreu, apenas parou de viver, se mudou.

Tenha uma boa morte era um desejo q se expressava para uma pessoa querida. É isso q quero ouvir a cada aniversário.

Barra da Lagoa, 25/Set/2010 – n.m. in c.

Posso?

Posso?

Nesta noite tíbia e silenciosa fui invadido por uma ânsia estranha de servir minha empregada: convidá-la para jantar, à luz de velas, um tango de Piazola, um Malbec especial, servi-la como faria um serviçal à sua patroa, com direito a sous-plat, entrada, primo piato, secondo piato e petit gateau.

Que mundo idiota é este em que vivemos que não me permite fazer isto. Eu, um “senhor”, emancipado e vacinado, teoricamente dono de meu nariz, com cartão de crédito e ficha limpa na praça posso tanto, mas não posso isso!

A mente humana é tão deturpada que me acusariam das maiores taras. É bem possível que ela própria me interpretasse mal, “ah, este seu Chico não tem juízo mesmo. Cada idéia – imagine só, me convidar pra jantar? Tem cabimento? O que é que a dona Maria vai achar disto? No mínimo vai me ameaçar ou até despedir. Não é à toa que ele só anda de bicicleta e vive metido no pantanal com sua velha canoa. Deve ser a idade ...”

Este simples gesto de gratidão e bem-querer não seria visto com bons olhos por ninguém, minha família especialmente. Ninguém entenderia meu simples desejo de servir minha empregada, com humildade e delicadeza, apenas servir a quem me serviu por tantos anos, só pra variar. Cozinhar para ela me daria muito prazer e aposto que ela iria adorar meu spagheti à putanesca. Ou será que iria achá-lo um pouco duro e apimentado? “Estes homens pensam que cozinhar é fácil”, pensaria.

Será que ela me deixaria arrumar a cozinha enquanto fumava seu Hollywood. Repararia na minha falta de técnica para lavar panela engordurada?
Depois lhe serviria um licor e lhe daria uma carona para a Vila Mangalot.

Levantaria as cinco da matina para chegar às 07:15 no dia seguinte para cumprir sua rotina de "doméstica" ou se sentiria cheia de direitos? Ou me denunciaria por assédio sexual na delegacia da mulher?

Meu deus, que mundo é este que não acredita em boas intenções?

10 de novembro de 2010

A toalha

Uma toalha

Ficou pálida quando ele perguntou por que havia duas toalhas no chão do banheiro. Após uns segundos, que duraram uma eternidade, respondeu com voz trêmula: “Parece que você está mais preocupado em saber se alguém usou sua toalha do que se usou sua mulher”, e chorando se trancou no banheiro batendo a porta.
A toalha mal explicada foi a gota d´água que os levou a um processo de separação.
Na noite anterior ela não quis passar o final de semana na casa da praia alegando que tinha muitas provas para corrigir. Ele jogou suas coisas no banco de trás do carro e saiu de mal humor.
Foi só quando estava perto da estradinha de terra que dá acesso ao condomínio do Mangue Verde que se deu conta de que tinha esquecido o lap-top. Ficou aborrecido com sua falta de atenção – mais um sinal de que estava envelhecendo, pensou.
Ligou para se certificar de seu esquecimento quando já era quase meia-noite. Estranhou quando ela demorou para atender a ligação. A voz dela denotava uma certa agitação, tendo por fundo uma salsa cubana em alto volume, logo diminuído. “Ah, é você, a esta hora?” A mulher confirmou que o computador estava na mesa da sala. Desligou o telefone intrigado, perguntando-se como ela podia se concentrar na correção de uma prova com uma música daquelas? Devia ser isto que o deixara com a pulga atrás da orelha a noite toda. Mas, como de hábito, não deu muita importância, que se fôda, pensou.
Sábado cedo voltou para buscar o computador. Ao abrir o portão dos fundos irritou-se ao ver a cachorra presa na guia e notou que havia uma garrafa de “pró-seco” no lixo da cozinha. Soltou a cachorra e subiu até o quarto galgando os degraus de dois em dois. Abriu a porta do quarto sem bater, ofegante. Ela ainda dormia, nua, atravessada sobre alguns travesseiros, a cama em grande desordem, almofadas e colcha no chão, a capa do Buena Vista Social Club caída ao lado do toca-CDs.
Acordou assustada com a presença dele no quarto. Ao perguntar por que a cachorra passara a noite presa ela resmungou qualquer coisa que ele não entendeu. Perguntou sobre o vinho e ouviu que uma amiga aparecera para uma visita de surpresa, pediram uma pizza e tomaram o vinho. Ele fez uma cara de desconfiança pensando que pizzarias “delivery” não tinham vinhos italianos, mas não se dignou perguntar quem era a amiga. Entrou no banheiro e viu as toalhas.
Quando ela se trancou no banheiro, chorando, ficou tentado a examinar o lençol em busca de alguma marca suspeita, mas não teve coragem. Achou humilhante demais, e uma eventual  confirmação o faria perder o auto-controle. Melhor a dúvida.
Fechou a porta do quarto com um ponta-pé, pegou o lap-top e voltou para a casa da praia. Ligou para a secretária mas o celular dela estava na caixa postal. Que merda! Passou o final da semana caminhando pela praia, bebendo e fumando, sem conseguir trabalhar no relatório que tinha que entregar na segunda feira. O ciúme roendo seus miolos – sensação nova pra ele que se achava imune a sentimentos possessivos.
Pensando bem suas suspeitas sobre a infidelidade dela pairavam no ar há algum tempo. Não fez conta, achando que isto lhe daria mais liberdade em suas relações paralelas com a secretária, recém separada, e uma ex-namorada dos tempos de colégio com quem saía ocasionalmente. Tinha certeza que ela sabia de seu caso com a secretária. Fazia vista grossa, acomodada com a situação.
Só agora começou a juntar coisa com coisa. Lembrou que de uns tempos para cá ela parecia mais alheia às suas observações e mais cordata em aceitar suas desculpas esfarrapadas quando ele chegava tarde e muito cansado às sextas feiras, indo direto para o banho. Ela dera para ouvir Djavans, Caetanos e até Roberto Carlos; os atrasos dela ao voltar da universidade se tornaram mais freqüentes e as explicações mais vagas; andava arredia na cama, desinteressada de carinhos. Além disso deu para tomar banho de sol nua na sacada do jardim nos finais de semana quando a empregada e os filhos não estavam. Dizia que não gostava de marcas de maiô.
É , relaxara, tinha que admitir. Mas, uma separação não estava em seus planos, pelo menos a curto prazo. Pensou que se não fosse sua pergunta sobre as toalhas a relação entre eles poderia continuar no mesmo passo por mais algum tempo. Já estava acostumado com a rotina, o salário dela era melhor que o seu ...
Agora o caldo entornara e não dava mais pra segurar. O que o deixara mais puto foi a coragem dela. Justo ela, que parecia uma recatada madame mineira, tão fina e elegante. Trazer alguém pra sua casa e transar na própria cama era demais, inaceitável. Nem ele ousara tanto. Quem seria o canalha? Devia ser o cretino daquele antigo namorado, o guitarrista.
Segunda cedo voltou pra casa decidido e lhe disse: - “se nos separarmos numa boa nem vou investigar quem esteve aqui com você sábado à noite. Mas, fico com a casa da praia e o veleiro – você não gosta muito de mar mesmo. Agora se você começar com muitas exigências, advogados, pensão, etc. vou escancarar o escândalo e brigar pela guarda das crianças. Quero ver a cara de seu pai e do seu irmão ...”.
O divórcio correu sem traumas. Como dizia o velho Woody: - “há casamentos que terminam bem. Outros duram a vida toda.”
Pensou que seu compadre tinha razão: nunca entenderemos as mulheres. Deve ser o tal do duplo cromossomo X. Ela sempre aceitara sua prevaricação, mas ele não admitia a dela. É aquela velha história, os homens são poligâmicos por natureza, as mulheres não, é um de cada vez. O problema é que o que começa com uma transa inocente acaba em paixão - aí é que mora o perigo. Quem poderia pensar que ela se entregaria tão facilmente, por uma toalha molhada. Poderia ter inventado qualquer desculpa, qualquer bobagem e o assunto seria arquivado. Que falta de prática! Maldita toalha, maldito lap-top. Agora teria que organizar uma nova vida e seria difícil escapar da secretária. Não teria mais desculpas para não ir morar com ela. Merda!

O terapeuta

O terapêuta

Como sempre, naquela sexta feira, Robinson encostou a Mercedes na porta do Bar do Zé-Bedeu na Vila Madalena ao anoitecer. Só q dessa vez o doutor falou: -“A turma tá viajando. Deixa o carro com o manobrista e venha tomar um trago comigo”.
- Mas doutor ...
- Não tem mais nem menos, tô de saco cheio e não gosto de beber só. Hoje você vai conhecer uma cerveja de verdade.
O garçon, afastando a cadeira da mesa favorita do doutor, sorriu ao ver o motorista entrar meio sem jeito, com seu terno preto, sapato preto e gravata preta.

- Juvenal, dois pints de draft Guiness e os tira-gostos de costume. Traga também dois Stainhaegers.

Robinson, moreno alto, magro e musculoso, com bigodinho aparado e cabelo escovinha, tipo mariner do Tio Sam, estava meio desconfiado. O doutor sempre o tratara com muita consideração, mas com o distanciamento devido.  Sentiu algo diferente no ar.
O doutor perguntou da família, falou de futebol, elogiou a bundinha arrebitada da garçonete, contou umas piadas sobre o presidente, pediu mais duas Guiness, afrouxou o nó da gravata e daí falou:

- Robinson, esta é a primeira vez q bebemos juntos. Você é meu motorista e segurança há muitos anos e o considero uma pessoa inteligente e educada em quem deposito minha total confiança.

- Obrigado doutor ...

- Quieto, não me interrompa. Aguardava uma oportunidade como essa para lhe propor um negócio muito sério no qual venho pensando há tempo e q não sai da minha cabeça. Coisa muito séria mesmo.
Robinson franziu a testa e sentiu um frio na espinha.

- O negócio é o seguinte, preste bem atenção. Como você sabe sou psicólogo e trabalho especialmente com pessoas mais velhas, terceira idade, sabe como é né? Pois é, nestes últimos anos tenho visto muita coisa, pessoas importantes, de valor, grandes figuras, q fizeram carreira brilhante, construíram uma história de vida ... até que de repente põem tudo a perder, começam a falar tolices, fazer cagadas, de dar dó ... Você já deve ter visto esse tipo de coisa, né?

O doutor pediu uma folha de papel ao Juvenal e mais um pint, “só pra mim, o Robinson vai guiar e quero chegar inteiro em casa”, e passou a explicar detalhadamente seu plano, enfatizando a necessidade de sigilo absoluto, fundamental para q desse certo.

Chegou em casa meio grogue, mas feliz e aliviado com a decisão corajosa q havia tomado – acendeu um havana e ficou fumando calmamente vendo a fumaça densa ir aos poucos se dissipando e desaparecendo, como a vida da gente, sob a pitangueira. ...Tanta flor esse ano. Deve ter sido a seca, não sei se vai aguentar nutrir tantos frutos ...

Começou a rememorar sua longa relação com Robinson. Conheceu-o vendendo água de coco e batida de umbu na ilha de Itamaracá onde fora passar sua lua de mel. Na época tinha acabado o doutoramento na USP e iniciava uma promissora carreira em psicanálise. Síndico do prédio onde morava, no Paraíso, em Sampa, prometeu emprego de zelador ao Robinson se chegasse dentro de um mês. Dias depois ele tocou a campainha do prédio. Chegou apenas com uma mala de couro e uma mochila de lona, sua mudança, cara de assustado, boquiaberto com a altura do prédio e o movimento da Paulista. Gostou do Robinson desde o primeiro contato - pessoa humilde, mas inteligente e muito forte, embora magro. Tempos depois com seu sucesso profissional acabou contratando-o para motorista quando se mudou para o Jardim Europa. Era uma época de muitas viagens para dar aulas e fazer conferências no Brasil e no exterior. Robinson era uma mão na roda, jack of all trades, fazendo pequenos consertos, compras e sobretudo para levá-lo e buscá-lo em Cumbica e Congonhas. Aproveitava os congestionamentos para ir estudando casos de clientes e preparando palestras. Acabara ficando famoso por suas pesquisas sobre Alzheimer e doenças degenerativas do sistema nervoso. Convenceu Robinson a fazer um curso de defesa pessoal e direção defensiva durante os períodos em que estava no exterior em congressos. Robinson aprendeu lutas marciais e a atirar com precisão. Andava armado graças a um porte de armas que conseguiu para ele através de seu cunhado, delegado da Divisão Anti-Sequestros.

Embora mantivesse uma distância conveniente com o motorista às vezes contava a ele alguns dos casos mais curiosos q apareciam no consultório e falavam de futebol, ambos corintianos. Mais de uma vez lhe dissera que morria de medo de ficar gagá e ser alvo da zombaria dos pares e parentes. Sabia bem como funcionava a genética nesses casos – de seus 12 tios paternos só não ficaram esclerosados seu pai, que morreu com 33 anos, e um tio que também “partiu antes do combinado” num acidente em uma caçada de codornas. Em suma, preferia abreviar a vida a passar os últimos anos de fraldas e com um enfermeiro.

Enquanto fumava no jardim ia pensando na cara de espanto de Robinson quando lhe explicou em detalhes seu plano de "eutanásia". Robinson deveria “apagá-lo” logo ao reconhecer os primeiros sintomas de Alzheimer, os quais lhe foram explicados com a maior clareza. Sua primeira reação foi: “Mas, doutor, logo eu que gosto e respeito tanto o senhor?”.

- Exatamente por isso. Você é a única pessoa em q confio para tal tarefa. O plano só vai funcionar se for você o executor.

- Sei que o senhor planejou tudo para que eu não seja incriminado e que vou ficar bem de vida, mas não sei se terei coragem ...

- Vai ter sim. Veja isso como seu último serviço.

Os anos foram passando, o doutor cada vez mais rico e famoso e Robinson sempre dedicado e atento, até que num sábado de manhã quando o doutor entrou no carro para ir ao club de golf, Robinson deu-lhe um tapinha nas costas: “Doutor, é com muita tristeza q lhe digo q chegou a hora"
- Hora?
- Sim, vamos à sua casa de campo cumprir o plano.

- Plano?
- Sim o negócio da eutanásia que o senhor me explicou. O senhor não percebe, mas não é de hoje q vem fazendo uma série de cagadas, com perdão da palavra. Tenho tudo anotadinho. A arma e o anestésico estão comigo.

Antes que Robinson ligasse o motor o doutor desceu do carro como se estivesse esquecido alguma coisa e correu para casa. Já entrou gritando “mulher, ligue já pro seu irmão. Robinson ficou maluco.”

-É isso mesmo Pacheco, ele me ameaçou de morte.

- Por que?

- Sei lá, acho que pirou. Deve ter algum desvio mental q não tinha notado.

- E como é q v. não percebeu isso antes? Você é psicólogo, caralho!

- Sempre foi um cara normal. Não sei o q deu nele!

- Que filha da puta! Deixe comigo, vou cuidar disso pessoalmente. Agora! Dê uma desculpa a ele e se tranque em casa. Vou mandar uma viatura.

13 de setembro de 2010

Summertime

Summertime

Virou de lado e colocou um travesseiro sobre o rosto para se proteger do raio de sol que filtrava pela veneziana. Não estava sonhando, era mesmo o Adágio de Albinone que vinha do banheiro. Espreguiçou-se, colocou o roupão, entreabriu a porta do banheiro e ficou imóvel observando. Através do vidro embaçado do box se deu conta de como ela ainda continuava atraente. A meticulosidade com que ela limpava seu corpo o impressionara desde a primeira vez em que a vira tomar banho. Não era apenas meticulosidade ou capricho, era técnica. Banho, para ela, era uma cerimônia, um ritual de prazer - a água morna escorrendo pelos cabelos castanhos; a maneira delicada de deslizar o sabonete por todo o corpo, reentrâncias e saliências, os dedos longos, unhas cortadas rentes, sem esmalte, espalhando a espuma, milimetricamente; e depois o detalhe em se enxaguar, passar as mãos pelo corpo para retirar o excesso de água antes de se enxugar; a elegância com que se equilibrava em uma perna e enxugava os dedos dos pés ...
Ao perceber a presença dele, olhou intrigada e foi logo avisando que era dia de folga da empregada e teriam que preparar o próprio café da manhã.
A música o deixara sensível e inspirado; parecia haver algo especial no ar leve daquela manhã de verão. Disse a ela para relaxar e ficar ouvindo o programa matinal da Cultura FM enquanto ele preparava o café. Sentia um inexplicável bem-estar e em paz com a vida após uma semana agitada e a perspectiva de um domingo de lazer e preguiça, sem nenhuma programação. Resolveu impressioná-la com um desjejum especial, fora da rotina do dia-a-dia, dos cafés corridos e do beijo mecânico e apressado antes de sair para deixar as crianças na escola, sempre um pouco atrasado ...
Sabia como ela adorava tomar o café da manhã ao ar livre. Sempre que podia passava a mão no suplemento de cultura do Estadão e ia tomar a última chicara de café no jardim dos fundos. Ás vezes levava seu pequeno binóculo e ficava observando os sabiás-laranjeira e sanhaços, sanhaçús, como ela gostava de dizer, beliscando os restos de fruta que ela espetava nos espinhos do pé de limão galego, do qual se orgulhava tanto de haver plantado.

Preparou suco de tangerina misturado com lima-da-pérsia para dar um leve amargor, papaia já sem sementes e com uns pingos de limão como ela gostava, uvas rubi do vale do São Francisco, torradas de pão integral, geléia de mexerica-bode feita pela tia Milena em Taiaçú, queijo de minas, café colhido e torrado na fazenda e leite fumegante, espumado. Forrou a mesa do jardim com uma toalha de linho branco e arranjou os talheres, louças e comidas caprichosamente, enfeitando a mesa com um copo longo de tomar grappa, lembrança da lua de mel em Florença, onde colocou uns tufinhos de flores de capim e dois raminhos de beijo lilás que apanhara embaixo da pitangueira. María não era mulher de orquídeas, dálias, flores exuberantes; preferia uma florzinha simples, destas que crescem nos terrenos baldios. Quando tudo estava pronto ficou satisfeito com seu trabalho e assobiou.
Ela apareceu descalça e faceira, e com um ar maroto foi dizendo “opa!, café no jardim, hummm ....” Pegou uma torrada, passou manteiga, Aviação, daquelas de lata (nunca usava margarina), e espalhou um pouco de geléia de mexerica azedo-amarga sobre a manteiga, tomou um gole de suco, comentou o perfume do sumo da lima e o colorido da tangerina, e perguntou onde ele havia aprendido a arranjar uma mesa daquele jeito? “O que você pretende? Não está com segundas intenções né?”
Embora ele se sentisse ridículo no roupão bordô de seda que ela lhe dera no aniversário, não podia negar que era confortável e, além disto, hoje estava afim de agradá-la, aproveitando a ausência dos filhos, no sítio dos avós. Observou como ela estava provocante no kimono que ele havia trazido por “engano” de um hotel de Kyoto: branco com ramos verdes de bambu, estilizados, e escritas elegantes que ele não tinha a mínima idéia do significado. O kimono, pequeno para ela, deixava entrever o seio esquerdo até quase a ponta do mamilo. Proposital ou apenas descuido?
Enquanto tomava seu suco, olhava de soslaio, pensando que ela sabia muito bem como ele adorava aqueles seios. Ficou excitado ao vê-la lamber os dedos; ah, aqueles lábios, molhados, com aroma de mexerica ... Sai desejo vão!
Há muito não ousava pedir certas carícias. Achava deselegante com medo de ouvir uma desculpa que invariavelmente o deixaria emburrado o resto do dia. A idéia de forçá-la a fazer uma coisa de que não gostasse o deixava sem ação. Por isso, há já um bom tempo preferia que ela tomasse a iniciativa para um contato mais íntimo, numa espera quase sempre ansiosa e frustrante. Mesmo assim, sempre que podia transmitia mensagens subliminares de desejo. Agora mesmo, posicionara-se de forma estratégica, torcendo para que ela reparasse na elevação sob seu roupão. Distraída ela olhava os movimentos nervosos do arisco sanhaço, alheia à presença dele.
Parecia feliz, pernas abertas e esticadas, abrindo e fechando os dedos do pé de uma forma que só ela conseguia fazer, relaxada. Ao se aproximar para pegar uma torrada do outro lado da mesa ela enfiou sua mão, aquecida pela xícara de café, por sob o roupão, e o prendeu delicadamente, provocando-lhe uma agradável onda de calor e um arrepio nas virilhas. O cinto do roupão se soltou, ela deu um suspiro longo e o puxou para mais perto; pôs-se mais cômoda na cadeira e começou a acariciá-lo como nunca havia feito.
Meu deus, onde será que ela aprendeu essas coisas? Ele olhava para o limoeiro mas já não via os sanhaços .... . Só lhe ocorreu perguntar quando seria a próxima folga da empregada.

30 de agosto de 2010

Ano Novo

Ano Novo

O som que vinha do outro lado da rua era insuportável – quase cinco horas da manhã e a festa seguia  em ritmo de bate-estaca. Seu corpo estava pegajoso de suor e os pernilongos não davam trégua. “Fim de ano em Ubatuba é isto mesmo, e não aprendo, acabo sempre voltando para cá. Devíamos ter ficado em Sampa assistindo à São Silvestre”, falou pra mulher. Desistiu de tentar dormir, colocou um calção e saiu em direção à praia em busca de uma brisa e do silêncio.

A lua, embora de quarto, tinha luz suficiente para iluminar o caminho. Ao pisar na areia sentiu o cheiro de pólvora dos fogos queimados na virada do ano. Sentou-se numa espreguiçadeira esquecida na duna e ficou olhando a espuma das ondas pratejando a areia grossa da praia. Ouviu sussurros e viu dois vultos de branco que vinham em sua direção. Puxou a espreguiçadeira mais para cima de modo a passar despercebido na sombra projetada pela amendoeira - não estava afim de encontrar ninguém. Caminhavam devagar, de mãos dadas. Pararam, a uns trinta metros dele, abraçaram-se e estenderam uma tolha na areia fofa. Conseguia ouvir palavras soltas, mas não entendia bem o que diziam. Ele se deitou, ela se dirigiu devagar até onde as ondas se quebravam e caminhou pela espuma, para lá e para cá. Um pouco depois voltou e se aninhou ao lado dele.
Uma nuvem vagando para o leste cobiu a lua e uma sombra envolveu o casal. Mesmo assim percebeu um vulto se abaixando lentamente e se encaixando sobre o corpo deitado na toalha. Aguçou os ouvidos. Gemidos contidos se intercalavam com o marulhar ritimado das ondas. Vislumbrou sombras de um lento cavalgar. Amazona sobre cavalo marinho.

Constrangido pensou em recuar discretamente, mas foi ficando. Recolheu-se ainda mais na sombra da amendoeira com medo de ser visto, procurando controlar sua excitação. Os gemidos atingiram um crescendo. Gradualmente diminuíram e cessaram quando a lua voltou a brilhar.
O céu começou a clarear lá pelas bandas da ilha Anchieta e foi ficando cor de fogo, avermelhado, ofuscando o quarto crescente.
Uma brisa fresca começou a soprar do nascente. O casal levantou-se e entrou no mar sem tirar a roupa. Agora já era possível ver que ela era um pouco gorda, cabelos longos, encaracolados; o rapaz magro, alto, com barba. Chacoalharam a água do mar, abraçaram-se e saíram de mãos dadas, as roupas grudadas no corpo, voltando pelo caminho por onde vieram. Ao perceberem sua presença, ainda na cadeira de praia, ela deu um sorriso sem-graça e ele fez um aceno com a cabeça.

Ainda se sentia grudento e excitado. Tirou o calção, deu um mergulho, e voltou para casa, em busca de um café e um cigarro, matutando que os jovens não sabiam  como era ser jovem.

24 de agosto de 2010

Curtas

BIC

Ah, esta minha compulsão em roubar canetas. Vez em quando me surpreende e fico morrendo de vergonha. Roubo e perco. Ou será q me roubam? Não fosse assim teria milhares de bics. Por falar nisso, você conhece alguém q já comprou uma?


QUERO PORQUE QUERO

E o quero-quero lá, no meio da pista, impassível ao ronco ensurdecedor das turbinas, esticava o pescoço e dava de ombros, quero dizer de asas. Foi só quando o gigantesco Boeing projetou sua sombra sobre ele q se tocou, deu um pulinho para o lado e alçou vôo, displicente. Embora acostumado com a prepotência humana em invadir seu espaço aéreo, e terrestre, protestou alto com gritos esganiçados, inúteis, pensando lá com seus remígios “Ah esses homens: fingem q sabem voar. Não é à toa q vez em quando se esborracham”, e num vôo gracioso fez uma curva ampla, quase sem bater as asas, retornando para junto de sua companheira q zelava aflita pelos ovos pintalgados de verde no ninho raso.


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13 de julho de 2010

Quarta Parada

QUARTA PARADA

Finalmente conseguiu controlar a velha mania de arrancar pêlos da barba, coisa de quando estava entediado. Com um gesto discreto chamou a atenção da mulher para um saco plástico, destes de supermercado, que se movia estranhamente no canto da sala.

Um cheiro enjoado e quente, mistura de ozonizador, formol, vela queimada e crisântemos tornava o ar pesado. Afrouxou um pouco o nó da gravata e sussurrou que aquele cheiro lhe trazia lembranças de um táxi com "Bom Ar" que tomara no Bexiga no dia anterior.

A cabeça de um gatinho magricela espiou pela boca do saco e voltou a se esconder.

Soluços entrecortados alternavam-se com frases quase inaudíveis do outro lado da sala. O calor e aquele cheiro lhe davam uma sensação de angústia e desconforto.

A atenção do casal se voltou para uma velha de preto que interrompera sua conversa com as amigas para espantar um outro gatinho que entrava na sala.
- Por que será que há tantos gatos neste velório?, resmungou a mulher.

Os cheiros se misturavam no corredor mal-iluminado que ligava as salas, onde algumas pessoas saíam para fumar e esticar as pernas, andando de um lado para outro com ar compenetrado. Caixões entravam e saíam das salas em uma maca alta sobre rodas, acompanhados pelo vai-e-vem de parentes e amigos dos mortos.
- Não deve ser trivial administrar um velório deste porte, comentou o homem de barba, apreciando o movimento.

O casal se sentia incomodado por não conhecer ninguém.
- Sequer temos certeza se estamos na sala certa - cochichou a mulher, de mau humor.
- Como não? Checamos o nome da morta mais de uma vez, Virgínia Stecchino. Não pode haver duas pessoas com este nome e neste velório, retrucou o marido.
- Mas então onde está Anita?
Uma senhora de olhos lacrimejantes, que só podia ser parente da morta, ouviu o comentário e disse que Anita saíra para tomar um banho, mas que não demoraria.

- E se fôssemos embora e deixássemos um cartão de condolências?, falou a mulher, que ainda segurava o ramalhete de cravos comprados na esquina, não sabendo a quem entregá-lo.
- Pô mulher! Viemos de tão longe, compramos as flores e agora vamos embora sem ver Anita? Aguenta mais um pouco.

A mulher apoiou a cabeça na parede procurando uma posição um pouco mais confortável e lamentou-se de não haver trazido o livro do Quiroga, que já estava no final. Era bem adequado para um velório.
- Ora, só me faltava esta, lendo num velório! E você, pensa que eu não preferia estar jogando tênis no clube?

Um homem alto, passando dos cinquenta, ar desleixado, camisa parcialmente fora da calça jeans, barras sujas de lama e cara de sono, entrou na sala puxando pela mão um senhor de bengala, curvado pelos anos.
- O homem alto, o velho e a morta são obviamente parentes e de ascendência norte-européia. É só esperar para ouvir o sotaque, comentou o marido, voltando a escarafunchar a barba.
Ao que a mulher respondeu:
- Italianos! Esqueceu o sobrenome da sua secretária, Stecchino? O homem alto deve ser o irmão de Anita, e o velho um tio.
O velho ficou parado no meio da sala com ar apalermado, enquanto o homem alto se aproximou do caixão.

- Mais meia hora, no máximo, e puxamos o carro, não aguento mais. Não sei porque você me trouxe neste fim de mundo para um velório, resmungou a mulher. “Afinal a secretária é sua. Além do mais você deveria ter se informado melhor do caminho, antes de sair por aí, perguntando a cada esquina onde ficava o velório. Neste fim de mundo deveria ser a última e não a Quarta Parada”, disse a mulher fazendo graça.

Anita chegou logo depois, com uma sacola e mais uma braçada de flores que colocou rapidamente sobre a morta antes de vir cumprimentar o chefe e sua esposa.
- Oh, Dr. Henrique, não deveria ter se incomodado. O senhor ... tão ocupado! Só deixei o recado na sua mesa porque não irei trabalhar segunda-feira. Coitada da mamãe, foi doente a vida inteira, sofreu tanto!
A esposa de Henrique entregou as flores, logo esparramadas pela secretária sobre o véu negro que cobria a defunta, e consolou Anita com as frases de sempre:
- Henrique me contou, foi melhor assim, nestes casos a morte é um descanso...
O velho de bengala, ainda sem jeito, deu uma olhada geral na sala, fazendo um cumprimento genérico, e se dirigiu a uma cadeira vazia, ao lado da mulher do chefe, que instintivamente recuou um pouco.

- Mas tio, o senhor não quer dar uma olhada nela?, disse o homem alto.
Ao que o velho respondeu:
- Quem é ela?
- É tia Virgínia, sua irmã. Venha, e arrastou o velho para perto do caixão.
- Virgiiinia, minha irmã!, soou alta a voz trêmula do velho. O que fizeram com você? Não pode ser!. Tentou  arrancar o véu, derrubando os cravos. Começou a beijar sofregamente a morta, chamando a atenção de todos. “O que fizeram com você? Por que Deus faz isto com as pessoas? E ainda mais com as mulheres? Virgínia, você se lembra quando éramos meninos e roubávamos manga do vizinho?” Soluçando arrastou-se para a cadeira, acariciando o cabo da bengala.
A esposa de Henrique notou as mãos finas e delicadas do velho e uma certa elegância em sua postura, apesar da pele pregueada como papel vegetal amarrotado, através da qual transparecia uma bacia hidrográfica de veias azuladas. Trajava uma calça de casimira inglesa marrom feita sob medida, sapatos de camurça fora de moda mas bem conservados, suspensórios e uma camisa de cambraia branca de listras finas.
Aos poucos o velho foi se acalmando, e os presentes retomaram as conversas interrompidas por sua reação intempestiva

O gatinho agora brincava com as borboletas dos parafusos da tampa do caixão, apoiada num canto da parede.
O velho virou-se para o chefe e perguntou:
- De que morreu a moça?
- Ouvi dizer que teve uma infecção pulmonar, respondeu o chefe, desconcertado com tal pergunta.
- Então foi de doença? Coitadinha, tão jovem e bonita. Deve ser duro morrer de infecção pulmonar. E como se chamava a moça?
- Virgínia, respondeu o chefe, com uma piscada marota para a mulher.
- Que coincidência! Tenho uma irmã que também se chama Virgínia. Sabe, eu sou católico e tenho respeito a Deus, mas com a morte não concordo! Por que Deus tem que matar as pessoas? Ele cria, e depois mata!, e veemente: Com isto não concordo! E ainda mais matar mulher, e tão jovem e bonita como esta. Se fosse um homem podia se aceitar, o homem é meio bruto, não vai à igreja. Aposto que esta aí não fez mal a ninguém. O que ela pode ter feito para merecer a morte ? Um condenado, um criminoso, vá lá , mas uma mulher tão bonita?

A secretária se aproximou envergonhada e sussurrou para o chefe:
- Meu tio já tem 85 anos e a cabecinha dele não funciona muito bem. A gente não queria trazê-lo, mas ficamos com medo que fizesse um escândalo se soubesse da morte dela após o enterro.
- Tudo bem, respondeu o chefe, É apenas um idoso carente à procura de ouvintes. Não se preocupe.

Mais tranquila Anita resolveu fazer as apresentações.
- Olha tio, este senhor é o Dr. Henrique, diretor da Faculdade de Biologia. Trabalho com ele na Universidade, e esta é a esposa dele, dona Margherita.
- Anita sempre conta coisas da faculdade nas macarronadas de domingo. Puxa! Aquilo é um vespeiro hein?
- Tio, interrompeu Anita, ruborizada, procurando mudar de assunto. Fale de seu trabalho.
- Ah! O senhor sabe que trabalhei 35 anos no Teatro Municipal? Mas isto nos bons tempos, quando aquilo era mesmo um teatro. Hoje está praticamente fechado, não tem mais espetáculos, só levam algumas orquestras sinfônicas e uns balés, nada que valha a pena. No meu tempo sim, era magnífico! Ouvi Caruso, Gigli, Schipa. E tinha uma soprano, Bidu Sayão, dona de uma voz incrível. O senhor sabia que ela era brasileira?. O Caruso me deu uma foto autografada. Eu sabia cantar trechos da Aída e da Traviata. Diziam que eu tinha voz de tenor. Depois dos espetáculos os cantores iam comer nas cantinas do Bexiga, e a gente podia chegar perto deles. Era uma grande alegria! Eu morava no Bom Retiro. Lembro como se fosse hoje: num domingo de manhã fui pescar no Rio Tietê, perto do Clube Espéria. Eu queria pegar uns lambaris. Tinha oito anos e longos cachos dourados. Minha mãe gostava de cachos. Nesse dia, cheguei muito perto do barranco, escorreguei e caí no rio. Um homem me agarrou pelos cabelos e me salvou. Veja só, salvo pelos cachos, que detestava! Mas acho que teria sido melhor ter morrido pois assim não teria que morrer depois. Não temo a morte mas tenho muito medo de ficar velho. Como era mesmo o nome da moça que morreu?

O casal se entreolhou novamente.
- O senhor sabe que eu trabalhei 35 anos no Teatro Municipal? Isto nos bons tempos, quando aquilo era mesmo um teatro, hoje está fechado. Assisti Caruso, Gigli, Schipa, ...
- É um toca fitas com tape-reverso, comentou baixinho a mulher do chefe.

A secretária estava cada vez mais aflita. Pediu licença e levou o tio para fora da sala. O casal achou que era uma boa deixa para zarpar. Ao se despedirem, comentaram que não era preciso tirar o tio da sala pois eles também tinham parentes com o mesmo problema.
- Aliás, quem não tem? A alternativa para não ficar velho é morrer moço, não é?
A secretária replicou que receava que ele começasse a cantar ópera, pois tinha uma voz muito forte e certamente causaria mal-estar na família e nos outros velórios. Isto já havia acontecido na morte de outro parente.

No carro a mulher comentou que afinal até que os parentes da secretária eram simpáticos e que o velório não tinha sido tão aborrecido assim, graças ao irmão da morta e ao gatinho.
- Aliás, se este gato não viesse de um velório levaria ele para sua sobrinha. Depois prosseguiu, provocando o marido:
- Curioso, o velho parecia tão bem fisicamente, até feliz, não fosse a praga da esclerose. Você que se cuide porque isto é hereditário. Veja seus tios!
O marido, mais monologando que respondendo, resmungou que ficar esclerosado era o que mais temia, preferia morrer antes. E deu curso ao seu costume, vício do trabalho, de meter darwinismo em todas as situações do dia-a-dia, ponderando que, afinal, a esclerose deveria ter algum valor adaptativo, algum papel biológico, ou não seria tão frequente. Seria uma espécie de autodefesa, escape passageiro da realidade resultante das carências hormonais e vitória crescente dos processos de apoptose, destinados a tornar as limitações do envelhecimento e degeneração geral mais aceitáveis pelos "sobreviventes" da terceira idade. Assim, sempre que a mente antevisse uma situação de forte estresse emocional alguns neurônios seriam desligados evitando sofrimento maior. Talvez até com consequências físicas, como acidentes vasculares ....
_ Acho que você tá delirando. Vamos logo, o farol já abriu.
Henrique engatou uma primeira e pontificou:
- Pensando bem, acho perdi um pouco o pavor de ficar esclerosado.