QUARTA PARADA
Finalmente conseguiu controlar a velha mania de arrancar pêlos da barba, coisa de quando estava entediado. Com um gesto discreto chamou a atenção da mulher para um saco plástico, destes de supermercado, que se movia estranhamente no canto da sala.
Um cheiro enjoado e quente, mistura de ozonizador, formol, vela queimada e crisântemos tornava o ar pesado. Afrouxou um pouco o nó da gravata e sussurrou que aquele cheiro lhe trazia lembranças de um táxi com "Bom Ar" que tomara no Bexiga no dia anterior.
A cabeça de um gatinho magricela espiou pela boca do saco e voltou a se esconder.
Soluços entrecortados alternavam-se com frases quase inaudíveis do outro lado da sala. O calor e aquele cheiro lhe davam uma sensação de angústia e desconforto.
A atenção do casal se voltou para uma velha de preto que interrompera sua conversa com as amigas para espantar um outro gatinho que entrava na sala.
- Por que será que há tantos gatos neste velório?, resmungou a mulher.
Os cheiros se misturavam no corredor mal-iluminado que ligava as salas, onde algumas pessoas saíam para fumar e esticar as pernas, andando de um lado para outro com ar compenetrado. Caixões entravam e saíam das salas em uma maca alta sobre rodas, acompanhados pelo vai-e-vem de parentes e amigos dos mortos.
- Não deve ser trivial administrar um velório deste porte, comentou o homem de barba, apreciando o movimento.
O casal se sentia incomodado por não conhecer ninguém.
- Sequer temos certeza se estamos na sala certa - cochichou a mulher, de mau humor.
- Como não? Checamos o nome da morta mais de uma vez, Virgínia Stecchino. Não pode haver duas pessoas com este nome e neste velório, retrucou o marido.
- Mas então onde está Anita?
Uma senhora de olhos lacrimejantes, que só podia ser parente da morta, ouviu o comentário e disse que Anita saíra para tomar um banho, mas que não demoraria.
- E se fôssemos embora e deixássemos um cartão de condolências?, falou a mulher, que ainda segurava o ramalhete de cravos comprados na esquina, não sabendo a quem entregá-lo.
- Pô mulher! Viemos de tão longe, compramos as flores e agora vamos embora sem ver Anita? Aguenta mais um pouco.
A mulher apoiou a cabeça na parede procurando uma posição um pouco mais confortável e lamentou-se de não haver trazido o livro do Quiroga, que já estava no final. Era bem adequado para um velório.
- Ora, só me faltava esta, lendo num velório! E você, pensa que eu não preferia estar jogando tênis no clube?
Um homem alto, passando dos cinquenta, ar desleixado, camisa parcialmente fora da calça jeans, barras sujas de lama e cara de sono, entrou na sala puxando pela mão um senhor de bengala, curvado pelos anos.
- O homem alto, o velho e a morta são obviamente parentes e de ascendência norte-européia. É só esperar para ouvir o sotaque, comentou o marido, voltando a escarafunchar a barba.
Ao que a mulher respondeu:
- Italianos! Esqueceu o sobrenome da sua secretária, Stecchino? O homem alto deve ser o irmão de Anita, e o velho um tio.
O velho ficou parado no meio da sala com ar apalermado, enquanto o homem alto se aproximou do caixão.
- Mais meia hora, no máximo, e puxamos o carro, não aguento mais. Não sei porque você me trouxe neste fim de mundo para um velório, resmungou a mulher. “Afinal a secretária é sua. Além do mais você deveria ter se informado melhor do caminho, antes de sair por aí, perguntando a cada esquina onde ficava o velório. Neste fim de mundo deveria ser a última e não a Quarta Parada”, disse a mulher fazendo graça.
Anita chegou logo depois, com uma sacola e mais uma braçada de flores que colocou rapidamente sobre a morta antes de vir cumprimentar o chefe e sua esposa.
- Oh, Dr. Henrique, não deveria ter se incomodado. O senhor ... tão ocupado! Só deixei o recado na sua mesa porque não irei trabalhar segunda-feira. Coitada da mamãe, foi doente a vida inteira, sofreu tanto!
A esposa de Henrique entregou as flores, logo esparramadas pela secretária sobre o véu negro que cobria a defunta, e consolou Anita com as frases de sempre:
- Henrique me contou, foi melhor assim, nestes casos a morte é um descanso...
O velho de bengala, ainda sem jeito, deu uma olhada geral na sala, fazendo um cumprimento genérico, e se dirigiu a uma cadeira vazia, ao lado da mulher do chefe, que instintivamente recuou um pouco.
- Mas tio, o senhor não quer dar uma olhada nela?, disse o homem alto.
Ao que o velho respondeu:
- Quem é ela?
- É tia Virgínia, sua irmã. Venha, e arrastou o velho para perto do caixão.
- Virgiiinia, minha irmã!, soou alta a voz trêmula do velho. O que fizeram com você? Não pode ser!. Tentou arrancar o véu, derrubando os cravos. Começou a beijar sofregamente a morta, chamando a atenção de todos. “O que fizeram com você? Por que Deus faz isto com as pessoas? E ainda mais com as mulheres? Virgínia, você se lembra quando éramos meninos e roubávamos manga do vizinho?” Soluçando arrastou-se para a cadeira, acariciando o cabo da bengala.
A esposa de Henrique notou as mãos finas e delicadas do velho e uma certa elegância em sua postura, apesar da pele pregueada como papel vegetal amarrotado, através da qual transparecia uma bacia hidrográfica de veias azuladas. Trajava uma calça de casimira inglesa marrom feita sob medida, sapatos de camurça fora de moda mas bem conservados, suspensórios e uma camisa de cambraia branca de listras finas.
Aos poucos o velho foi se acalmando, e os presentes retomaram as conversas interrompidas por sua reação intempestiva
O gatinho agora brincava com as borboletas dos parafusos da tampa do caixão, apoiada num canto da parede.
O velho virou-se para o chefe e perguntou:
- De que morreu a moça?
- Ouvi dizer que teve uma infecção pulmonar, respondeu o chefe, desconcertado com tal pergunta.
- Então foi de doença? Coitadinha, tão jovem e bonita. Deve ser duro morrer de infecção pulmonar. E como se chamava a moça?
- Virgínia, respondeu o chefe, com uma piscada marota para a mulher.
- Que coincidência! Tenho uma irmã que também se chama Virgínia. Sabe, eu sou católico e tenho respeito a Deus, mas com a morte não concordo! Por que Deus tem que matar as pessoas? Ele cria, e depois mata!, e veemente: Com isto não concordo! E ainda mais matar mulher, e tão jovem e bonita como esta. Se fosse um homem podia se aceitar, o homem é meio bruto, não vai à igreja. Aposto que esta aí não fez mal a ninguém. O que ela pode ter feito para merecer a morte ? Um condenado, um criminoso, vá lá , mas uma mulher tão bonita?
A secretária se aproximou envergonhada e sussurrou para o chefe:
- Meu tio já tem 85 anos e a cabecinha dele não funciona muito bem. A gente não queria trazê-lo, mas ficamos com medo que fizesse um escândalo se soubesse da morte dela após o enterro.
- Tudo bem, respondeu o chefe, É apenas um idoso carente à procura de ouvintes. Não se preocupe.
Mais tranquila Anita resolveu fazer as apresentações.
- Olha tio, este senhor é o Dr. Henrique, diretor da Faculdade de Biologia. Trabalho com ele na Universidade, e esta é a esposa dele, dona Margherita.
- Anita sempre conta coisas da faculdade nas macarronadas de domingo. Puxa! Aquilo é um vespeiro hein?
- Tio, interrompeu Anita, ruborizada, procurando mudar de assunto. Fale de seu trabalho.
- Ah! O senhor sabe que trabalhei 35 anos no Teatro Municipal? Mas isto nos bons tempos, quando aquilo era mesmo um teatro. Hoje está praticamente fechado, não tem mais espetáculos, só levam algumas orquestras sinfônicas e uns balés, nada que valha a pena. No meu tempo sim, era magnífico! Ouvi Caruso, Gigli, Schipa. E tinha uma soprano, Bidu Sayão, dona de uma voz incrível. O senhor sabia que ela era brasileira?. O Caruso me deu uma foto autografada. Eu sabia cantar trechos da Aída e da Traviata. Diziam que eu tinha voz de tenor. Depois dos espetáculos os cantores iam comer nas cantinas do Bexiga, e a gente podia chegar perto deles. Era uma grande alegria! Eu morava no Bom Retiro. Lembro como se fosse hoje: num domingo de manhã fui pescar no Rio Tietê, perto do Clube Espéria. Eu queria pegar uns lambaris. Tinha oito anos e longos cachos dourados. Minha mãe gostava de cachos. Nesse dia, cheguei muito perto do barranco, escorreguei e caí no rio. Um homem me agarrou pelos cabelos e me salvou. Veja só, salvo pelos cachos, que detestava! Mas acho que teria sido melhor ter morrido pois assim não teria que morrer depois. Não temo a morte mas tenho muito medo de ficar velho. Como era mesmo o nome da moça que morreu?
O casal se entreolhou novamente.
- O senhor sabe que eu trabalhei 35 anos no Teatro Municipal? Isto nos bons tempos, quando aquilo era mesmo um teatro, hoje está fechado. Assisti Caruso, Gigli, Schipa, ...
- É um toca fitas com tape-reverso, comentou baixinho a mulher do chefe.
A secretária estava cada vez mais aflita. Pediu licença e levou o tio para fora da sala. O casal achou que era uma boa deixa para zarpar. Ao se despedirem, comentaram que não era preciso tirar o tio da sala pois eles também tinham parentes com o mesmo problema.
- Aliás, quem não tem? A alternativa para não ficar velho é morrer moço, não é?
A secretária replicou que receava que ele começasse a cantar ópera, pois tinha uma voz muito forte e certamente causaria mal-estar na família e nos outros velórios. Isto já havia acontecido na morte de outro parente.
No carro a mulher comentou que afinal até que os parentes da secretária eram simpáticos e que o velório não tinha sido tão aborrecido assim, graças ao irmão da morta e ao gatinho.
- Aliás, se este gato não viesse de um velório levaria ele para sua sobrinha. Depois prosseguiu, provocando o marido:
- Curioso, o velho parecia tão bem fisicamente, até feliz, não fosse a praga da esclerose. Você que se cuide porque isto é hereditário. Veja seus tios!
O marido, mais monologando que respondendo, resmungou que ficar esclerosado era o que mais temia, preferia morrer antes. E deu curso ao seu costume, vício do trabalho, de meter darwinismo em todas as situações do dia-a-dia, ponderando que, afinal, a esclerose deveria ter algum valor adaptativo, algum papel biológico, ou não seria tão frequente. Seria uma espécie de autodefesa, escape passageiro da realidade resultante das carências hormonais e vitória crescente dos processos de apoptose, destinados a tornar as limitações do envelhecimento e degeneração geral mais aceitáveis pelos "sobreviventes" da terceira idade. Assim, sempre que a mente antevisse uma situação de forte estresse emocional alguns neurônios seriam desligados evitando sofrimento maior. Talvez até com consequências físicas, como acidentes vasculares ....
_ Acho que você tá delirando. Vamos logo, o farol já abriu.
Henrique engatou uma primeira e pontificou:
- Pensando bem, acho perdi um pouco o pavor de ficar esclerosado.